A obrigatoriedade do cinema brasileiro no currículo coloca em cheque uma deficiência evidente do nosso sistema de ensino: a formação audiovisual dos professores. É fácil constatar que o professor se constitui um público “comum” do cinema, isto é, o repertório cinematográfico dos professores reproduz as estatísticas das bilheterias. A pequena parcela de professores que conhece uma filmografia mais diversificada equivale à pequena parte da população das grandes cidades, que frequenta os cinemas de rua, por exemplo, voltados para uma programação independente, mais autoral. Este professor apaixonado por cinema buscou conhecimento por conta própria, já que nunca a educação formal compreendeu o cinema como arte e cultura, desde o ensino básico até o ensino superior (exemplo disso é a quase nula presença do cinema nos cursos de licenciatura).

Muitos podem argumentar que as escolas hoje em dia têm salas de projeção e têm exibido filmes. A grande questão é como se dá esse uso. O mais comum é que o conteúdo de um filme “ilustre” as aulas e há até uma visão simplista que prevê que aulas com filmes podem ser mais “divertidas”. Esta visão é equivocada e redutora. Sim, o filme pode ilustrar um conteúdo e o audiovisual pode deixar a aula menos monótona, mas sem a abordagem cultural do cinema, esses efeitos não são duradouros e podem mesmo comprometer a rica experiência com o cinema.

Por isso, a formação específica dos professores é fundamental, para que ele seja capaz de ir além da história que o filme está contando. O filme é fruto de um trabalho artístico coletivo, a narrativa se faz por meio de uma linguagem própria (som e imagem) e é preciso conhecer a gramática dessa linguagem (leia mais sobre isso aqui).

A cultura escolar, que tradicionalmente é voltada apenas para a cultura letrada, com excesso de normatizações, controles e avaliações, tende a tratar o cinema como informativo e funcional. É comum a prática de se “didatizar” os filmes, transformando-os em material didático de segunda ordem. Exemplo: pedir um relatório ou prova sobre um filme, da mesma forma como se fazia (ou ainda se faz) com os livros, para se “medir” o aproveitamento da leitura de um romance. 

Muitos pensadores da educação nos mostram como é preciso romper com a estrutura tradicional de ensino e como a arte pode nos levar a uma educação emancipatória e humanista. Paulo Freire e Edgar Morin, por exemplo, já falavam sobre isso na década de 1960. Em 2000, Morin foi convidado pela Unesco a escrever sobre como construir a educação do futuro, resultando na obra “Os sete saberes necessários à educação do futuro”. Eu acho que esse pequeno e precioso livro deveria fazer parte de toda a formação dos professores em cinema, pois ele nos aponta que a escola precisa enfrentar as incertezas, buscar o conhecimento pertinente, ensinar a compreensão e a ética do gênero humano, entre outros saberes. 

Ao estudar a comunicação de massa, desde a década de 1960, Morin apontou que a literatura e o cinema podem nos ajudar na construção de sentidos e numa visão mais global sobre a humanidade, pois contribuem para a percepção do sentimento de sermos indivíduos e ao mesmo tempo pertencermos a uma comunidade e à espécie humana. Ele insiste em quebrarmos as grades do conhecimento compartimentado que a cultura escolar construiu. Tenho recebido muitos relatos de professores – e eu mesma já vivenciei isso – de como a escola tem dificuldade de praticar a interdisciplinaridade e se vale do cinema como mola mestra para isso, pois o cinema promove um conhecimento descentrado e global.

Além de repensar a educação tradicional, a formação audiovisual de professores deve apontar caminhos para ampliação do repertório cinematográfico e fugir da ideia de “listas” de filmes para este ou aquele tema. Essa é uma armadilha que, ao contrário de trazer mudanças, leva à manutenção da visão do cinema como “ilustração” de conteúdos. Por isso mesmo, em nossos materiais pedagógicos, disponibilizados neste portal, procuramos dar suporte ao professor para que ele se aproprie do filme, amplie os conhecimentos sobre a obra e possa utilizá-la de maneira criativa. Por isso, apontamos sempre o contexto em que o filme foi produzido, a escola cinematográfica em que o cineasta se insere, a cultura do país de produção, outros filmes que se relacionem com o gênero, tema ou estética daquele filme, textos de apoio, entre outras orientações.

Insisto sempre sobre a importância da inserção da linguagem audiovisual, tanto na formação inicial de professores como na formação continuada em serviço.  Em 2007, me debrucei sobre um rico projeto da Secretaria do Estado da Educação de São Paulo, como parte da minha pesquisa de doutorado. “O Cinema vai à escola” distribuiu para todas as 3,8 mil escolas do ensino médio do estado de SP um conjunto de 70 DVDs (divididos em várias caixas), com filmes da melhor qualidade, acompanhados de “orientações” aos professores. A seleção dos filmes era ótima, porém, ao visitar as escolas contempladas com esse acervo, constatei que o material estava trancafiado a sete chaves, ninguém os utilizava. Muitos professores nem sabiam da sua existência e os que sabiam não se sentiam preparados para integrá-los ao currículo. Ficou bem claro que o programa, ao não prever a formação de professores e/ou gestores, condenou o material ao silêncio. Para os gestores que desenvolvem materiais para as escolas, parece bastar distribuí-los. Imaginam que o professor saberá utilizá-los. 

O cenário parece começar a mudar. Conheço ótimas iniciativas de formação audiovisual de professores no Rio de Janeiro e Porto Alegre. Em São Paulo, há muitas oficinas de produção audiovisual para jovens, que podem incluir também professores. O Clube do Professor é uma iniciativa do Espaço Itaú de Cinemas que oferece sessões gratuitas aos professores aos sábados, sempre com filmes de estreia e, muitas vezes, incluem debates, com intuito de ampliar o repertório cultural dos professores a partir do cinema.

Iniciamos em 2015, pelo Núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, uma ampla formação com professores dessa rede. No ano passado, ministramos cursos de formação cultural em cinema, roteiro, produção de vídeo, fotografia e stop motion a centenas de professores. Nas avaliações dos cursos de cinema de 2015, os professores apontaram o desejo de uma formação específica em cinema brasileiro, desencadeada pela aprovação da lei 13.006/2016. E é o que estamos fazendo neste ano, em várias diretorias de ensino, com cursos com carga horária de 18 horas.

É certo que uma formação em 12 ou 18 horas não é suficiente para garantir o domínio de um repertório cinematográfico pelos professores, mas já contribui muito para desconstruir a visão do cinema como mera ilustração das aulas e, ainda, desperta no professor aspectos da gramática audiovisual e da história do cinema. Ao aprender mais sobre a linguagem, os educadores passam a ter uma perspectiva da expressão artística, que vai muito além da história que o filme conta. Quem sabe aí o professor não é picado por aquela mosquinha da paixão pelo cinema? E a escola certamente se transformaria. 

Selecionei algumas iniciativas interessantes sobre o assunto:
Núcleo de Educomunicação da SME- SP (antigo núcleo nas ondas do rádio)
Cineduc
Programa de Alfabetização Audiovisual de Porto Alegre
PUC-RJ
UFRJ – Laboratório do Imaginário Social e Educação
UFF: Licenciatura de Cinema e Audiovisual

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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