A vida de Graciliano Ramos (nascido em 27/10/1892, em Quebrângulo/AL, e falecido em 20/03/1953, no Rio de Janeiro/RJ) daria um bom filme. Passou sua infância nas cidades de Viçosa (MG) e Palmeira dos Índios (AL), e Buíque (PE). Sua família era rigorosa na educação, com pouca conversa, fazendo-o acreditar que a violência era intrínseca às relações humanas.

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Depois de uma infância difícil, destacou-se como bom escritor e tornou-se jornalista. Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios, em 1927. Os relatórios de prestação de contas da prefeitura, que ele enviava ao governador de Alagoas, chegaram às mãos do escritor e editor Augusto Frederico Schmidt, que ficou tão impressionado com a qualidade literária dos relatórios, que o procurou para que publicasse mais textos. 
 
Em 1930, renunciou ao seu cargo na prefeitura, mudando-se para Maceió, onde foi nomeado diretor da imprensa oficial de Alagoas. No ano de 1933, ocorreram três fatos importantes na sua vida: foi nomeado diretor da Instrução Pública de Alagoas (cargo equivalente a Secretário da Educação), contratado como redator do Jornal de Alagoas, onde publicou vários trabalhos e, por fim, deu-se a publicação do seu primeiro romance: Caetés. No ano seguinte, foi publicado São Bernardo
 
A escrita do Mestre Graça, como passou a ser chamado mais tarde, era facilmente identificada por suas posições políticas, alinhadas aos que lutavam contra o coronelismo no nordeste e no Brasil. Seus textos, tanto na imprensa como nos livros, refletem a indignação diante das desigualdades sociais, da seca que atinge as famílias mais desamparadas e dos problemas educacionais do país. Enfático no posicionamento político manteve, ao longo da vida, o preciosismo na linguagem, em textos altamente sofisticados, enxutos e cortantes. 
 
Segundo o biógrafo de Graciliano, Dênis de Moraes, o escritor “recorre às palavras para refletir o seu compromisso com a condição humana, sempre com a preocupação de expor as mazelas e as injustiças sociais e ao mesmo tempo de demonstrar um olhar de compaixão pelos excluídos e a esperança na igualdade entre os homens”. 
 
Sua preocupação com as questões da educação eram sérias e práticas, tendo se dedicado às políticas educacionais em vários momentos de sua vida. Nos romances, o retrato da infância certamente trazia muito da hostilidade que ele próprio vivera, quando criança. 
 
O posicionamento político custou-lhe caro: em 1936, sem acusação clara, foi preso em Maceió e levado para o Rio de Janeiro, onde permaneceu preso por quase um ano. Esse momento de sua vida será contado no livro Memórias do Cárcere, obra adaptada por Nelson Pereira dos Santos, em 1984. 
 
Enquanto esteve preso, em agosto de 1936, foi publicado seu terceiro livro Angústia, obra que lhe deu o prêmio Lima Barreto, da Revista Acadêmica. Assim que foi libertado, em 1937, recebeu outro prêmio: o de Literatura Infantil do Ministério da Educação por A Terra dos Meninos Pelados (obra adaptada para a televisão, em 2003). Nesta fase, viveu no Rio de Janeiro, onde conviveu com o poeta Manuel Bandeira, o escritor Jorge Amado e o pintor Cândido Portinari, entre outros artistas.
 
Em 1938, vivendo uma situação financeira difícil, começou a publicar Vidas Secas nos jornais, como contos independentes. O primeiro a ficar pronto foi Baleia, que se tornaria depois o nono capítulo do livro, publicado em 1938. A crítica aclamou o escritor, como um artesão das palavras, e esta obra foi considerada, tempos depois, uma das mais importantes da literatura brasileira e universal. 
 
Em 1945, a convite de Luís Carlos Prestes, aceitou filiar-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Neste mesmo ano, publicou Infância (memórias) e, em 1947, Insônia, uma reunião de contos. 
 
Modernismo
 
Graciliano Ramos é um representante da chamada segunda geração do Modernismo que, ao contrário da primeira geração (1922-1930), apresenta preocupações sociais e angústia existencial. O fato de trazer à tona o contexto miserável do Nordeste brasileiro fez com que alguns classificassem sua obra como regional. No entanto, a universalidade da sua literatura escapa a esses rótulos. O romance São Bernardo, por exemplo, traz elementos tanto do dito ‘romance regional’, como do romance psicológico. 
 
Não por acaso, a obra de Graciliano despertou a atenção de outro conjunto de artistas que despontou na cena cultural brasileira em meados dos anos 1950, depois da morte do escritor. Trata-se do Cinema Novo: movimento cinematográfico que propunha representar os oprimidos e excluídos da sociedade, que, no anseio de falar dos reais problemas brasileiros, volta-se para a literatura que tem essa mesma inspiração.
 
Nelson Pereira dos Santos, no início de sua bem sucedida carreira no cinema, fez uma viagem ao Nordeste, em 1958, e decidiu fazer um filme com a temática da seca. Lendo Vidas Secas, percebeu que aquela era uma obra perfeita para o cinema. O preciosismo da escrita, resultando em um texto enxuto e carregado de imagens, facilitaria seu trabalho. O esmero na composição subjetiva dos personagens trazia a carga de dramaticidade com ousadia estética. A obra literária já era um roteiro pronto! 
 
Quando o cineasta chegou à região escolhida para filmar, em Juazeiro da Bahia, havia chovido, o mato estava verdinho, não era possível filmar assim. Para aproveitar a presença de toda a equipe de filmagem, improvisou outro filme: Mandacaru Vermelho, que ficou pronto em 1961. Apenas em 1962, Nelson pôde fazer o filme que havia planejado, desta vez na própria terra de Graciliano – Palmeira dos Índios, em Alagoas. Nelson conta que o irmão do escritor o ajudou muito a compreender a complexidade da seca, para que pudesse filmar com mais autenticidade. O filme foi lançado em 1963 e foi indicado à Palma de Ouro, em Cannes, no ano de 1964. No mesmo ano, ganhou o prêmio de melhor filme pela Office Catholique International du Cinéma (Ocic). Vidas Secas é considerado um dos filmes mais importantes da história do cinema em todo o mundo, conseguindo o feito de transformar uma obra prima da literatura em obra prima do cinema!
 
Em 1980, Nelson Pereira dos Santos voltou à obra de Graciliano Ramos filmando o curta metragem O Ladrão, conto do livro Insônia. Em 1984, filmou, também com muito sucesso, a obra autobiográfica do Mestre Graça, Memórias do Cárcere. Embora o romance aborde o período do governo Vargas (1936-1937), o filme ganhou uma conotação de denúncia contra o abuso policial e o arbítrio da ditadura militar (1964-1984). O ator Carlos Vereza foi bastante premiado por sua atuação como Graciliano Ramos. 
 
A escrita sofisticada e apurada de Graciliano Ramos, conforme observou Nelson Pereira, permite um roteiro pronto para o cinema. O mesmo pôde comprovar o cineasta Leon Hirszman, outro ícone do Cinema Novo, ao filmar em plena ditadura militar o romance São Bernardo (1972). As filmagens também aconteceram em uma cidade da infância do escritor, desta vez Viçosa (AL). Com interpretação primorosa de Othon Bastos, como Paulo Honório e de Isabel Ribeiro, como Madalena, não é exagero afirmar que o filme repete a sorte da adaptação de Vidas Secas, pois se tornou também uma obra prima do cinema brasileiro. O livro São Bernardo já era adotado pelas escolas como um clássico da literatura. Além dos aspectos estético-artísticos, Hirszman tinha todo interesse que seu filme fosse visto por estudantes.
 
A censura exigiu cortes de cenas importantíssimas e classificou como permitido para maiores de 18 anos. O cineasta recorreu. O processo durou sete meses e só pôde ser lançado no circuito comercial um ano e meio depois de terminado, o que resultou na falência da produtora. Apesar de inúmeros prêmios e reconhecimento internacional, o cineasta só voltou a dirigir outro longa metragem nove anos depois.
 
A obra de Graciliano Ramos, em livro ou em filme, deve fazer parte do currículo escolar por revelar grande ousadia estética e profunda abordagem das questões do Brasil.
 
Bibliografia recomendada:
MORAES, Dênis. O Velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Boitempo Editorial, 2012.
 

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Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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