Como entender o discurso do Escola Sem Partido (ESP)? Gostaria de dividir com os leitores alguns dados iniciais de pesquisa sobre o discurso a respeito do ESP no Twitter. Em outras palavras, quando determinadas pessoas (quem são?) referem-se à proposta na plataforma digital, sobre o que elas falam, com qual efeito? Para descobrir isso, foram coletados durante um mês (maio a junho desse ano) todos os tweets com a hashtag #escolasempartido. Um total de 1.540 tweets possuía essa etiqueta (com provável alcance de 500 mil usuários). Entre os pontos observados, nota-se (Gráfico 1), que nesse período houve três picos (circulação de conteúdo): 30 de maio, 3 e 6 de junho.
Quando a distribuição é desagregada por tipos de tweet, vemos que os picos estão ligados a retweets, a linha vermelha no Gráfico 2, muito mais que a discussões (associadas aos tweets com menções entre usuários) ou conteúdos originais. Ou seja, houve certo tipo de conteúdo que despertou a atenção das pessoas na plataforma e foi compartilhado – três tweets geraram 846 outros, mais da metade da “conversação” digital sobre o tema no período. Quais são esses conteúdos?
O primeiro pico é de um tweet que teve 497 compartilhamentos (retweets), e que contém texto (“GLOBO X ESCOLA SEM PARTIDO Vejam a manipulação da Globo atacando a #EscolaSemPartido na minissérie Os Dias Eram Assim. Reaças Produções”) e breve vídeo, no qual a produção televisiva (da “Globo imunda”, diz o apresentador) é acusada de “manipular” as pessoas contra o ESP. O produtor, um homem negro, tenta explicar a proposta: a mera, segundo ele, inserção em sala de aula de um banner com seis itens contendo as regras que o professor deve cumprir.
O segundo pico (de tweet com, no todo, 122 retweets) deve-se a uma mensagem na qual também há texto (“‘A esquerda não fala pela periferia. Eu vim da periferia e vocês não falam pela periferia.’ #EscolaSemPartido Já!”) e vídeo. O texto retira sua afirmação da fala do vídeo (igualmente breve), que mostra um homem jovem, supostamente da periferia, defendendo o ESP numa reunião. Ele utiliza uma série de padrões discursivos (“audiência cativa”, para se referir aos estudantes; “ditadura” e “ambiente hostil” nas salas de aulas; “doutrinadores”, para nomear os que são contra o ESP) que se tornaram chavões entre os defensores da proposta. O fato de que essas mensagens têm como protagonistas indivíduos cujo perfil destoa da dos apoiadores de primeira hora do ESP talvez ajude a explicar a propagação que tiveram. Além do conteúdo mais emocional do que argumentativo desses tweets.
O terceiro pico (com 227 retweets no total) deve-se a um tweet que possui um texto e uma foto com link de “notícia” (“PSOL é acusado de doutrinação e perde Conselho no Colégio Pedro II para os pais dos alunos – link”). Chama a atenção que o veículo cujo link é compartilhado seja conservador e acusado de produzir notícias falsas.
Agora, podemos avançar para saber quem produz/envolve-se com os conteúdos associados ao #escolasempartido no Twitter, bem como o grau de visibilidade dos produtores de conteúdo, mostrados nos Gráficos 3 e 4.
 
A pessoa que mais produziu ou se envolveu em conversações sobre o ESP no período foi o deputado federal Sóstenes Cavalcante, da Bancada Evangélica. No perfil da plataforma digital, ele não informa o partido, mas diz ser “Defensor da vida e da família!”. Seus tweets geralmente abordam atividades da Casa ligadas à discussão do ESP (como “Atendendo nosso requerimento, a comissão #EscolaSemPartido recebe hoje a presidente do Instituto Resgata Brasil”). Esse instituto apoia o ESP. De perfil similar, o deputado federal Flavinho aparece no quarto lugar na lista de produtores. Apenas os perfis de pessoas e entidades com atuação pública são nomeados.
O segundo indivíduo mais engajado no tema é notoriamente conservador, e favorável ao ESP, conforme expressa em seu perfil do Twitter e mensagens. O terceiro maior produtor de conteúdo é exceção ao expressar visão totalmente diferente, buscando propagar um texto, com argumentação mais desenvolvida, contra o ESP. Os demais usuários com maior produção, por outro lado, assumem posições conservadoras e apoiam o ESP. O conservadorismo expressa-se no apoio a pautas como a “Revogação do Estatuto do desarmamento”, “Soberania, extinção partidos comunistas, fim Foro de SP” (conforme textos de perfis) ou a figuras como o deputado Bolsonaro.
Quando comparamos a visibilidade à produção de mensagens, vemos que a associação entre essas características não é alta. Já que os três indivíduos que tiveram conteúdos mais vistos (dos tweets descritos antes) não estiveram entre os maiores produtores de conteúdo. O que predomina em termos de visibilidade, porém, é o padrão conservador já observado, mas agora notado também em perfis institucionais. Os tweets muitas vezes possuem discurso acusatório e irônico, sobre a “doutrinação” nas escolas, como nos dois tweets a seguir.
A ANPUH (Associação Nacional de História), dentre os perfis com conteúdos mais vistos sobre o tema, é uma exceção ao discurso pró-ESP. Porém, a rigor, a hashtag #escolasempartido é quase somente voltada aos que se identificam com a proposta. Eles são, como vimos, entidades e indivíduos conservadores, que conformam uma rede, como se pode ver na seguinte imagem. Nela, percebe-se que os três principais núcleos de ligações (nas cores vermelha, verde e amarela) estão relacionados aos três conteúdos mais retweetados, descritos antes.
O Twitter, é possível concluir, tem se configurado como espaço de propagação ideológica, mais do que debate, sobre o Escola Sem Partido. É claro que esse resultado poderia ser esperado, ainda mais em tempos de polarização de ideias. O que vale a pena notar, entretanto, é o fato de que – ainda há poucos anos – existia a crença nas redes digitais e mídias sociais como lugares de debate e possível esclarecimento. Ainda que isso não seja inviável, o fenômeno das “bolhas”, nas quais as pessoas conversam principalmente com outras que possuem as mesmas opiniões, parece tornar esse ideal menos provável. E, assim, espaços como o Twitter parecem propiciar, sobretudo, reforço ao que já se acredita.

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Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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