No currículo para formação de professores em Alfabetização Midiática e Informacional, elaborado por especialistas da Unesco, publicado originalmente em 2011 e traduzido e editado em português em 2013 (disponível aqui), o tema da relação entre as mulheres e a mídia recebe atenção. O documento observa que há duas perspectivas principais a propósito da temática. Uma delas relaciona-se à imagem ou ao modo como as mulheres são mostradas nas mídias, e a outra diz respeito ao status das mulheres que trabalham nos setores ligados aos meios e tecnologias de informação.
Na coluna passada, a discussão voltou-se ao primeiro tipo de abordagem (
a imagem da mulher na mídia). Agora, seria interessante falar sobre a temática das mulheres como produtoras de mídia, em termos do que isso possa representar para uma sociedade mais igualitária e que dê oportunidades às crianças e jovens do sexo feminino de terem destinos profissionais sem impedimentos relacionados com o gênero.
Entretanto, é válido notar que as duas abordagens convergem em dois aspectos: 1) na ideia de que se mais mulheres trabalhassem na produção midiática certas imagens femininas estereotipadas poderiam ser minoradas ou evitadas; 2) no fato de que há, a partir das representações elaboradas pela mídia, maior ou menor poder de sugestão a propósito da capacidade das mulheres (bem como dos homens) exercerem determinadas atividades.
Sobre o primeiro aspecto há ainda muito a avançar no terreno das políticas públicas e no esclarecimento social sobre a necessidade de que as mulheres ingressem em setores – principalmente nas chefias – nos quais a presença masculina é majoritária. São homens ou mulheres os criadores de peças publicitárias (de bebidas alcoólicas, por exemplo) em que as mulheres são mostradas como objetos?
Em relação ao segundo item, há forte preocupação, particularmente nos EUA, sobre as profissões – que têm garantido muitos empregos e bons salários – relacionadas com as tecnologias digitais, nas quais os estereótipos representam uma barreira para as mulheres. É uma barreira até certo ponto “invisível” por sua naturalização alcançada em grande medida por determinadas representações midiáticas. Um recente relatório de pesquisa do Google sobre o tema (
aqui) chega à conclusão de que as representações da mídia televisiva e do cinema influenciam o modo como os alunos, pais e educadores pensam sobre as capacidades das pessoas quanto às atividades de ciência da computação. Estas percepções, por sua vez, têm o potencial de limitar a participação de certos grupos de estudantes (mulheres, negros, latinos). Uma reportagem (em inglês) resume os principais pontos do relatório (
aqui).
É relevante notar que não se trata somente das percepções alheias, mas os próprios grupos potencialmente prejudicados podem assumir autoimagens negativas. Assim, o relatório do Google observa que, enquanto 60% dos jovens brancos estão “bastante confiantes” de que podem aprender ciência da computação, apenas 46% das adolescentes dizem o mesmo.
Essa ação de “desempoderamento” ou fraca autoimagem vem sendo combatida por interessantes projetos de mídia, ao redor do mundo. Um exemplo é mostrado no recente filme
Codegirl, que esteve disponível no YouTube no início de novembro. O documentário, com um tom de reality show, apresenta uma competição, no desenvolvimento de projetos de aplicativos para telefones celulares, entre equipes de adolescentes do sexo feminino ao redor do mundo (inclusive de jovens do Brasil).
No auge do filme, as garotas vão aos EUA mostrar seus trabalhos e conhecer os outros times. O grau de expertise entre os grupos é variado, mas tratou-se de uma ação educativa e, ao mesmo tempo, de empoderamento das mulheres, tanto ao mostrar suas capacidades, no caso das participantes diretas, quanto ao dar exemplo positivo (principalmente por meio do filme) a outras jovens.
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