Dois textos recentes (em língua inglesa), disponíveis na internet, discutem a polêmica relação entre as tecnologias e a educação. O tipo, escopo e abrangência dos trabalhos são diferentes, no entanto, há alguma convergência, ou mesmo continuidade, entre eles. A conexão entre os textos está tanto na defesa da tecnologia como instrumento para estratégias pedagógicas (e não um meio em si) quanto, principalmente, no interesse pelo estudo dos contextos em que a tecnologia é utilizada na educação.
 
O mais amplo dos textos, o relatório de pesquisa Literature review of global use of mobile technology in education (disponível a partir de breve cadastro gratuito) apresenta, a partir de uma revisão da literatura, discussões sobre o uso da tecnologia na educação, com maior foco nos dispositivos móveis. O trabalho, publicado em janeiro deste ano, foi realizado numa parceria da agência educacional Techknowledge for Schools e do instituto de pesquisa Family Kids & Youth.
 
O relatório aborda os seguintes temas: 1) o crescente uso de tecnologias na sociedade, principalmente entre os jovens, que tem motivado tanto argumentos em defesa da incorporação de componentes curriculares voltados à compreensão e manejo destas tecnologias quanto manifestações de preocupação pelo fato de que a inserção das tecnologias móveis pode representar uma distração aos estudantes, prejudicando o desempenho escolar; 2) a falta de evidências robustas sobre o impacto da tecnologia nos processos de ensino e aprendizagem; 3) a crítica às pesquisas feitas sobre o tema até o momento e a necessidade de investigações adicionais, com novas metodologias e propósitos; e 4) um panorama sobre o uso educativo de dispositivos móveis na educação, ao redor do mundo, demonstrando que, ao mesmo tempo em que houve o interesse de muitos países em realizar projetos de grande escala voltados ao tema, várias nações acabaram abandonando-os, por razões como os problemas de infraestrutura, custo ou ausência de conteúdos educativos para os dispositivos.
 
A respeito da necessidade de estudo dos contextos nos quais se dá a utilização de tecnologias na educação, o relatório observa que a falta de evidências sobre o impacto direto deste uso é “parcialmente causada pela pesquisa raramente levar em conta o contexto no qual a tecnologia é usada. […] A pesquisa deveria perceber a tecnologia como uma ferramenta para promover determinada pedagogia ou estratégia pedagógica, e avaliar sua força e fraqueza para fazer isso” (p. 19).
 
É exatamente isso que uma pesquisa apresentada pela revista Teaching Tolerance faz. Ela é tema da reportagem de capa do número mais recente da publicação (primavera de 2016), enfatizando a educação para a equidade e o papel da tecnologia nesta questão. A matéria descreve, assim, o projeto de pesquisa-ação Smart Tech for Equity desenvolvido por alguns professores de educação básica de escolas para minorias de baixa renda, em San Diego, nos EUA. Este projeto possui um bom website, no qual são descritos os objetivos, preocupações gerais, tarefas já realizadas e resultados iniciais da investigação.
 
A relação entre equidade e tecnologias na educação está no centro da pergunta que impulsiona as diferentes pesquisas feitas pelos professores: “determinado uso da tecnologia ajuda a apoiar o desenvolvimento pleno da capacidade humana de cada estudante e de todos os grupos de estudantes?”. Uma etapa prévia da investigação, iniciada em 2014 (e ainda em desenvolvimento), foi a explicitação de usos de tecnologias que os professores conheciam e consideram inadequados. Depois, cada professor escolhia uma tecnologia e procurava desenvolver um uso “inteligente” e “para a equidade” da mesma. Tão importante quanto o uso era a reflexão esperada sobre essa prática escolar, por parte dos professores.
 
A noção de “equidade” buscou ultrapassar a ideia de que esta é garantida, simplesmente, pelo fato de todos os alunos terem acesso a algum dispositivo. De modo mais refinado, a equidade remetia à capacidade de, a partir do uso de algum recurso tecnológico (aplicativo, dispositivo, etc.), ajudar a que todos os alunos, individualmente e em termos dos diferentes grupos em que se dividem, alcançassem o aprendizado e o desenvolvimento integral. Estas duas noções conectam a “equidade” ao “uso inteligente” da tecnologia e foram elaboradas em discussões sobre critérios que tornam o uso da tecnologia produtivo. Além dos pontos positivos do uso de cada uma das tecnologias, os professores tinham também a missão de pensar nos pontos negativos de sua abordagem e transmitir sua experiência internamente aos colegas, e agora, a partir da divulgação, a todos os interessados.
 
Desse modo, parece haver um ganho de conhecimentos contextualizados que permitem um aprofundamento da compreensão sobre o tema. Talvez esse conhecimento seja mais pontual e menos generalizável do que o desejado por aqueles que desejam respostas definitivas sobre o papel das tecnologias na educação (elas são boas ou ruins?); porém pode ajudar na feitura de reflexões mais acuradas e no desenvolvimento de teorias de maior alcance no futuro. Ao mesmo tempo, esse conhecimento é muito útil para os professores, e pode servir como estímulo à reflexão dos docentes sobre o assunto, inclusive na prática de sala de aula de cada um.
 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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