Recente artigo da revista Slate apresenta o caso do estudante da Mongólia Battushig Myanganbayar, de apenas dezessete anos. Ele realizou com sucesso o primeiro curso massivo aberto online (MOOC) do MIT e acabou sendo contratado pela empresa que produz cursos para a internet edX. O interesse deste consórcio do MIT e da Universidade de Harvard era obter a visão dos estudantes, em particular daqueles que ainda não fizeram o ensino superior. A maioria dos concluintes dos MOOCs, contrariando as expectativas, já possui grau universitário. 
 
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A matéria traz uma série de dados interessantes sobre os percursos de aprendizagem deste estudante. Um deles relaciona-se a uma questão que inquietava os profissionais da edX: como Myanganbayar conseguiu realizar um curso avançado de circuitos e eletrônica não tendo a priori os pré-requisitos solicitados (entre eles, o conhecimento de equações diferenciais)? Ele explicou ter usado um quarto do tempo do curso buscando informações em outros espaços da internet para suprir suas lacunas de aprendizagem.
 
Isto reforça o quanto a web pode ser um espaço importante de aprendizado para que indivíduos altamente motivados aprendam de maneira autônoma. No entanto, as estratégias de Myanganbayar apontam para outra dimensão do aprendizado online, menos solitária, dependente dos conteúdos, e mais relacionada às interações.
 
Desse modo, ele também começou a produzir pequenos vídeos, usando um iPhone, nos quais explicava conteúdos do MOOC para os outros alunos do curso. A relevância dessa estratégia fez com que Myanganbayar fizesse a recomendação de que os cursos da edX aprimorassem as formas como um estudante poderia ajudar e ensinar os colegas, comunicando-se e discutindo o curso com eles.
 
A importância da interação interpessoal, destacada pelo estudante mongol, é tema tradicional da discussão sobre a educação a distância (EAD). Vale lembrar, por exemplo, a crítica de Mario Kaplún (ver este artigo) aos modelos de EAD em que o estudante só interage com o material e não com outras pessoas. A base da crítica pode ser encontrada, entre outras reflexões, na teoria da aprendizagem de Vygotsky, segundo a qual, ao expor o conhecimento para outras pessoas, o aprendiz o internaliza de maneira mais efetiva. Nesse sentido, o intercâmbio social é um fundamento do próprio aprendizado. 
 
“Comunicar é conhecer. O sentido não é só um problema de compreensão e sim, sobretudo, um problema de expressão. Chega-se ao pleno conhecimento de um conceito quando surge a oportunidade e, por sua vez, o compromisso de comunicá-lo a outros”, observara Kaplún, em recomendação válida tanto para o ensino a distância quanto para o presencial.
 
Uma pesquisa também bastante atual, diretamente ligada aos MOOCs, reforça argumentações desse tipo, conforme notícia publicada em The Chronicle of Higher Education. O título faz o sumário da principal conclusão: “Os estudantes passivos de um MOOC não retêm o novo conhecimento”. O estudo mostra que os profissionais que fizeram um MOOC da área de saúde sobre Avaliação Clínica somente pela assistência de vídeos e feitura de testes não integraram o conhecimento às atividades cotidianas. Faltou a conexão entre a teoria e a prática efetiva do estudante. Um dos autores do estudo recomenda trazer as diferentes experiências dos alunos para a discussão e estudo, para tornar a aprendizagem relevante e duradoura.
 
Ideias desse tipo colocam a todos os professores (ou desenvolvedores de cursos em EAD) o desafio de “dar voz” aos estudantes, permitindo que o processo de aprendizado torna-se mais “comunicação”, com diálogo entre os indivíduos, do que transmissão de informações. Igualmente importante é que o novo conhecimento possa ser acionado em contextos em que seja utilizável.
 

 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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