Li no mês passado, com mais espanto do que surpresa, uma notícia (aqui) sobre a polêmica causada por um material didático italiano voltado a educar e incitar reflexões sobre as identidades de gênero. O espanto deu-se porque, do pouco que vi sobre este material (conforme a descrição e as imagens mostradas na matéria), não consegui entender o que ele teria de “lição pornô”, conforme falam alguns críticos. Além disso, a situação ocorreu num país desenvolvido.
 
A falta de surpresa deve-se, por sua vez, ao reconhecimento de que todo material educativo que entra nas escolas tem um enorme potencial para causar controvérsias, pois é como se a instituição sancionasse (assim como faz com o saber) valores morais.
 
Compartilhei a notícia e algumas observações, como as anteriores, com alunos da Licenciatura em Educomunicação da ECA/USP, num grupo do Facebook. Também pedi para que um aluno do curso, que atualmente está na Itália num intercâmbio de estudos, nos informasse mais sobre o assunto. O estudante Guilherme Yazaki, gentilmente, deu os esclarecimentos, abaixo, que divido com os leitores:
 
Li bastante a respeito (vou colocar algumas referências na sequência) e posso falar que esse tema se assemelha bastante ao recente caso do material didático que foi apelidado de “kit gay” pelos setores conservadores e religiosos no Brasil (sobre o material italiano, nesta língua, mas basicamente explica o que é o projeto e como funcionam os jogos: link; sobre o caso do “kit gay”: link). Só pra situar a questão, eis um resumo do contexto italiano: digamos que aqui na Itália os conservadores têm tanto ou até mais força que no Brasil pela forte presença política da Igreja Católica/Vaticano e pelos problemas mais atuais relacionados à crise econômica (leia-se imigração/xenofobia, tendência ao conservadorismo, etc.). Um pouquinho sobre o contexto italiano: link e link (não seria estranho se este vídeo italiano fosse produzido no Brasil sob o mesmo enfoque).

Dito isso, e ressaltando as similaridades com o “caso brasileiro”, sobre o material só posso dizer que não há nada demais, muito pelo contrário: ele visa combater a discriminação e a violência em geral (bullying) e também, especificamente, contra a mulher, problematizando as questões de gêneros e desmitificando estereótipos socialmente construídos em relação à desigualdade de gêneros e ao papel do homem e da mulher na sociedade. Por exemplo, utilizando as profissões (mostrando tanto homem e mulher em situações de afazeres domésticos, como jogador e jogadora de futebol, como mecânico e mecânica e assim por diante), as cores (menino e menina com rosa, com azul), as brincadeiras (com boneca e carrinho), e também as semelhanças e diferenças físicas (mostrando que o corpo dos dois funciona da mesma maneira, mas também falando transparente e honestamente que existem diferenças, e aqui que, procurando pelo em ovo, alguns diziam existir uma “lição pornô”).

Mas como você disse, em se tratando de inserir valores morais na escola, sempre pode haver controvérsias, principalmente quando se propõe a romper com o pensamento hegemônico. Um dentre os comentários de uma matéria (aqui, é o sexto) me chamou a atenção, pois recriminava a proposta sob o argumento de ser contrário à “doutrinação de pensamento único”, que a educação deve ser neutra e a criança, após crescer, tem o direito de escolher o próprio caminho, seja ele errado ou não. E aqui não há como não se lembrar de Paulo Freire, quando ele dizia que não existe neutralidade na educação, pois ela sempre representará uma visão de mundo de qualquer que seja a ideologia. Ou seja, o educador tem a missão de apresentar a realidade de forma crítica; e a omissão de determinados temas como este (defendida pelo autor do comentário citado, e também pelos conservadores críticos da proposta) está longe de ser neutra, pois serve aos interesses da ideologia dominante.
 
Concordo com Guilherme, enfatizando que, no fim das contas, a missão mais alta da escola e da educação é profundamente civilizadora. Nas escolhas de estudo e atitudes valorizadas na escola há modelos de bem viver privilegiados por qualquer sociedade. A questão que se coloca sempre é: de que lado nós estamos?
 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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