Publicado em
16 de janeiro de 2014
Fino psicólogo social, o filósofo Schopenhauer notara que os principais inimigos da felicidade humana são o tédio e a dor. Paradoxalmente, ao nos afastarmos de um desses sentimentos, o outro se torna mais provável. Assim, os pobres e necessitados, que precisam lutar por sua sobrevivência, têm sofrimento, mas não tédio. Já aqueles que escapam das dificuldades sociais e econômicas são mais propensos ao aborrecimento e à sensação de vazio. A reflexão me veio à mente a propósito de duas experiências culturais desse fim de ano, relacionadas ao tédio, ao sofrimento e à vida escolar.
Vamos primeiro ao sofrimento. No belo filme Pai Patrão (dirigido por Paolo e Vittorio Taviani, 1977), a primeira sequência é marcante. O pai vai à escola do filho disposto a tirá-lo de lá, pois entende que ele precisa trabalhar, seguindo as tradições da gente humilde de então (o filme, baseado numa história real, se inicia na Sardenha, na Itália da década de 1940). A figura autoritária do pai faz com que o menino levante-se de sua carteira e fique em pé; nervoso, urina nas calças. A professora tenta consolá-lo, mas não pode fazer nada e o menino deixa a aula com o pai.
Logo após a saída dos dois, os alunos fazem uma algazarra, riem do xixi nas calças do colega. Porém, o pai retorna à sala e repreende os alunos, diz que eles não devem rir de seu filho e faz uma advertência: hoje é ele que é tirado da escola para trabalhar, mas em breve serão os outros. A classe fica em silêncio, e os diretores do filme mostram os pensamentos preocupados de alguns alunos. Aqui, há dor e sofrimento, mas não tédio. A escola era um anteparo a um cotidiano cinzento, feito de obrigações muitas vezes cansativas e dolorosas.
Cortando para 2013, nos dirigimos ao tédio. Ao tédio fortemente vinculado à escola e seu cotidiano. De acordo com a reportagem de Amanda Ripley (Bored to Death: To learn just how bored kids are in school, look at Twitter) para a New Republic, o tédio expresso pelos estudantes no mundo todo é uma espécie de epidemia. A matéria apresenta indicadores e casos interessantes. São mostrados tweets e fotos dos próprios estudantes sobre o que estariam sentido na (ou pela) escola. Algumas produções são imaginosas e divertidas, pois como nota uma aluna, com aguda consciência do caráter público de sua imagem/mensagem: “Tweetar um tweet chato parece contraproducente”.
Há uma distinção evidente entre uma escola rara e difícil, para poucos, e que era, em certo sentido, uma proteção contra as adversidades da vida (como a do filme Pai Patrão) e a escola marcada pela universalização do acesso e pelo tédio. É claro, essa polaridade é simplificadora: a “escola antiga” também era feita de dificuldades e sofrimento (quem duvida, deve ler O Ateneu ou “O conto da escola”, de Machado de Assis) e a escola dos dias de hoje não é, o tempo todo, percebida como uma prisão.
O que é caracteristicamente novo, nos tempos atuais, é essa possibilidade dos estudantes elaborarem e manifestarem simbolicamente – em tempo real – sua relação com a escola.
Ao mesmo tempo, se deve desconfiar da ideia de que a “representação” é o próprio fenômeno. Para o sociólogo Erving Goffman, as pessoas representam papéis sociais e agem, em grande medida, conforme as expectativas relacionadas a eles. Nesse sentido, nem tudo que ocorre no “palco” corresponde exatamente aos “bastidores” da vida. E as mídias sociais se parecem cada vez mais com um palco (com um público) do que com bastidores. Essas noções inspiram a análise de uma sugestiva pesquisa sobre o uso de uma rede social por universitários no Reino Unido, do pesquisador Neil Selwyn (Faceworking: exploring students’ education-related use of Facebook)
Em suas postagens relacionadas com a vida universitária, os estudantes geralmente expressam ironias sobre a educação, sobre si mesmos como alunos e sobre seus professores. O que predomina é o desengajamento, mas como uma forma de construir uma identidade (mais ou menos esperada). Como nota, o autor afirma que os alunos “pareciam estar (in)conscientemente replicando e reforçando papéis desenvolvidos em fases prévias da educação escolar, […] a socialização leva as pessoas a apresentar apenas aquelas partes de suas personalidades que elas consideram apropriadas às normas de cada encontro situado”.
Quando este “papel” – desengajado e irônico, cuja contraface é a aversão ao “CDF” – de estudante tornou-se tão forte na cultura de tantos países? Ao mesmo tempo, o que faz com que seja atrativo, de modo que, mesmo em sociedades que valorizam a educação, o tédio (não só escolar, basta pensar na atitude blasé de muitos ídolos juvenis) e a insatisfação parecem ser uma distinção positiva na autorrepresentação dos estudantes e dos jovens?
Os desdobramentos da discussão são evidentes: como lidar com essa questão? Qual o papel das tecnologias (mais como causas ou consequências)? Entre a dor e o tédio, existe espaço para o prazer e o engajamento, em suma, para a felicidade, na escola? O tema é complexo e devo retomá-lo na próxima coluna, em fevereiro.
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Autor
Richard Romancini
Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.