Quando chega o final do ano a quantidade de lançamentos de filmes aumenta bastante, pois o mercado cinematográfico está de olho nas férias escolares. Para crianças e jovens urbanos, ir ao cinema ainda é uma excelente opção de entretenimento neste período, lembrando que a pipoca e o refrigerante fazem parte do pacote. Junto com os filmes vêm os produtos com os heróis dos filmes da temporada. Figurinhas, camisetas, utensílios e ainda materiais escolares: mochilas, lápis de cor e cadernos são decorados com os personagens do cinema.

Sabe-se que a publicidade não é ingênua, ela tenta faturar em cima da "onda da vez". Mas é interessante pensar que não existe uma única mão nessa história. Seria simplificar muito o fenômeno da publicidade e do mercado cultural se pensarmos que eles vendem o que quiserem, criam os personagens mais malucos e o público consumidor consome sem pestanejar. Não é bem assim. É verdade que esse mercado é forte e que a publicidade influencia uma multidão, porém, é interessante pensar como há sempre uma interação com o público e ele sinaliza o que está querendo. Não há apenas uma proposição do cinema, da publicidade e da TV, mas uma interação, um diálogo constante com o público.  A cultura audiovisual também assimila as mudanças da sociedade e busca inseri-las em seus produtos num movimento dialético.

A indústria cultural, representada fortemente pelo cinema, vem se consolidando há mais de um século, com muitas diferenças entre as regiões do mundo, mas parte significativa do planeta consome culturalmente o que é produzido na grande indústria dos EUA. É o caso do Brasil que sempre sofreu influência direta do chamado american way of life e da grande indústria hollywoodiana. Vamos ver, por exemplo, os temas dos desenhos de animação para crianças. Houve uma evolução significativa dos desenhos clássicos dos anos 1930 para a atualidade. Antigamente, as histórias eram mais ingênuas e, em geral, não se misturavam com questões de temática adulta. A ideia de educar era evidente, mas percebia-se uma moral muito simplificada e maniqueísta: vilões muito maus, mocinhas ingênuas e indefesas, que sonham com seu príncipe encantado, para se casarem e ter muitos filhos. Por mais que o desenho da Branca de Neve e o Sete Anões (Disney, 1939) continue encantador, é difícil achar que meninas urbanas sonhem em ser boas donas de casa e queiram fazer deliciosas tortas de maçã.  A sociedade contemporânea demandou novas abordagens nos filmes, pedindo um diálogo com as mudanças comportamentais e com os temas urgentes. A animação Shrek é um exemplo disso. A mocinha Fiona deseja ser ela mesma – gorducha e feliz – numa crítica evidente à estética da boneca Barbie e aos anseios da Cinderela. A animação Wall-E segue na mesma linha, propondo uma autocrítica da própria indústria cultural em relação ao futuro do planeta. Temáticas como consumismo, qualidade de vida, educação ambiental e valorização da velhice estão presentes nas animações infantis, embora o mercado cultural continue lucrando e divulgando seus produtos.

Os gêneros também mudaram muito ao longo da história da indústria do cinema. As comédias sempre fizeram sucesso, deixando bem claro que cinema é entretenimento e que rir é bom em qualquer tempo. Mas se observarmos as comédias do início do século XX, com Charles Chaplin, Buster Keaton ou Harold Lloyd vemos que havia muita força na expressividade corporal, já que o cinema era silencioso. Possivelmente por isso, tais comédias ainda fazem rir pessoas de todas as idades. Há outras comédias, no entanto, que perderam a graça com o tempo, já que o público mudou.

Os filmes de ação e aventura de antigamente eram os faroestes (western) que têm profunda relação com a história dos EUA (conquista do oeste, processo civilizatório, dominação e extermínio dos índios nativos). O público se identificava com heróis como Tom Mix, Roy Rogers e tantos outros. Atores e diretores eram identificados com o gênero como John Wayne e John Ford. Na segunda metade do século XX, o western perdeu a força junto ao público. 

Os filmes românticos sempre tiveram o seu lugar, mas foram mudando o formato. Com o advento do cinema sonoro, os musicais românticos passaram a fazer muito sucesso e a indústria buscou atores capazes de atuar, cantar e dançar. A história era contada com diálogos e canto o que, para o público atual do cinema, não faz o menor sentido. 

Ao longo do século XX, a indústria cinematográfica viu crescer os filmes policiais, de terror e de ficção científica. Os recursos audiovisuais também mudaram muito ao longo dos anos. No filme Viagem à Lua (George Mélliès, 1902) já se pode notar a pesquisa em torno das trucagens que poderiam causar efeitos especiais. A indústria estadunidense, mais do que a de outros países, investiu pesadamente nesses recursos, a ponto de o "como foi feito" se tornar uma atração à parte. Hoje em dia, os DVDs trazem making of dos filmes, mostrando que há interesse do espectador em desvendar os truques, sem que isso faça perder o encantamento e a emoção.  

Os recursos são muitos, mas é interessante chamar a atenção para um deles que nem sempre é percebido pelo espectador: a EDIÇÃO, responsável por imprimir o ritmo do filme. A quantidade de cortes de uma determinada cena faz toda a diferença na relação espectador-obra.   Uma cena longa com poucos cortes nos dá a impressão de lentidão e permite que o espectador atente para vários aspectos da trama: a interpretação, o cenário, o uso da trilha sonora e o figurino. Durante uma sequência mais lenta, o espectador vai pensando soluções para o conflito proposto pela narrativa, como: quem seria o criminoso? Por qual dos mocinhos a heroína vai optar? O que vai acontecer à personagem principal? O herói vencerá os obstáculos impostos pelo vilão? De onde será que está vindo aquele personagem?

A medida que os cortes aumentam a cada cena, há uma descarga de adrenalina para quem assiste, aumentando a emoção e diminuindo a razão. Filmes com edição rápida (a grande maioria dos filmes comerciais atuais) conduzem a história para o espectador, tirando dele o desafio de pensar no desfecho ou nas estratégias narrativas. Ao longo da história, a edição foi se acelerando e, com isso, nosso jeito de ver filmes. Se um jovem de hoje assistir a um filme de aventura dos anos 1940, é bem possível que não se envolva, pois ele está acostumado com outro ritmo. Sequências mais demoradas podem significar desafios para alguns, mas para outros são sinônimo de filme que dá sono. 

Como o mercado cinematográfico não está muito preocupado com o lado "arte" do cinema, mas com seu lado "negócio", é temerário fazer um filme que o público vai achar chato. Especialmente porque o grande público dos cinemas é jovem e eles têm hábito de ver filmes com edições rápidas, situações espetaculares ou que provocam muita descarga de adrenalina. Esta é a moda do momento, o atual jeito de ver cinema. Não quer dizer que será sempre assim, pois, como já vimos, a indústria cinematográfica está em constante mutação.

Esse jeito rápido de editar, que vem se acelerando cada vez mais, tem muito a ver com a estética dos videogames e dos videoclips. É difícil dizer o que veio primeiro. Vivemos um momento de cultura mosaico, isto é, tudo acontecendo de maneira simultânea e acelerada. A internet e os celulares possibilitam a comunicação rápida, o que também gera muita ansiedade. Estamos no tempo do reflexo e não da reflexão. Os produtos da indústria cultural dialogam com esse tempo. 

É interessante pensar que não é preciso aceitar esse antagonismo reflexo X reflexão como algo rígido e inevitável. Assim como há videogames que estimulam a rapidez do pensamento e também a criação de diversas estratégias narrativas, os filmes também podem ter ação rápida e desafiar o pensamento. Por exemplo, o filme A Origem (Christopher Nolan, 2010) uma coprodução EUA/Reino Unido, fala do controle sobre nossos sonhos. O filme tem linguagem atual, mas também é altamente filosófico. Foi bastante comparado a outro sucesso anterior Matrix (Wachowski, 1999) que mostra uma narrativa em um ambiente virtual (muito inovador para a época). 

Assim como hoje os gêneros se misturam, muitos filmes contemporâneos equilibram momentos de ação muito rápida, para conquistar o público, e também apresentam situações mais complexas, com cenas um pouco lentas, construções de personagens mais profundos. Se a produção estiver se dirigindo a um público mais adulto, pode ter menos ações, mas se o foco forem as crianças e jovens, que em tudo são mais acelerados, certamente haverá um filme de ação rápida. Isso não quer dizer que eles não possam ir conhecendo, aos poucos, outros tipos de obras, com estética e ritmo diferentes. 

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Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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