A força da indústria de cinema na América Latina esteve sempre em quatro países: México, Argentina, Brasil e Cuba. Políticas culturais consolidaram a produção estável e a formação do público cubano.
No artigo sobre o cinema latino americano traçamos um panorama das cinematografias mexicana e argentina. Além destes dois países e do Brasil, o outro país latino-americano com indústria cinematográfica consolidada é Cuba.
Antes mesmo da Revolução (1959), Cuba já possuía rica atividade cinematográfica, tanto na produção como no gosto pelo cinema, hábito que se manteve. Após a vitória da Revolução Cubana, a primeira realização cultural do novo governo foi a criação do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos – o Icaic, em 24/03/1959. Apesar desta instituição ter como maior missão a propaganda do novo governo, é curioso observar a pluralidade estética e temática dos filmes produzidos, revelando muitas vezes as tensões e conflitos vividos naquele país. A infraestrutura industrial de cinema desenvolvida em Cuba permitiu, entre os anos 1960 e 1990, produção permanente e sistemática, a partir de seus próprios estúdios, laboratórios e pessoal técnico e artístico. Até 1990, Cuba produzia de 8 a 10 longas por ano, além de 20 documentários de curtas e médias metragens. Tal produção se articulava ao conjunto da economia do país, dependente da União Soviética. Com o fim do comunismo e a desagregação da URSS, Cuba entra em crise econômica, que durou até 2002. A produção cubana de filmes reduziu-se a um terço. A partir de 2003, o cinema cubano ganhou novo fôlego, realizando co-produções com outros países latinos e europeus, principalmente a Espanha.
A recuperação da pequena, mas sólida, indústria cubana se deu pela força da cultura de cinema em Cuba, tendo como base as políticas culturais que viram no cinema um importante veículo de formação social e de construção de uma nova identidade nacional, pós-revolucionária. Tal estratégia para o cinema assemelha-se às políticas culturais implementadas na França, após o final da 2ª Guerra Mundial e a desocupação das tropas nazistas (1945). Em Cuba, o incentivo oficial construiu uma cultura cineclubista que se cristalizou e perdura até hoje. Ao contrário de todos os países latino-americanos (incluindo o Brasil) os cubanos assistem aos seus próprios filmes (embora tenham acesso a filmes de outros países). Com apenas 10 milhões de habitantes, pelo menos 15 longa metragens nacionais superaram a marca de mais de 1 milhão de espectadores. Dentre esses 15 filmes, dois deles– Las Aventuras de Juan Quinquin (de Julio Garcia Espinosa, 1967) e Guardafronteras (de Octavio Cortazar, 1980) – tiveram mais de 2 milhões de espectadores.
Em meados dos anos 1980, em todo o mundo, houve fechamento de salas de cinema, em função da diminuição do público, mas esse fenômeno impactou menos o cinema cubano. Em 2003, o país possuía quase 800 salas de cinema, muitas delas móveis.
Desde sua criação, o Icaic, Instituto Cubando de Arte e Indústria Cinematográfica, orientou sua política para a importação de filmes de forma racionalizada. 20% era de produção latina, incluindo as produções nacionais. 30% a 35% eram filmes vindos dos EUA e porcentagem semelhante vinha da União Europeia. Essa política foi alterada com a crise econômica dos anos 1990 e o país passou a importar menos filmes.
Outro destaque a comentar, é a presença da Escuela Internacional de Cine, Televisión y Vídeo de San Antonio de los Baños, localizada nas proximidades de Havana. Esta escola de cinema forma alunos do mundo todo, com brasileiros entre eles, e é uma referência para o ensino de cinema no mundo. Em Havana, se realiza anualmente, desde 1979, o Festival Internacional Del Nuevo Cine Latino-americano, o maior festival de cinema latino-americano.
Dentre os cineastas cubanos mais importantes e apreciados pelo público, destacamos: Manuel Píres, Juan Padrón, Pastor Vega, Julio Garcia Espinosa, Humberto Solás, Octavio Cortázar, Juan Carlos Tabío e Tomás Gutiérrez Alea. Este último é o diretor de maior destaque internacional. Dentre os filmes cubanos que circularam no Brasil, os mais conhecidos são os deste diretor, como A morte de um burocrata (1966); o filme considerado uma obra-prima Memórias do subdesenvolvimento (1968), A última ceia (1976), Morango e chocolate (1994) e Guantanamera (1995). Os dois últimos filmes foram co-dirigidos por Juan Carlos Tabío, porque Gutiérrez Alea estava doente, vindo a falecer em 1996. Embora o cineasta fosse um defensor do socialismo, ele revela faz muitas críticas ao governo de Fidel Castro em seus filmes, apontando para o excesso de burocracia, a perseguição aos homossexuais e a falta de liberdade política. Seu amigo Juan Carlos Tabío também dirigiu Sete dias em Havana (2012), que chegou às nossas salas de cinema.
Há outros dois filmes que podem nos contar sobre a cultura cubana, mas não foram realizados naquele país. Um deles é do cineasta brasileiro Vicente Amorim, chamado Soy Cuba – O Mamute Siberiano (2005). O documentário desvenda o mistério da super produção soviética chamada Soy Cuba, realizada no início dos anos 1960, por Mikhail Kalatozov. O filme tinha intenção de enaltecer a revolução cubana, mas não agradou aos soviéticos que o engavetaram. Redescoberto pelos diretores Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, foi considerado por eles uma obra prima em termos de técnica e linguagem cinematográficas. O cineasta brasileiro, que estudou cinema em Cuba, busca em Soy Cuba descobrir as razões desse descaso soviético. Tanto o documentário como o filme original podem ser encontrados em DVD.
Outro documentário que nos fala da cultura cubana é Buena Vista Social Club (1999), dirigido pelo cineasta alemão Wim Wenders, traz entrevistas com grandes artistas cubanos que fizeram sucesso nos anos 1940/50. Seu retorno aos palcos – em Amsterdam e no Carnegie Hall, em Nova York – se deu a partir do produtor musical Ry Cooder. O filme fez sucesso no Brasil e os artistas vieram várias vezes para cá, realizando shows em parceria com músicos brasileiros.
Uma das características do cinema cubano é seu intercâmbio solidário com outros países latinos. O ideal seria que essa circulação acontecesse em todo o continente, como instrumento de formação cultural e construção de nossa identidade.
Referências Bibliográficas:
LISBOA, Fátima S.Gomes. O cineclubismo na América Latina: idéias sobre o projeto civilizador do movimento francês no Brasil e na Argentina (1940-1970) in: História e Cinema – Dimensões Históricas do Audiovisual, CAPELATO (et al) (org) . São Paulo: Alameda , 2007.
MELEIRO, Alessandra (org.) – Cinema no Mundo – Indústria, política e mercado – volume II – América Latina. São Paulo: Escrituras Editora, 2007.
VILLAÇA, Mariana. Cinema Cubano – Revolução e Política Cultural. São Paulo: Alameda, 2010.
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Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.