A ideia de que a educação deve formar cidadãos críticos adquiriu popularidade, não só no Brasil, mas em várias partes do mundo. Ele tornou-se praticamente um slogan, e como tal dá origem a uma série de mal-entendidos. O problema principal talvez seja o que entendemos por ser “crítico”. O fato de que tanto Donald Trump quanto os estudantes brasileiros que hoje ocupam escolas contra as medidas do governo serem vistos por seus apoiadores como “críticos” ilustra esse ponto.

A proposta que relaciona a educação à criticidade não merece ser abandonada, mas, no panorama exposto, precisa ser problematizada. O que é ser crítico e como formar um cidadão com essa característica? E o que isto tem a ver com a educação midiática?

A condição “crítica” é almejada, geralmente, ao ser vista como superior aos posicionamentos “não críticos” sobre determinado tema. No entanto, como bem nota Colin Lankshear (nesta entrevista), essa qualificação só pode caracterizar, legitimamente, determinada perspectiva se duas condições mínimas são atingidas.

A primeira é a de que exista um elemento de avaliação e julgamento na manifestação realizada. A segunda condição é que o julgamento/avaliação seja apoiado por algum tipo de análise, de modo a conhecer o objeto da crítica. “Em outras palavras, fazer uma avaliação crítica de X envolve comentar sobre as qualidades e características de X. Isso requer identificar essas qualidades e características através de algum tipo de análise”, nota o autor.

Se compreendermos as noções de “saber” e de “conhecer” como centrais à educação, o ideal de formação para a crítica é óbvio. Para conhecer é necessário analisar, criticar. E só é crítico quem possui recursos conceituais adequados (que propiciem análises mais rigorosas), bem como capacidade de elaborar e exprimir pensamentos. A escola deve criar situações relevantes para a construção do conhecimento crítico, oferecendo instrumentos para o desenvolvimento deste tipo de raciocínio. Crítica, nesta perspectiva, não é xingamento, nem muito menos doutrinação.

Agora, a questão que nos interessa mais, aqui: por que elaborar conhecimentos críticos sobre a mídia? Refletindo sobre o tema, o pesquisador britânico David Buckingham (neste artigo), observa inicialmente, também, a necessidade de que o termo “crítico” seja bem compreendido. Para tanto, é importante evitar a tradicional e errônea concepção de que “críticos” são apenas os que concordam conosco. Somente as pessoas dispostas a confrontar suas ideias com as de outrem podem merecer a qualificação de “críticas”. Estarão, assim, abertas a fazer eventuais revisões e demonstrarem a relevância e validade de suas posições. A reflexão crítica não é dogmática ou autoritária. 

Ao mesmo tempo, outra noção a questionar é a de que as pessoas comuns não se preocupam nem têm capacidade de criticar a mídia. Na verdade, em função de suas experiências de consumo dos meios de comunicação, bem como sua socialização mais geral, todos apresentam algumas capacidades para tanto.

Porém, e aqui entra a importância do estudo mais sistemático que a educação pode proporcionar, por um lado, a imersão no ambiente midiático não favorece o distanciamento analítico. Este elemento é relevante para tornar a experiência de consumo midiático efetivamente crítica. Isto pode ser exemplificado pela situação, comum, de pessoas que só percebem o que quer dizer uma música popular, mesmo que muito ouvida antes, quando têm a possibilidade de escutá-la – com maior distanciamento – para analisá-la.

Por outro lado, há diversos aspectos a respeito do funcionamento social e discursivo da mídia que são pouco conhecidos pelas pessoas em geral. Dimensões ligadas ao âmbito econômico, social e cultural da mídia, por exemplo. A educação midiática deve, então, oferecer subsídios sobre estes temas. Faz diferença, para realizar críticas que vão além dos chavões, saber a qual grupo econômico pertence determinado órgão que produz alguma mensagem, assim como compreender como esta é codificada em certa linguagem, visando a um público específico.

Analisar o aspecto representacional e a inserção social da mídia nos ajuda a compreender que ela não é a realidade, mas dá forma a parte significativa do mundo em que vivemos hoje. A pesquisadora brasileira Maria Aparecida Baccega, pioneira no campo da comunicação/educação no Brasil, destaca há vários anos, com o conceito de “mundo editado”, esta característica dos meios de comunicação na sociedade moderna. E este é um ponto central para justificar a importância da educação midiática.

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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