Em
artigo já publicado no portal NET Educação, abordamos a indústria cinematográfica mais importante, representada por Brasil, México, Argentina e Cuba. Também, falamos sobre circulação dos filmes latino-americanos no Brasil, bem menor se comparada a épocas anteriores. Mas e os outros países? O que sabemos, por exemplo, sobre o cinema dos países da América Central e do Caribe – Costa Rica, Panamá, Nicarágua, Guatemala, Honduras, República Dominicana, Porto Rico e El Salvador?
Ainda que a produção seja pequena, lá também se faz cinema. São pouquíssimos longas-metragens de ficção, formato que tem maior circulação internacional, mas muitos curtas-metragens e documentários. Estas produções dependem menos de financiamentos públicos e privados. Neste aspecto, o barateamento dos aparatos tecnológicos tem facilitado o crescimento das produções digitais independentes, que ainda não alçaram voo internacional. Circulam apenas nos festivais de curtas e nos festivais de Cinema Latino-americano. Países que passaram por guerras de libertação, como Nicarágua e El Salvador, contam ainda com o apoio internacional para documentários que registrem suas lutas.
Já se quisermos ver longas de ficção sobre a região caribenha, é possível ver os
cubanos. Há, por exemplo,
A Última Ceia (dirigido por Gutiérrez Alea, 1976) que aborda as relações entre senhores e escravos, nas plantações de cana-de-açúcar das Antilhas. Passado na América Central, foi censurado no Brasil, durante a ditadura militar, tendo sido liberado apenas no início dos anos 1980.
Essas histórias raramente eram contadas em aulas de história, pois importava ensinar que nosso povo é pacífico e que a escravidão foi praticamente uma fatalidade. Produções como essas, independente do país de origem, nos dão a possibilidade de conhecer e refletir sobre nossa própria história, a colonização europeia, a exploração de mão de obra escrava, as guerras de libertação. O cinema é um instrumento muito poderoso para nos sensibilizar para a história do outro, uma história que também pode ser a nossa.
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Entre os países andinos, o único que não tem nenhum tipo de apoio governamental para produção audiovisual é o Equador, o que faz com que sua produção seja exígua. Os demais países andinos, Bolívia, Colômbia, Chile, Peru e Venezuela, contam com políticas públicas, que financiam algumas produções por ano. Os incentivos variam muito de país para país: podem ser prêmios para cineastas jovens, leis protecionistas ou financiamentos. São países sem tradição de produção ou de cineclubes, portanto, conquistar o público local é uma tarefa desafiadora. A fragilidade de sua indústria também dificulta a circulação internacional das poucas produções. A coprodução tem sido uma saída para esses países de produção menor, o que vem permitindo a circulação e o reconhecimento internacional.
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O Chile é um país que vem aumentando a sua produção. O cineasta chileno de maior relevância é Patricio Guzmán, que realizou belos documentários, sempre com forte teor político e de denúncia em relação aos desaparecidos e mortos pela ditatura de Pinochet.
A Batalha do Chile: a luta de um povo sem armas, que é dividido em três partes (A insurreição da burguesia, O golpe militar e O poder popular) é considerado um dos documentários mais importantes do cinema latino-americano. O filme demorou seis anos para ser realizado e reúne imagens coletadas nas ruas e nos gabinetes políticos, durante o período do governo Allende até o golpe militar de Pinochet. Outra obra relevante de Guzmán é o documentário
Nostalgia da Luz (2010), que contrapõe astrônomos observando o deserto do Atacama às mulheres que buscam, no mesmo deserto, os restos de seus familiares desaparecidos. Todos os documentários de Guzmán estão disponíveis na internet.
O cineasta chileno Andrés Wood tornou-se conhecido no Brasil com sua obra Machuca (2004). Por ser um filme contado por uma criança (e o cineasta assume que é autobiográfico) emociona com a experiência da amizade entre garotos de classes sociais diferentes, no momento turbulento do golpe militar de 1973. Outra produção de Wood que entrou no circuito comercial brasileiro é Violeta foi para o Céu (2011), belíssimo filme sobre a vida da cantora Violeta Parra.
Ainda sobre o Chile, o filme No, de Pablo Lorraín (2012), também chegou ao Brasil (disponível em DVD), problematizando um tema pouco tratado no cinema. O protagonista René é um publicitário, interpretado por Gael Garcia Bernal, chamado a coordenar a campanha pelo NÃO, no plebiscito que tirou Pinochet do poder. O papel político da publicidade é mostrado de maneira complexa e incômoda, colocando muitas questões, inclusive sobre a publicidade a as campanhas eleitorais. O filme é uma coprodução Chile-EUA.
Outra coprodução com os EUA é o colombiano Maria Cheia de Graça (2004), dirigido por Joshua Marston. Filme emocionante, trata da difícil realidade de uma jovem sem perspectiva que se torna instrumento do tráfico de drogas. Maria se vê desempregada, grávida e acaba aceitando a oferta de trabalhar como “mula” (moças que traficam drogas dentro do corpo). O filme é estrelado por Catalina Sandino Moreno, cuja atuação rendeu muitos prêmios.
Os longas-metragens colombianos, com pouca circulação entre nós, têm uma tradição muito forte no audiovisual independente. São produções feitas com jovens em canais de TV educativos. Recentemente um curta-metragem colombiano (coprodução com o Reino Unido) foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Dirigido por Simon Mesa Soto, Leidi fala muito de todos nós, de nossas adolescentes que se tornam mães. O curta de 15 minutos foi apresentado no 25º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, 2014, e ainda esperamos que fique disponível.
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A Venezuela tem crescido em produções de longas-metragens, também com a opção de coproduções. Recentemente chegou ao Brasil um filme forte e muito necessário, especialmente para educadores. Dirigido por Mariana Rondón, chama-se Pelo Malo, que pode ser traduzido por “cabelo ruim”. Os protagonistas são uma mãe solteira de dois filhos, desempregada, e seu filho mais velho, o garoto Júnior, com uns 10 anos de idade, que sente vergonha de ter cabelo crespo. Ele quer muito alisar o cabelo para se parecer com um cantor da TV. A mãe lê o comportamento do filho como sinais de homossexualidade, rejeitando o filho, levando-o ao médico (com a ideia de “curá-lo”). A ignorância e a falta de sensibilidade em relação à criança é a marca deste filme tenso, em que podemos enxergar claramente a nossa identidade latino-americana.
Indo para o sul da América, é importante registrar a pequena, mas já significativa produção uruguaia. O filme Whisky, dirigido por Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella, é uma coprodução Uruguai, Argentina, Alemanha e Espanha (2004). Muito inspirado e com humor, embora ácido, tem enquadramentos que valorizam as relações humanas e as ações cotidianas. Outra obra uruguaia muito boa, coprodução com Brasil e França, 2007, é O Banheiro do Papa, dirigido por César Charlone e Enríque Fernández, na mesma chave de humor e crítica social de Whisky. Charlone é um grande fotógrafo uruguaio, que vive no Brasil há muitos anos. Atuando como diretor de fotografia em grandes obras brasileiras como Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira, este é seu primeiro filme como diretor.
Também com humor, outros dois filmes nos trazem uma sociedade uruguaia muito parecida com a nossa: Gigante, de Adrián Biniez (2009, produção Uruguai, Argentina, Alemanha, Espanha e Holanda) e Tanta Água, dirigido por duas mulheres Ana Guevara Pose e Leticia Jorge Romero (produção Uruguai, México, Alemanha e Holanda, 2013).
O Paraguai também é um país que produz pouquíssimos filmes, num cenário de falta de financiamento, indústria incipiente, competitividade desleal com os blockbusters e poucas salas. Chegou recentemente ao Brasil uma comédia de ação chamada Sete Caixas, dirigida pela dupla Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori (2012). O filme foi um enorme sucesso no país, superando a bilheteria de Titanic. Curiosamente, esta é uma produção apenas paraguaia, não é coprodução.
Os Estados Unidos perceberam muito cedo como a indústria do cinema é estratégica para se levar a cultura de determinado povo pelo mundo. Se hoje somos tão ligados à cultura norte-americana isso se deve muito ao cinema. Seria muito interessante que olhássemos mais para o cinema latino-americano para nos conhecermos melhor.
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