Aproveitei os dias de folga de fim de ano e li a biografia de Carlos Marighella, editada pela Companhia das Letras. É um livro que se lê com prazer, pelo estilo do autor, o jornalista Mario Magalhães. A história não traz muita novidade, para quem conhece a literatura sobre o período autoritário e as tentativas de contestação feitas pelos grupos da esquerda armada. Em retrospecto, a guerrilha pode parecer um equívoco completo – a desproporção de forças e a falta de apoio social mais amplo são evidentes. Porém, houve uma dignidade inegável nesta contestação. Contrasta com ela, o horror que caracterizou a repressão, pelo uso de métodos degradantes de tortura e execução.
 
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Por acaso, no dia que finalizei a leitura da biografia resolvi assistir à televisão. De madrugada, num canal dedicado a conteúdo brasileiro era transmitido o excelente documentário Cidadão Boilesen (2009), de Chaim Litewski. Espécie de oposto de Marighella, o empresário Henning Boilesen exemplifica um tipo pouco iluminado pela historiografia: os apoiadores civis do golpe. Mais que isso, em seu anticomunismo, ele era um entusiasta da repressão. O filme insinua uma natureza sádica que teve, nas circunstâncias da época, condições de plena expressão. Conforme os depoimentos, o empresário apreciava acompanhar o suplício dos presos políticos, tendo importado um mecanismo de tortura – a “pianola Boilesen” – por choques elétricos.
 
A única coisa que aproxima, em termos biográficos, Marighella e Boilesen é o final de vida dramático. Sinal de tempos que, felizmente, a sociedade brasileira parece ter superado. Ou não? Como se sabe, ao fim da eleição presidencial, grupos minoritários pediram uma “intervenção militar”. Provavelmente um misto de demagogia e falta de informação explica essa atitude. Contra a má fé há pouco a fazer, no entanto, a falta de informação é injustificável. A literatura e as fontes históricas audiovisuais sobre o período são até certo ponto abundantes – sobre Marighella, por exemplo, já existem dois bons documentários, um de Silvio Tendler, de 2001, chamado “Retrato Falado do Guerrilheiro” e outro da sobrinha do guerrilheiro, Isa Grinspum Ferraz, de 2011, denominado simplesmente Marighella.
 
É claro, pode-se alegar que nem todo material é de fácil acesso ou é bem utilizado de maneira geral e em atividades educativas. Sendo assim, é louvável a proposta da Comissão Nacional da Verdade de expor publicamente seus resultados na internet, assim como a iniciativa similar do Projeto Brasil: Nunca Mais. Porém, é provável que os professores apreciem mais, pela natureza didática e conteúdo pedagógico, o interessante portal, elaborado pelo Instituto Vladimir Herzog, Memórias da Ditadura. Produzido a partir de uma demanda da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, este portal cumpre o objetivo de divulgar a História do Brasil, no período de 1964-1985, particularmente para os jovens (certamente afeitos à linguagem multimídia dos conteúdos). Possui também discussões sobre o uso do material por professores e um conjunto de sequências didáticas.
 
Talvez alguns acreditem que tratar deste tema nas escolas pode ter riscos, por constituir conhecimento sobre momento ainda muito recente da história, o que pode dar margem a olhares ideologizados ou maniqueístas, em relação a complexos processos sociais. No meu entender, no que parece mais relevante, ou seja, a educação para a democracia, para o combate à ignorância histórica, tais argumentos não procedem.
 
Não é necessário ser vegetariano para ser contra o canibalismo; não é necessário professar qualquer ideologia para ser contra a violação da vida humana, a falsificação da história, a repressão e as ditaduras. Ter que enunciar esse truísmo, entretanto, só mostra o quanto estamos distantes de uma situação ideal de educação em direitos humanos.
 
P.S.: esse artigo foi escrito antes do trágico atentado ocorrido na França, que parece indicar mais ainda a relevância da educação em direitos humanos. Tema que se associa a questões complexas, como a do respeito à liberdade de expressão, mas também às minorias, e quanto ao papel da mídia nessa equação.

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Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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