O processo de inovação tecnológica acelerou-se nas últimas décadas, de modo que as rupturas geracionais ocorrem num tempo menor. Fui da última geração a pensar seriamente: “Compro uma máquina de escrever elétrica ou um computador?”. Comprei o computador – era o início do Windows 3.1 e da popularização dos PCs – e desde cedo me tornei também “digital”. Mas cheguei a viver situações sociais fortemente marcadas por outra época.
Sintetizo a mudança num mundo onde a informação era mais restrita, com menor circulação, e outro, o atual, em que ela é abundante, quando não excessiva. Num mundo pré-Amazon, dependíamos de amigos viajantes ou outras estratégias trabalhosas, quando queríamos algum livro estrangeiro não disponível em livrarias ou bibliotecas locais. Hoje, aquele volume que procuramos avidamente talvez possa estar on-line, a poucos cliques de distância. Navegando podemos, sempre, encontrar materiais interessantes.
Nessa categoria estão os livros Is the Internet Changing the Way You Think?: The Net’s Impact on Our Minds and Future (2011) e Educación y tecnologias: las voces de los expertos (2011).
O primeiro livro é uma iniciativa de uma fundação dos EUA que anualmente convida diferentes ensaístas (escritores, cientistas, artistas, etc.) a produzirem um texto respondendo a uma questão. Em 2010, a pergunta foi a do título do livro mencionado – “a internet está mudando o modo como você pensa?” –, que foi respondida por 172 autores. Entre eles, o jornalista especializado em tecnologia Nicholas Carr e o empresário da internet Tim O’Reilly, conhecido por ter cunhado o termo “web 2.0”.
O segundo trabalho está ligado ao projeto do governo argentino Conectar Igualdad, que combina ações de inclusão e educação digital, e é composto por 18 entrevistas com especialistas do mundo todo, inclusive três brasileiros, sobre o tema, expresso no título.
Como a questão proposta no primeiro livro é interessante, nós acabamos sendo, de certo modo, convidados a pensar sobre o tema. Duas contribuições do trabalho chamaram minha atenção, particularmente. Uma do escritor e pesquisador de novas mídias Howard Rheingold, que enuncia sua preocupação principal já no início do texto: “A mídia digital e as redes podem empoderar apenas as pessoas que aprendem como usá-las – e representam um perigo para aquelas que não sabem o que estão fazendo”. A outra reflexão foi da psicóloga, pioneira nos estudos da identidade na internet, Sherry Turkle, que discute o papel da privacidade em relação à cidadania. Para Turkle, os jovens, ao usarem cada vez mais o Facebook, no mundo digital, e tecnologias invasivas como os celulares com geolocalizadores, no cotidiano off-line, parecem estar acostumando-se à ideia de que a privacidade é um valor perdido.
Isso seria negativo, na associação entre privacidade e cidadania, na medida em que as práticas e as reflexões dissidentes requerem, muitas vezes, privacidade. Turkle fala sobre o quanto a sua avó, vinda de uma família do leste europeu, valorizava o fato de que a sua correspondência, nos EUA, não era bisbilhotada por ninguém. No entanto, hoje, nota a autora, “temos nos tornado os instrumentos de nossa própria vigilância” ao nos expormos excessivamente nas redes ou aceitarmos práticas que contrariam nosso direito à privacidade.
Nesse ponto, volto à reflexão de Rheingold, que nota a importância dos internautas desenvolverem habilidades voltadas a um uso mais produtivo da rede, para escapar de aspectos como a superficialidade, a credulidade, a simples distração e, mesmo, o vício. Nesse sentido, segundo ele, a habilidade fundamental que todos devem aprender é a “atenção”, que deve ser continuamente praticada. Desenvolvida a atenção, que exige esforço e capacidade de planejamento cognitivos (quando abrir um link? quando favoritar um site? etc.), é possível avançar para o aprendizado da habilidade para encontrar na internet a informação desejada, avaliando a veracidade da resposta.
Para estimular a participação, as possibilidades de reinvindicação e engajamento, e portanto um uso da internet que vá além do consumo passivo, a compreensão das características das redes é válida. Isso envolve tanto o conhecimento sobre os laços que se formam quanto por que e como é possível mudar as configurações de privacidade no Facebook.
De certo modo, a pauta de questões de aprendizagem do uso da rede proposta por Rheingold possui ressonância em várias das entrevistas do livro Educación y tecnologias. Destaco, nessa perspectiva, a fala do sociólogo brasileiro Bernardo Sorj, que defende que, hoje, o desenvolvimento da alfabetização digital dos jovens, em termos mais técnicos (quando se enfatiza o treinamento no uso de programas, por exemplo), é algo menos relevante, “já que as novas gerações tendem a aprender a usar o computador de forma ‘natural’. Creio que a questão é outra: o aprendizado crítico do uso da internet”.
Essa ideia de “uso crítico”, para Sorj, poderia envolver uma disciplina específica, voltada a pensar como se situam professores e alunos (afinal, todos nós), num mundo digital onde a informação é abundante. Em suma, a preocupação principal seria “ensinar, de acordo com cada faixa etária, como usar, analisar e criticar os conteúdos disponíveis”.
Talvez nem toda escola tenha, já no momento, possibilidade de realizar alterações curriculares contemplando esse tipo de ação. Porém, como as práticas de uso da rede acabam sendo transversais às disciplinas, a formação dos professores para que, contínua e paulatinamente, reforcem junto aos alunos os melhores usos da internet, poderá ser uma estratégia. Assim, os professores poderão aproveitar diferentes oportunidades para discutir questões relevantes, como a privacidade, a participação e a necessidade de atenção no uso da rede.
Construir conhecimentos com os jovens sobre esse tema encontra respaldo na provocadora indagação de Rheingold: “Como as pessoas poderiam NÃO usar a internet de modo confuso, atrapalhado e fragmentado, se ninguém as instrui como utilizar a net de maneira saudável?”.
Esse texto é minha segunda contribuição para o NET Educação. Agora, sob o título geral de “Educomunicação e Mídias”. Até o momento, não discorri, de maneira direta, sobre educomunicação, o que farei, oportunamente. Porém, adianto que, na educomunicação, o diálogo e a troca de ideias são valorizados; por isso apreciarei comentários – que irei ler e discutir, na medida do possível – a esse e outros textos.
O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.
Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.