As relações entre “ativismo” e “educação” podem ser vistas a partir de um espectro que vai de uma avaliação bastante negativa (“o ativismo prejudica a educação”) a um polo positivo no qual estes termos são, quase por completo, associados: o fim da educação é formar ativistas. É claro que também existem posições intermediárias e mais matizadas.

O recente livro digital de livre acesso By Any Media Necessary: The New Youth Activism (New York: New York University Press, 2016), escrito por Henry Jenkins e quatro coautoras, vai numa direção que enfatiza a positividade dessa relação. Ainda que não entenda as noções de ativismo e de educação como equivalentes, defende que a promoção do engajamento cívico faz parte dos objetivos da educação.
 
Na introdução, que expõe os conceitos principais da obra, Jenkins enfatiza a emergência de uma “política participativa” que se dá a partir do encontro da “cultura participativa” (conceito-chave do livro Cultura da Convergência, também do autor) com a participação cívica e política. O dado novo é que a promoção da mudança (central na noção de “ativismo”) se dá mais em termos socioculturais do que por meio de instituições políticas tradicionais, com os cidadãos percebendo-se “capazes de expressar suas preocupações políticas – com frequência através da produção e circulação de mídia”, diz Jenkins. Todos nós, familiarizados com os conteúdos que fluem nas redes sociais e outras plataformas da internet, produzidos por indivíduos comuns, sabemos do que trata: memes, vídeos reivindicatórios e de sátira, postagens de blog, etc.
 
Após a introdução, o livro apresenta cinco estudos de caso de grupos e redes com forte engajamento de jovens que desenvolvem diferentes estratégias de política participativa, um capítulo conclusivo e um posfácio. 
 
A questão específica da educação é abordada brevemente na introdução, quando Jenkins nota que a participação nas redes estudadas proporciona oportunidades para uma educação cívica informal, entre pares, que pode ser associada à “aprendizagem conectada” (connected learning), uma noção desenvolvida por Mimi Ito e outros autores. O aprofundamento dessa questão se dá no último capítulo do livro, escrito por Elisabeth Soep, que relaciona o tema da política participava juvenil, entre outros pontos, ao fato de que o aprendizado relevante é sempre contextualizado, ocorrendo em “comunidades de prática” que favorecem a “conexão” da aprendizagem com âmbitos de interesse e oportunidade dos envolvidos – o que as ações de ativismo geralmente estimulam. 
 
Ao mesmo tempo, o ativismo, bem como a produção midiática dele decorrente, é importante em termos educacionais ao envolver, potencialmente, a pedagogia crítica e a preocupação dessa em promover a consciência crítica nos indivíduos, de modo a prepará-los para o exercício da cidadania. Trata-se, conforme discute a autora, não somente de fazer algum tipo de artefato, mas de refletir sobre a ação realizada.
 
Soep conclui seu posfácio notando que hoje, em maior ou menor grau, somos todos educadores cívicos. Para exemplificar possibilidades dessa educação, e ampliando dimensões da obra, o trabalho conta com um site com materiais de apoio, entre eles, sugestões de oficinas e atividades para o desenvolvimento da política participativa, com ênfase no ativismo, entre jovens. 
 
É perceptível o possível diálogo dessa discussão com a tradição de práticas educomunicativas que se desenvolve no Brasil, tendo por base a produção midiática de jovens. Desse modo, By Any Media Necessary é uma leitura ainda mais recomendada aos interessados no assunto em nosso país.

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Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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