Não é difícil imaginar que se Edward Hopper vivesse hoje pintaria um quadro no qual, em um restaurante qualquer (talvez a célebre lanchonete de Nighthawks), as pessoas estariam entretidas com seus smartphones na típica autossuficiência, ou isolamento, que caracteriza as figuras deste extraordinário cronista da solidão moderna. Tal cena, tão comum hoje em dia, tem implicações educacionais bem conhecidas.  

Alguns legislativos como o do estado de São Paulo, em 2007 aprovaram leis com o objetivo de banir os celulares e outros dispositivos tecnológicos de informação (ou evasão) das escolas. É justo ou simplesmente viável impedir o acesso dos alunos a esses aparelhos durante o horário de aulas? Alguma coisa não é perdida, na impossibilidade de incorporá-los à prática pedagógica? Não seria mais conveniente do que a proibição, ensinar a autodisciplina relacionada à utilização desses dispositivos? A resposta a essas questões não é simples e a discussão nos levaria longe.
 
O que gostaria de destacar, porém, é o que se pode chamar de paradoxo do “poder da conversação” em tempos digitais, isto é, o fato de que um ambiente de saturação comunicativa implica em comunicação de menor qualidade. Ele é destacado pelos últimos trabalhos da psicóloga Sherry Turkle, entre eles o livro Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age, publicado no ano passado.
 
O ponto central é que, hoje em dia, por meio das redes sociais da internet podemos nos comunicar com os outros a todo o momento, no entanto a natureza dessa comunicação possui diferenças bastante significativas em relação à conversação face a face. No mundo digital, a ausência de proximidade física entre os participantes da comunicação diminui a capacidade de empatia dos envolvidos; podemos colocar os outros em “pausa” ou dedicar-lhe uma atenção periférica (fazendo outras coisas, por exemplo).
 
Turkle está preocupada com os efeitos de longo prazo dessas práticas comunicativas, em termos também do possível prejuízo à capacidade de introspecção dos indivíduos. Estamos conectados, nas redes digitais, com tantas pessoas em tantas situações que, de maneira irônica, podemos cultivar uma espécie de “solidão povoada”, na qual não haja espaço inclusive para os nossos pensamentos, para a conversa interior.
 
É claro, como nota a socióloga Sonia Livingstone, que a consciência pública de cada geração desenvolve algum tipo de receio em relação, particularmente, aos jovens. Um dia foi o rock ‘n’ roll, e hoje é a dominância dos meios digitais na vida dos adolescentes. Por isso, a importância da iniciativa dessa autora de pesquisar o que acontece com jovens na idade escolar em relação ao seu uso de mídias digitais. O trabalho seguiu uma tradição etnográfica e acompanhou durante um ano uma turma de estudantes, resultando no livro (de livre acesso) The Class: Living and Learning in the Digital Age.
 
A autora elaborou uma síntese do estudo neste breve artigo, no qual se destaca uma observação que, de certo modo, dialoga com as preocupações de Sherry Turkle: “descobri que os adolescentes desejam majoritariamente controle sobre como gastar seu tempo e com quem – não apenas usar a mídia digital em si. […] Como adultos e pais, poderíamos passar menos tempo preocupando-se sobre como eles agem como adolescentes e mais tempo com eles, discutindo os desafios que serão colocados para eles como adultos num mundo cada vez mais conectado”.
 
A relação entre as ideias dessas autoras se dá na valorização do diálogo, na conversação com atenção dedicada. Tal situação pode ocorrer, sem dúvida, mais facilmente face a face – e com o smartphone desligado. Além disso, o próprio desenvolvimento da empatia pode favorecer a comunicação digital. Mas a conversação mais autêntica não ocorrerá se não houver disposição dos envolvidos. Aparentemente, entretanto, os jovens desejam esses momentos e os pais e professores devem criar condições para os encontros face a face. Você já conversou sobre a vida (inclusive digital) de seu filho ou filha, com ele ou ela, hoje?

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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