Algumas memórias juvenis grudam na mente. Quando criança gostava de futebol e fui impactado pela derrota da seleção de 1982. Lembro perfeitamente do silêncio da cidade grande, após o fim do jogo – quebrado, vez ou outra, por algum fogo de artifício solitário. 1982 foi o Maracanazo da minha geração.

Houve, depois do jogo, uma sensação de tristeza coletiva e as reportagens de televisão tiveram, em vez de comemorar a vitória, que cobrir o clima de fim de festa. No bairro do Bixiga, em São Paulo, provavelmente, um repórter entrevistava um “nono” (avô italiano) que, no início, comemorava a vitória da Itália. No entanto, ao longo da reportagem, o velho italiano, ao ver a desolação geral, disse que preferia, se isso pudesse acontecer, que o Brasil tivesse vencido. É possível estar feliz quando todos estão tristes? 

Não sei se conhecia a palavra, mas entendi o significado do que aquele senhor sentia: “compaixão”. Conforme nota Milan Kundera, num trecho famoso de A insustentável leveza do ser: “nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre”.

Tenho pensando nisso, a propósito da votação na Câmara que aprovou o início do processo de afastamento da presidente Dilma, no qual um deputado teve o desplante de mencionar um torturador, elogiando a ditadura militar, durante seu voto. Que forma de sadismo leva alguém a fazer isso?

Pior, ele consegue seguidores em redes sociais, que criam páginas louvando o seu “espírito zueiro”. Conheci esse fenômeno graças a um excepcional trabalho de fim de curso, realizado pelos estudantes de graduação da Escola de Comunicação e Artes (ECA) na USP Luís Guilherme Marques Ribeiro, Cristina Lasaitis e Lígia Gurgel. De acordo com esse estudo, num bom uso da teoria da comunicação, as redes sociais alteram a lógica da chamada “espiral do silêncio”; ou seja, o silenciamento de opiniões radicais que não encontrem respaldo no meio social. Ora, como nas redes é possível agregar pessoas de localidades muito diferenciadas, bem como formar “bolhas de opinião”, o terreno para os extremistas (de qualquer teor) está protegido dos efeitos da espiral do silêncio.

O discurso “bem humorado”, cáustico, cínico da página de Facebook criada para esse deputado parece atrativo a muitos jovens. O problema é que esse discurso é com frequência misógino, homofóbico e preconceituoso de maneira geral. E quanto mais polêmica, mais “likes” ou repercussão/comentários. Mas a que preço? Rir da dor alheia, no fim, é só uma maneira do próprio piadista tornar-se menos humano, menos capaz de sentir compaixão.

Em tudo e por tudo, a educação deve enfrentar essa tendência. Não se trata de negar as diferenças de opinião política nem proibir o debate e o humor, mas sim de pensar no sentido e consequências de nossas risadas e discussões. Nessa perspectiva, é interessante a proposta de atividade pedagógica, elaborada por Cláudia Mogadouro, aqui no NET Educação, sobre o filme O Riso dos Outros. 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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