Quem trabalha com implantação e uso de tecnologias digitais na educação, há muito tem o termo resistência no vocabulário. Fala-se da resistência dos professores ao novo, à mudança, ao protagonismo.  No dicionário são várias as definições: força que se opõe ao movimento; inércia; qualidade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo.

Eu nunca apreciei o termo resistência para abordar a dificuldade de alguns educadores em compreender e inserir tecnologias digitais na sua ação pedagógica. Sempre achei que fazia parte do nosso trabalho, como educadores e formadores de educadores, encontrar os meios de acolher os professores e os caminhos para abordar suas dificuldades, seus temores e recusas (entendidas pela maioria como resistência).
 
Penso que nos cabe avaliar tempos e desenhos de formação, compreender os processos já em curso, a proposta curricular e também as necessidades e desejos dos educadores. Enfim, construir um sentido para o uso de dispositivos digitais para além do “significa inovação”, “todos estão usando”, “é muito moderno”, “os pais estão pedindo”. Frases de efeito não trazem mudanças.
 
É preciso construir um projeto adequado e dialogar para que ele faça sentido para todos. Escolher dispositivos, programas e aplicativos adequados, estar disponível para o professor que tem muitas ideias tanto quanto para o professor que tem total desconhecimento e teme o julgamento de seus colegas, alunos e superiores, tem sido o nosso cotidiano. Se trilharmos esse caminho com os cuidados necessários, certamente diluímos as tais resistências. Não é simples nem rápido. Demanda tempo de formação, equipe de apoio e muito trabalho. 
 
No entanto, há um ponto de virada, um momento em que, mesmo aqueles com maior dificuldade, começam a perceber o sentido da mudança, a adesão dos alunos, a contribuição das tecnologias para ação pedagógica. Isso é tangível por meio de escalas de avaliação e (por que não?) por meio dos convites para fazer mais, estar em sala, conversar com os alunos e, ainda, pelo tom do bom dia quando você chega à sala dos professores.
 
Ultrapassado esse primeiro degrau, deveríamos então “chegar ao paraíso”, ter a tecnologia inserida no cotidiano da escola, nas ações entre professores e também na sala de aula.  Porém aí aparecem outras dificuldades. E são elas que me fazem pensar mais seriamente sobre o termo resistência.  Aqui é resistência mesmo! Ela é verdadeira.  
 
O que, num primeiro momento, ganha a simpatia de alguns educadores, e depois de muitos, traz mais mudanças do que imaginamos. Isso diz respeito à autonomia, à possibilidade de fazer escolhas, de construir relações e de trocar. Aqui as resistências são maiores e mais difíceis de transpor.
 
A possibilidade de controle das atividades dos alunos numa sala de aula é bem maior se eles tiverem somente cadernos e livros em mãos. Podemos (?) controlar o que fazem, o que leem, a que conteúdos têm acesso. O que dizer quando lhes entregamos um tablet com acesso à internet? Como construir um processo pedagógico num contexto de mais escolhas, de janelas abertas para mais conteúdos e possibilidades de interação? Como propor uma lição de casa para alunos que se comunicam via rede social enquanto realizam as atividades? Como fazer desta comunicação parte do processo de aprendizagem e não ruído para o trabalho do professor? Para os que compreendem a atividade pedagógica como um processo que demanda controle estrito do professor, um dispositivo digital é uma ameaça. Será que a resistência às novas tecnologias não estaria no seu potencial de tirar o controle do professor?
 
E para gestores parece não ser diferente. De uma condição em que cada professor atua em sua sala, participa de reuniões, responde aos seus superiores, o uso de dispositivos digitais aproxima professores, possibilita outros arranjos e processos de trabalho. As redes sociais são febre entre professores e dor de cabeça para aqueles gestores que imaginavam ter seus subordinados sob controle.
 
Comunicados e ordens transitam hoje por e-mail e já vêm com o canal “responder a todos” como possibilidade, o que é muito diferente do comunicado afixado no mural da sala dos professores. O ponto de encontro é virtual e está aberto noite e dia, reunindo professores que talvez nem se encontrassem por conta dos turnos diversos e da agenda corrida. No espaço virtual, trocam ideias e experiências. Ferramentas de trabalho colaborativo têm aberto espaço nos contextos hierarquizados, mudando processos. Afinal, construir coletivamente um conteúdo é muito diferente de enviar partes e sugestões para o superior, que detém o poder da palavra final. Práticas, e também problemas, são partilhados com ou sem aval. Teriam esses processos o potencial para tirar o controle do gestor? De novo, trata-se de resistência às tecnologias ou à mudança nas condições da autoridade?
 
Uma professora relata o desconforto de sua coordenadora, ávida por corrigir os ‘posts’ dos professores, antes de serem publicados num fórum de discussão, pois temia que a diretora a repreendesse pelos erros de escrita e pelas posições da equipe. Outra me conta como a implantação de ambientes virtuais em sua escola foi simples com os alunos, mas entre professores e diretor, o processo não decolou. Talvez um diretor autoritário seja capaz de calar também as vozes que ecoam nos espaços virtuais. 
 
Esses relatos apontam para uma potência que vai além das funcionalidades mais visíveis dos dispositivos digitais. Parece que, quando entregues a indivíduos bem orientados e apoiados nas suas atividades, eles ameaçariam relações instituídas e gestões autoritárias.
 
Fica então a pergunta: será que o que encontramos nas escolas é resistência à tecnologia ou resistência à transparência que a tecnologia proporciona? 
 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Zilda Kessel

Zilda é educadora, mestre em Ciência da Informação pela ECA (USP) e doutoranda em Educação na PUC-SP. Professora da pós graduação do Senac, atua em projetos na área de difusão cultural e tecnologia educacional. Também, é assessora pedagógica do portal NET Educação.

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