A ideia de que a observação em nível micro pode revelar aspectos da realidade mais ampla é cara à pesquisa qualitativa. Solicitei, numa disciplina de graduação no semestre passado, que os estudantes fizessem entrevistas com professores indagando sobre trajetórias de uso de tecnologias na educação*. De certa maneira, as afirmações que surgem são como a gota d’água que espelha o universo. Com frequência, os questionamentos vão além dos indivíduos, atingindo dimensões mais gerais.
Desse modo, aspectos como as jornadas de trabalho em diferentes escolas, por vezes com sobrecarga de trabalho e os baixos salários (que explicam os pontos anteriores), e as classes com número excessivo de alunos são apontados como fatores que dificultam o uso mais produtivo de novos recursos tecnológicos e metodologias na educação.
Num plano mais concreto, nem sempre as escolas possuem equipamentos ou serviços de apoio adequados. Alguns professores notam que o uso de algum dispositivo pode ficar inviabilizado por bastante tempo por problema numa peça (o que prejudica os planejamentos didáticos); as conexões à internet geralmente são lentas e não favorecem que todos os alunos usem a rede ao mesmo tempo. Enfim, há uma série de questões de infraestrutura que, embora aparentemente melhor do que no passado, nem sempre é a ideal.
Também, nota-se um reconhecimento amplo da necessidade de adaptar métodos à realidade de um alunado que possui outras expectativas, utilizando a tecnologia para tanto. Como observou uma professora: “comparada ao mundo [de hoje] todo tecnológico, a escola parece meio parada. Fica um pouco parada para eles [os alunos]”. Alguns professores reconhecem que, quer queiram ou não, as questões que envolvem o modo como os alunos têm acesso à informação no mundo de hoje afetam a dinâmica de aprendizado.
Numa perspectiva também crítica, certos professores percebem uma “crise” no modelo tradicional de educação. Como diz, de maneira reflexiva, uma professora: “Vejo a escola atual como um modelo que está em crise, não crise no sentido usual econômico […], mas sim como um momento onde as coisas se fundem e confundem, no qual as certezas que tínhamos não respondem às perguntas de hoje. O senso comum de que a escola era o melhor caminho para uma garantia de prosperidade não corresponde à realidade. Isso acarreta um esvaziamento de sentidos da escola, seus alunos não conseguem identificar significados nela, gerando desinteresse, desmotivação, desgosto, indiferença pela instituição. A escola passa por um momento de reflexão por novas respostas e ações para dar luz a essa fusão de fenômenos que ocasionaram a crise”.
Nesse contexto, não se verifica propriamente tecnofobia nem receio exagerado de que a tecnologia desloque negativamente os professores para um papel marginal (o que talvez ocorresse com mais frequência antes), porém alguns notam os riscos do deslumbramento com a técnica e a preocupação de que ela possa desvirtuar o que seria próprio do processo formativo escolar.
A tecnologia, por vezes, também é vista como mais uma obrigação, num cenário difícil e já não muito favorável à inovação. O excessivo conteudismo e o enciclopedismo da educação constrangem os próprios professores que percebem a articulação entre tecnologias e currículo; como disse um professor: a “questão de você introduzir a tecnologia também envolve currículo; não adianta discutir isso sem discutir currículo. O que adianta em um currículo tão extenso como a gente tem, com tantas coisas”. Por outro lado, os próprios docentes foram ensinados a partir de estratégias tradicionais e têm dificuldades em romper modelos.
Não surpreende, portanto, que a maioria reconheça falta de formação (sua ou dos colegas), desde suas licenciaturas, para a tarefa de trabalho com e a partir do novo ambiente sociotécnico. “Atualmente, tivemos um aumento do recebimento de materiais de ensino, mas os professores não sabem usá-los. O mesmo acontece com as tecnologias […]. A meu ver, o investimento na educação também inclui a educação dos próprios professores”, concluiu uma professora.
Há também uma percepção de que a adoção dos recursos tecnológicos ocorre, muitas vezes, de cima para baixo, sem diálogo ou maior participação dos professores. Assim, um docente, com experiência em várias escolas (publicas e privadas), notou que: “[há um uso da] tecnologia, porque o mercado está pedindo, porque a escola X fez a propaganda que ela tem tablet pra todo mundo. Enfim, nunca trabalhei, nunca tive a oportunidade de fazer um processo onde o corpo docente pudesse fazer sugestões […]. Que houvesse uma decisão horizontal para que isso pudesse ser facultativo. Em nenhum caso que eu presenciei teve isso”.
Mas a tecnologia é vista por alguns como possivelmente articulada a uma mudança positiva do papel docente, como é perceptível nessa fala de um professor: “Mas isso [a mudança] só vai ocorrer quando não tivermos mais uma relação vertical e um ensino tradicionalista. Quando tivermos uma relação horizontal, onde o professor não é o detentor de todo conhecimento, mas sim um intermédio entre o aluno, o mundo, o livro, a internet, a informação, a geração do conhecimento… aí vai”.
Este conjunto de falas de professores sobre a tecnologia talvez não represente o todo da educação brasileira a respeito do tema. No entanto, esses discursos tocam em temas e problemas importantes, que merecem nossa atenção.
* Queria agradecer aos alunos de Licenciatura de curso ministrado na ECA/USP que fizeram as entrevistas, nomeando os estudantes James Daltro Lima Junior, Janaina Soares Gallo, João Paulo Vicente Alonso, Larissa Helena Costa e Marcus Vinicius Nogueira Pullido, que autorizaram o uso de trechos de seus trabalhos.
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