Uma ideia importante defendida pelo teórico da mídia Marshal McLuhan (1911-1980) foi a de que os meios de comunicação possuem relevância social não tanto pelas mensagens específicas que transmitem, mas sim pelos tipos de comportamento e atitudes mentais que induzem.

As modificações paulatinas no ambiente social favorecidas pelos meios produzem mudanças de larga escala, capazes de moldar padrões de civilização. Assim, a “mensagem” do meio-livro teria sido o fortalecimento do individualismo, bem como do pensamento lógico e sequencial que se relacionam às formas de consumo do impresso. A televisão, por sua vez, teria permitido uma nova emergência de formas comunais de sociabilidade, produzindo o que o autor canadense chamou de “aldeia global”.

Dando continuidade e lançando novas ideias a respeito do argumento de McLuhan, Lev Manovich defende que nos dias atuais o software tornou-se o principal “meio” de nosso tempo. Isto ocorre porque o software tornou-se uma forma ubíqua que perpassa diferentes práticas atuais, como produzir um blog, fazer buscas ou compras na internet, armazenar digitalmente algum conteúdo, entre outras. 

Manovich, num texto de 2013, fez uma indagação que ganha mais sentido ainda hoje, com a eleição de um político como Donald Trump: “Como determinados algoritmos utilizados pelo Facebook para decidir quais atualizações de nossos amigos são mostradas em nosso feed de notícias conformam nosso entendimento do mundo?”. 

O assunto “código como meio” ganha interesse do ponto de vista da educação midiática, pois indica que a temática da codificação pode ser abordada a partir de uma perspectiva mais ampla. Geralmente, a inserção do assunto na educação básica no Brasil e no mundo tem se dado pelo ensino de determinada linguagem de programação, o que se relaciona a uma dimensão mais pragmática ou mecânica do tema. No entanto, há outras dimensões que podem ser exploradas em termos educativos.

Num artigo interessante para pensar sobre o desenvolvimento curricular a respeito do que chamam de “letramento em codificação” (code literacy), Tomi Dufva e Mikko Dufva defendem que uma aprendizagem deste tipo esteja vinculada também à compreensão dos efeitos das tecnologias digitais na sociedade. Seguindo as ideias de Paulo Freire, eles consideram que promover a “formação” sobre as tecnologias é mais importante do que “treinar” os estudantes. 

Os autores sintetizam “metáforas” de compreensão a respeito dos códigos digitais em grupos ligados a visões de mundo funcionalistas (com metáforas mecânicas, orgânicas, cerebrais e transformativas), interpretativas (com metáforas que relacionam os códigos à cultura, ao sistema político, a prisões psíquicas e como instrumentos de dominação) e pós-moderna (com uma metáfora “carnavalesca”, na qual podem existir múltiplas percepções sobre o código). 

O que é interessante na discussão dos autores é que ela convida os professores a pensarem sobre a racionalidade subjacente às escolhas curriculares e de atividades de ensino em relação a este tópico. As metáforas cerebrais e transformativas, por exemplo, podem conduzir a projetos nos quais a codificação volte-se à resolução de problemas sociais que afetem os estudantes, fazendo com que a atividade de codificação conecte-se mais facilmente com situações da vida real. O mesmo ocorre, sob a metáfora cultural, quando se coloca em discussão a natureza aberta ou proprietária dos softwares e as implicações deste fato na sociedade. Os autores fornecem outros exemplos, mas estes parecem suficientes para o tipo de discussão proposta por eles.

Enfim, não se trata de dizer que a ênfase na lógica e na matemática presente no ensino de codificação, tal como geralmente ocorre hoje, é sem valor, mas sim que pode ser insuficiente ou mesmo pouco refletida em termos de seu significado educativo.

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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