A ideia de que o presente é o passado do futuro é bastante intuitiva. O que fazemos e imaginamos guarda em potência o que o mundo será amanhã ou, no mínimo, como acreditamos que a realidade deve ser no próprio hoje. O tempo presente não é feito só da imaginação do futuro. Na verdade, ele é construído a partir do legado material e simbólico do passado. O modo como entendemos essa segunda herança depende muito de como a interpretamos. As disputas sobre o “significado” de determinado ato ou período justificam-se, assim, não só em termos do conhecimento, mas também dos valores que estão implícitos na interpretação histórica.

Quando um grupo “picha” ou “faz uma intervenção” em dois monumentos da cidade de São Paulo – as estátuas em homenagem às bandeiras e a de Borba Gato – estamos diante de um ato significativo desse tipo. Algo que conecta passado, presente e futuro. Não é por acaso que até a escolha do verbo que preferimos para definir o ato tende a conduzir a uma tomada de posição sobre duas questões: “quem somos?”, “quem queremos ser?”.

Tanto a obra do modernista Victor Brecheret, que ganhou a simpática e popular designação de “empurra-empurra”, quanto o kitsch Borba Gato, no bairro de Santo Amaro, têm um papel icônico numa cidade tão pobre em referências visuais como São Paulo. Além disso, remetem a uma mitologia particular dos paulistas. Há algumas décadas, na escola, os bandeirantes eram abordados mais ou menos como heróis do Brasil, construtores da nacionalidade e símbolos da liderança da cidade.

Parece que isso tem mudado, na educação atual, em favor de uma visão mais nuançada e complexa. Evidentemente, aos olhos de hoje, os bandeirantes cometeram crimes, porém, muito do que fizeram representou o modo (violento e injusto) de colonização da época em que viveram. Isto não os absolve da crueldade praticada, no entanto, este passado é parte do que somos hoje. É válido pensar e discutir essa questão.

Uma interpretação dos bandeirantes sob a ótica de sua violência parece autorizar o vandalismo às obras de arte que os retratem. Porém, o importante debate sobre o significado e legado desses personagens acaba sendo, no meu entender, quase impedido por ações do tipo. O problema é que elas levam a opiniões extremadas (“que horror”, para os defensores do patrimônio, “que ótimo”, para os que apreciam transgressões no espaço público), que pouco contribuem para avançar a discussão e problematização do período e seu significado para os dias de hoje. A dupla via da análise das representações e da elaboração de “contrarrepresentações” é muito mais interessante.

Ao propor análises das representações construídas ao longo do tempo sobre algum fato ou período, percebendo suas motivações ideológicas, um professor pode facilitar ao estudante a compreensão do quanto o passado é “vivo”. Pode ser entendido a partir de enfoques distintos, que se enraízam em determinadas construções simbólicas. Do ponto de vista da comunicação e da mídia, isto é muito importante (basta pensar nos filmes que foram feitos sobre os bandeirantes), visto que esta instância social se tornou tão relevante atualmente. 

A outra via de abordagem do passado e de suas representações é a construção de contrarrepresentações, isto é, trabalhos com suportes artísticos e/ou comunicativos (fotografia, vídeo, etc) nos quais os estudantes possam produzir as suas representações sobre alguma coisa. Em trabalhos assim, as representações oficiais poderão ser questionadas, parodiadas ou ironizadas. Quer dizer, elabora-se a partir do uso da linguagem artística e midiática outra mensagem, que pode abrir um campo maior para discussão e debate do que a menos produtiva intervenção direta em monumentos públicos sem autorização.

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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