Nos antigos fliperamas, um prazer juvenil era observar as bolinhas metálicas ricocheteando nos objetos da pista, produzindo luzes e sons hipnóticos. Penso nessa imagem a propósito de dois textos que li sobre os dispositivos móveis e a educação. O teor das discussões é diferente, mas o que é tratado nos textos possui insights ressoantes como as bolas do fliperama. Vou abordar nesta coluna um dos textos, o outro fica para ocasião posterior.

O artigo de John Jones discute um tema sobre a relação entre as tecnologias e a educação que tem ganhado bastante atenção nos últimos tempos: a maior ou menor eficácia, com respeito à aprendizagem, dos registros feitos em computador comparados com as anotações à mão. Além da relevância do assunto, o texto evidencia que o significado de qualquer pesquisa depende de interpretações. No caso, a feita por Jones vai de encontro à realizada pelos autores da investigação relatada.
 
Em resumo, o autor discute um estudo que compreendeu três experimentos. No primeiro deles, alguns estudantes assistiram a vídeos de palestras TED, sendo que um grupo poderia fazer anotação com caneta e outro com laptop. Depois de certo tempo, ambos eram submetidos a testes sobre o conteúdo. Os estudantes que utilizaram papel obtiveram melhores resultados, a despeito dos alunos que usaram o computador terem feito bem mais anotações. No entanto, e isso é destacado pelos realizadores do estudo original, estas eram geralmente literais. A pesquisa educacional sobre o assunto aponta que o processo cognitivo que envolve transcrições é mais pobre do que aquele relacionado com sínteses e esquematizações.
 
Para tentar minimizar esse efeito, num segundo experimento, foi solicitado aos alunos que utilizariam o computador que procurassem realizar anotações de modo similar ao que faziam na escola, advertindo, porém, sobre a menor eficácia de transcrições. Os resultados foram similares. Entretanto, como as anotações são, sobretudo, um instrumento auxiliar de estudo e não fonte única de aprendizado, foi feito outro experimento.
 
Desta vez, houve um intervalo maior (uma semana) entre a assistência dos vídeos/feitura de anotações e o teste. Além disso, alguns estudantes puderam consultar, durante dez minutos, suas anotações antes da avaliação. Novamente, os estudantes que utilizaram papel e caneta foram mais bem sucedidos, indo melhor ainda os que consultaram suas anotações. Efeito inverso se deu entre os que usaram o laptop: aqueles que não consultaram seus registros tiveram melhor pontuação.
 
O que isso significa? Antes de dar sua interpretação, Jones apresenta a dos autores da pesquisa original, que resumidamente é a seguinte: os laptops na escola podem estar fazendo mais mal do que bem. Detalhando questões ligadas à própria realização e lógica dos experimentos, porém, Jones nota que o resultado mais sólido é sobre a já bem estabelecida ideia a respeito da baixa efetividade das transcrições literais.
 
Por isso, e de modo paradoxal, o que parece necessário – esta é a interpretação principal de Jones – é que haja mais educação em letramento digital nas escolas e não menos. A consciência sobre as características dos diferentes instrumentos para a construção de conhecimento deve ser enfatizada durante o ensino. O registro detalhado usual feito com o computador, facilitado pela rapidez da digitação, pode ser bastante útil em algumas situações (quando se exige uma transcrição fiel, por exemplo), mas não em todas.
 
Ao mesmo tempo, em princípio nada impede que anotações mais significativas para o aprendizado sejam feitas num laptop. Porém, “se os estudantes estão numa situação em que precisam realizar notas esquemáticas, interpretativas, eles precisam ser ensinados como (por que e quando) fazer isso”, observa Jones. A falha não está nos estudantes ou no computador, mas sim na falta de educação para (e em) uma sociedade cada vez mais digital.
 
Com receio do poder de sedução dos fliperamas, houve iniciativas para que eles não fossem localizados próximos de escolas. Tempos depois, o mesmo se deu com as lan houses. Certas coisas nunca mudam: é mais fácil pensar em afastar os jovens de locais atrativos do que tornar as escolas desejáveis; é mais fácil suprimir recursos tecnológicos da educação do que pensar em usos produtivos desses instrumentos.
 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

Receba NossasNovidades

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.