“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”
(Alberto Caieiro)
 
É curioso pensar sobre as culturas locais. Temos uma tendência de achar que questões globais são discutidas em grandes cidades e que as pequenas cidades expressam apenas os costumes e os interesses locais. Uma obra de arte – fílmica, literária, musical – pode abordar temas de uma pequena aldeia e sensibilizar pessoas do mundo todo. É o caso do filme Abril Despedaçado (Walter Salles, 2001), adaptação do conto de um escritor albanês para o cenário do nordeste brasileiro. E ainda assim tornou-se uma obra universal. O mesmo vale para o recém-lançado A História da Eternidade, primeiro longa metragem do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante. O filme traz três histórias femininas que se entrecruzam no sertão nordestino, em um vilarejo com meia dúzia de casas. A forma poética de contar as histórias e a as relações humanas em uma sociedade patriarcal tira todo caráter "regional" do filme, tornando-o universal. A excelência do elenco, a trilha sonora e a fotografia bem cuidadas contribuíram para consagrar o filme, que ganhou prêmios nos festivais de cinema, dentro e fora do Brasil. Infelizmente, por conta das dificuldades de distribuição do cinema brasileiro, esse filme ficou pouquíssimo tempo em cartaz nas salas de cinema, mas  pode ser visto no NET NOW e, eventualmente, no Canal Brasil. 
 
A qualidade do filme A História da Eternidade confirma a excelente produção pernambucana que vem surpreendendo o Brasil nos últimos anos. Por muito tempo a indústria cinematográfica brasileira concentrou-se no eixo Rio-São Paulo. Nas outras regiões também se fazia filmes, mas com precariedade de recursos e, principalmente, com poucas chances de serem vistos fora do circuito local. Hoje, o cinema pernambucano tem se destacado como um dos polos de maior qualidade artística do país.
 
 
 
Desde os anos 1920, época dos chamados ciclos "regionais" de cinema, a produção de Recife (PE) se revelou, com destaque para os cineastas Edson Chagas e Gentil Roiz. Eles realizaram ao todo 12 longas e 25 curtas, sendo o mais famoso deles Aitaré da Praia (1925), que circulou pelo país. Nessa fase, o domínio cultural estrangeiro concentrava-se mais nas grandes cidades, o que permitiu o desenvolvimento de uma arte local, mais livre para criar, já que seus artistas não sofriam tanto as pressões do mercado. Esses ciclos, porém, duraram pouco, pois não demorou para o cinema norte-americano chegar também nessas regiões. 
 
Assim como várias capitais brasileiras, Recife tornou-se uma cidade com cultura cineclubista, entre os anos 1950 e 1980, permitindo o surgimento de uma geração de jovens cineastas que criou o Grupo de Cinema Super-8 de Pernambuco (com destaque para o documentarista Fernando Spencer). Com o declínio do Super-8, na década de 1980, inicia-se uma fase fértil de produção de curtas-metragens, com temas da cultura local, documentários e filmes experimentais.  Paulo Caldas é um cineasta que já nessa época produzia curtas. Segundo ele, como não havia escolas de cinema em Recife, o jeito de se aprender a fazer cinema era produzindo. Uma entrevista sobre sua obra, pode ser lida aqui.
 
Em 1990, o então presidente Fernando Collor de Mello decreta o fim da Embrafilme, o que leva o já sofrido cinema brasileiro a interromper a produção, uma vez que não tínhamos uma indústria de cinema que pudesse sobreviver sem ajuda estatal (até hoje não temos). Dois anos depois, com as novas leis de incentivo à cultura, a produção de cinema foi sendo retomada aos poucos e o primeiro grande sucesso de público dessa nova fase (chamada de "retomada do cinema brasileiro") foi Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati, 1995.
 
Em Pernambuco, a lei federal de incentivo à cultura, Lei Rouanet, somou-se a outras leis de incentivo locais e aquela geração de cineclubistas e realizadores de curtas-metragens encontrou recursos para transformar seus sonhos criativos em grandes filmes. Trabalhando como um coletivo, escreviam os roteiros, produziam, dirigiam e atuavam.
 
O primeiro sucesso dessa época foi Baile Perfumado, do já citado Paulo Caldas codirigido por Lírio Ferreira, 1996. O filme conta a história de um mascate libanês – Benjamin Abrahão, que era amigo de Padre Cícero. Ele resolve filmar Lampião, acreditando que ficaria muito rico com o filme. Consegue contato e uma conversa com o famoso cangaceiro, porém, a ditadura do Estado Novo estraga seus planos. Baile Perfumado exibe as únicas imagens de Lampião ainda vivo, coletadas por esse cinegrafista amador. Ao contrário dos tradicionais filmes sobre o tema, este apresenta um sertão muito verde e Lampião tomando whisky e se banhando com perfume francês (daí o nome do filme). A música é composta pelos jovens músicos do movimento manguebeat, como Chico Science & Nação Zumbi e Mestre Ambrósio.
 
Lírio Ferreira, o diretor de Baile Perfumado fez ainda Árido Movie, 2005, e depois se dedicou a dois documentários musicais muito interessantes: Cartola, Música para os Olhos, 2007, e O Homem que Engarrafava Nuvens, 2009, sobre a vida e obra de Humberto Teixeira, letrista dos maiores sucessos de Luiz Gonzaga. 
 
 
 
Já o documentário Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, 2000, de Paulo Caldas em parceria com Marcelo Luna, conseguiu repercussão internacional.  Ele conta a história de dois jovens da periferia de Recife, um se torna músico de rap e o outro justiceiro. O diretor fará, ainda, Deserto Feliz, 2007, coescrito por Marcelo Gomes, Xico Sá e Manoela Dias – e País do Desejo, 2011.
 
Com roteiro de Hilton Lacerda e direção de Cláudio Assis (de Caruaru/PE), outro filme significativo da chamada retomada pernambucana foi Amarelo Manga (2002). Premiado no Brasil e no exterior, a trama traz várias histórias fortes interpretadas por elenco conhecido do público, como Leona Cavali, Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Dira Paes e Chico Diaz. Sua ousadia estética e temática aparece nos seus outros filmes, como Baixio das Bestas, 2006, e A Febre do Rato (2011), também escrito por Hilton Lacerda. Eles trazem a marca da reflexão sobre o comportamento humano, apresentando uma linguagem cinematográfica autoral em produção de baixo custo.  Hilton passou então para a direção, a princípio ao lado de Lírio Ferreira, no já citado documentário sobre o sambista Cartola. Seu primeiro trabalho solo de direção foi Tatuagem – com atuação impecável de Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa – que fez muito sucesso em 2013.
 
Outro diretor de destaque dessa geração é Marcelo Gomes que também começou realizando curtas como Maracatu, Maracatu, 1995, e Clandestina Felicidade, 1998, este sobre a infância e a obra de Clarice Lispector. Seu primeiro longa foi o aclamado Madame Satã, 2002, sobre o lendário boêmio carioca, interpretado por Lázaro Ramos. Este filme foi roteirizado e codirigido por Karim Aïnouz, que é cearense e integra-se perfeitamente ao movimento pernambucano.
 
Gomes surpreendeu mais uma vez com a qualidade do filme Cinema, Aspirina e Urubus (2005), que foi premiado no Brasil e no exterior. Na França, o filme recebeu o "Prêmio da Educação Nacional", do Ministério da Educação (MEC), que prevê a distribuição do filme, em DVD, para aproximadamente um milhão de estudantes franceses. O ator João Miguel que interpreta Ranulpho ganhou também muitos prêmios com o filme. A sinopse, ficha técnica e o plano de aula deste filme encontram-se neste portal no link: Cinema, Aspirinas e Urubus
 
Marcelo Gomes fez ainda Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, 2009, codireção com Karim Aïnouz, e Era Uma Vez Eu, Verônica, 2012. A dupla já havia feito vários curtas e roteirizado filmes importantes como Abril Despedaçado, 2001, e Cidade Baixa, 2005. Aïnouz dirigiu, ainda, O Céu de Suely, 2006, O Abismo Prateado, 2011, e Praia do Futuro, 2013, com atuação brilhante de Wagner Moura e Jesuíta Barbosa. 
 
 
Por fim, outro jovem cineasta pernambucano que despontou recentemente foi o jornalista Kleber Mendonça Filho. Experiente crítico de cinema, ele faz da crítica especializada o tema de seu primeiro longa-metragem, o documentário Crítico, 2008, e curtas-metragens, como o divertido Recife Frio, 2009. Ideias presente em seus curtas reaparecem no seu primeiro longa de ficção O Som ao Redor, 2013. O filme faz quase um tratado sociológico do Brasil, a partir de um quarteirão da cidade de Recife. O jornal New York Times colocou O Som ao Redor na lista dos dez melhores filmes de 2013. Em festivais nacionais e internacionais, o filme ganhou mais de 120 prêmios.  O filme é um excelente exemplo do que falamos no início: a ideia da aldeia que fala de questões universais.
 
 
A safra de realizadores – diretores, roteiristas, músicos, fotógrafos, atores e atrizes – que surgiu em Pernambuco nas duas últimas décadas merece ser conhecida e estudada. Fica evidente que se trata de uma ambiência cultural que favoreceu essa produção tão criativa. Infelizmente, em função dos problemas da nossa indústria de cinema, especialmente a distribuição e o preconceito que ainda existe contra o cinema brasileiro, os filmes pernambucanos ainda não são tão conhecidos do grande público.

 

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Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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