Com a aproximação do final do ano, as pessoas parecem, de maneira geral, mais abertas a sentimentos nobres. Talvez por isso, nas últimas semanas, vários conhecidos compartilharam, pelo Facebook, um interessante vídeo no qual câmeras de segurança em Recife flagram momentos de solidariedade nas ruas desta cidade. No ano passado, cheguei a ver outro vídeo, parecido, mostrando pessoas fazendo coisas gentis ou engraçadas. Creio que os fragmentos são reais, embora o filme seja uma propaganda.
Gosto desses vídeos por dois motivos. Primeiro, demonstram que as tecnologias possuem usos que escapam aos seus planejadores: câmeras para monitorar infrações podem fazer outros registros. Segundo, mostram a beleza da gentileza desinteressada.
Praticar um ato qualquer que beneficie outra pessoa não precisa de justificativa nem de recompensa, além do sentimento de pertencer à “família humana”. Porém, fazer algo para os outros pode ser uma forma de obter conhecimentos. As escolas e os professores podem imaginar tarefas que, propiciando aprendizados, tenham preocupações com o desenvolvimento do senso de generosidade e de reciprocidade.
Há algum tempo, conversando com uma gestora de educação, ela contou-me sobre seu interesse em desenvolver um projeto em que estudantes com mais idade aprendessem noções de programação para fazer jogos educativos que fossem usados pelos alunos mais jovens da escola. Entre parênteses: o ensino de programação com o fim de desenvolver habilidades lógicas, entre outras, tem sido bastante discutido, e há uma
apresentação TED do criador do programa
Scratch sobre essa questão.
A proposta é boa, porém, seria interessante que os professores desenvolvessem também uma linha complementar, nessa articulação entre aprendizado, generosidade e tecnologias, na qual eles proporiam um “cardápio” de propostas que poderiam ser escolhidas e desenvolvidas pelos alunos. A vantagem dessa alternativa é reforçar a autenticidade da tarefa ou projeto do(s) estudante(s).
Um banco de experiências pedagógicas seria bastante útil para estimular a imaginação dos professores. No entanto, é certo que, graças aos recursos da web 2.0, não é difícil imaginar possibilidades. De qualquer modo, posso dar um exemplo pessoal.
Ao navegar no YouTube, alguns meses atrás, descobri a existência de uma plataforma digital on-line para a feitura de legendas chamada
Amara. O aplicativo é gratuito e pode funcionar para inserir legendas tanto em vídeos nos quais a pessoa que fez o upload já previu essa opção quanto naqueles em que isso não ocorreu.
Um usuário disponibilizou, em
seu canal no YouTube, uma série de animações russas, já legendadas em inglês, mas solicitando colaborações para a tradução das legendas em outras línguas. Neste espaço, localizei um desenho animado baseado num conto de Tchekhov, “Kachtanka”, e resolvi adicionar legendas em português. Trabalhei uma tarde toda na tarefa.
Mas valeu a pena. Tive o prazer de aprender (e é por isso que a tarefa autêntica, aquela que nos interessa de fato, é tão importante), devo notar que conhecia o conto de Tchekhov e o aprecio muito. A sensação positiva de que estaria sendo útil a alguém, socializando essa obra, também foi boa. O que aprendi? Aperfeiçoei minha competência em letramento digital – hoje sou capaz de legendar vídeos on-line, tarefa útil em meu cotidiano de professor – e também aumentei meu vocabulário em inglês.
Convido, assim, os leitores do NET Educação a verem essa bela animação vintage (feita em rotoscopia). Manipulando o tocador, é possível colocar a legenda em português.
Nesse espírito “generoso”, aproveito esse último texto do ano para desejar boas festas e um excelente 2014 a todos os leitores.
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