Nas relações entre comunicação e educação, um lugar especial cabe ao cinema. Algumas das primeiras reflexões e esforços para modernizar ou sintonizar a educação com seu tempo tiveram nesse meio, junto com o rádio, seu objeto de atenção. A trajetória de Roquette Pinto é exemplar desses esforços pioneiros. Humanista multifacetado, ele concebeu projetos para fazer do rádio a “escola dos que não têm escola” e de inserção do cinema em práticas educativas. Inclusive, um documentário sobre Roquette é disponibilizado online pela TV Escola.

As iniciativas tinham como objetivo oferecer formação cultural aos brasileiros, inclusive aos (poucos) que estavam no colégio. Nesse sentido, o Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince) voltou-se à produção de filmes, a grande maioria de curta-metragem, sobre temas educativos (científicos, históricos, literários e etc). Geralmente, esperava-se que o professor atuasse como mediador e que, muitas vezes, o filme oferecesse uma ilustração ou complementação a conteúdos curriculares.

Propostas desse tipo têm desdobramentos até hoje, seja no uso escolar do cinema (e do vídeo) relacionado a objetivos didáticos de disciplinas tradicionais, seja – numa vertente mais atualizada – nos estudos que se voltam a uma “alfabetização” na linguagem audiovisual. Muitas vezes, a preocupação maior é evidenciar, no plano da construção das mensagens, as estratégias ideológicas ou de manipulação das obras. E os exercícios de “leitura crítica” chamam a atenção para as especificidades da linguagem. Por vezes, o estudo volta-se à estética, sendo que o conhecimento advindo da análise da estrutura e de outros aspectos da obra procura favorecer a fruição tanto de um filme específico quanto de maneira geral.

No entanto, as relações entre o cinema/audiovisual e a educação são multifacetadas e outras duas abordagens têm ganhado espaço nos últimos tempos. Por um lado, a que envolve a produção de filmes pelos próprios estudantes, com maior ou menor formação e colaboração por parte dos professores (ou ainda outros agentes educativos). É possível pensar que esse caminho ganha impulso pelo barateamento de equipamentos, assim como por certa familiaridade e interesse dos jovens pelas linguagens audiovisuais. O fato de que algumas propostas pedagógicas reconheçam a importância dos “multiletramentos” também estimula os trabalhos. Em outras palavras, nos dias de hoje a aprendizagem relacionada a outras linguagens para “ler” e “escrever” o mundo, em complementaridade e possível reforço à escrita tradicional, é valorizada.

Por outro lado, há também um movimento, perceptível nos últimos anos, de interesse dos cineastas pelo cotidiano escolar e educação no geral. Não que a experiência educativa estivesse totalmente ausente do cinema. Ao contrário, como o ensino tende a demarcar uma etapa significativa na vida dos indivíduos nas sociedades modernas, diversos filmes, ao longo da história do cinema, aproximaram-se da escola. Um exemplo é o famoso “Zero de Comportamento” (1933), de Jean Vigo. Os filmes que enaltecem professores inspiradores, como “Ao Mestre com Carinho” (1967) e “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), constituem, em si, um gênero específico. Mesmo o documentário escolar possui seus clássicos, como “High School” (1968), de Frederick Wiseman, cineasta particularmente interessado em instituições e que voltaria a enfocar uma escola num filme de 1994, “High School II”.

Porém, tanto pela quantidade quanto pelo tipo de abordagem dos filmes, que propõem uma discussão muitas vezes densa de questões educativas, parece que as relações entre cinema e educação vivem um momento particular. O que é evidenciado principalmente em documentários, como o argentino “A Educação Proibida” (2012), mas também em obras mais ligadas à ficção, como “Entre os Muros da Escola” (2008). Desta vez, não é a escola que assiste ao cinema, mas é o cinema que observa a escola. E ele vê o quê? Discutirei o tema na próxima coluna.
 

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Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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