Hoje, crianças nascidas nas cidades têm contato com as telas desde bem pequenas, seja nos computadores pessoais, telefones móveis ou tablets. Televisores estão ligados permanentemente em casas, restaurantes, consultórios médicos, nos metrôs, ônibus e táxis. A cultura audiovisual é forte em nossa sociedade e a criança, antes de saber falar, dá conta de acompanhar jogos eletrônicos e narrativas de filmes. Ao chegar à escola, ela já traz um repertório audiovisual significativo.
 
Esse excesso de telas é um fenômeno relativamente novo e não estão concluídos estudos sobre seus efeitos. Em relação ao desenvolvimento cognitivo das crianças, há quem defenda um precoce contato com games e há quem enxergue nisso um problema gravíssimo para o seu desenvolvimento. Pesquisas feitas sobre TV e criança têm por foco os aspectos psicológicos e se baseiam em levantamentos quantitativos, medindo o tempo de exposição e o tipo de programa a que assistem. Preocupam-se com o impacto que o conteúdo de alguns programas têm sobre as crianças. Poucas são as investigações de caráter qualitativo, que consideram elementos como o ambiente e o contexto em que as crianças recebem os programas: com quem assistem, com quem trocam ideias sobre os programas, enfim, como essa experiência se desdobra em outras. 
 
Já tratamos em outro artigo a classificação indicativa de programas e filmes. Nosso foco aqui não serão os conteúdos considerados impróprios para as crianças, como a violência. Agora focamos outra questão importante: a formação cultural que os filmes podem promover, em qualquer faixa etária.  Não se trata de substituir as atividades fundamentais, como a brincadeira ou o jogo ao ar livre. Nem usar filmes para “acalmar” as crianças. Mas pensar sobre a exibição de filmes como possibilidade de trazer experiências criativas e enriquecedoras. 
 
Considerando que os filmes ocupam parte do universo infantil, é importante refletir sobre eles. Entretenimento também educa, mas a lógica do mercado cultural não é necessariamente a mesma dos educadores.  A indústria cultural é sustentada por patrocinadores que querem vender seus produtos, por isso raramente se arrisca a alguma experimentação estética ou temática. Preferem apresentar conteúdos que não causem estranhamento ao seu consumidor, para que não mudem de canal nem saiam do cinema.  Ao contrário, a aderência da criança à narrativa e aos personagens é que levarão ao consumo de produtos como brinquedos, material escolar, mochilas, roupas, calçados, toalhas que trazem estampados os personagens do filme. E que logo serão substituídos por outros, já que o objetivo é a venda. A cada ano a criança é bombardeada pelos novos lançamentos de desenhos, com todos os novos produtos, divulgados em todas as mídias. 
 
Mas por que experimentações e estranhamentos seriam importantes para as crianças?
 
Todas as pessoas gostam das experiências que lhe são familiares, que lhe trazem conforto e façam alguma conexão com situações de afetividade. Crianças amam ver novamente os seus desenhos prediletos. Adultos também são assim, têm preferência por gêneros e formatos, que lhes dão conforto, divertem e emocionam. 
 
A infância é um momento chave para o contato com experiências estéticas diversas. A criança pequena ainda não foi “domesticada” pela lógica do mercado e o contato com todo tipo de expressão artística enriquecedora é muito desejável, mas depende muito da vontade dos adultos com os quais ela convive. Quem disse que uma criança não gosta de música clássica? Ou de reggae, jazz ou música popular brasileira? Se ela ouve diversos tipos de música, desde pequena, certamente crescerá mais aberta para as experiências musicais que a vida vai lhe apresentar e seu repertório cultural pode será mais vasto. 
 
O mesmo vale para os filmes. Quem disse que as crianças só gostam da Disney? Por que narrativas e personagens devem estar ligados a produtos infantis? Conhecer produções de diversos países, que apresentam outras culturas, estimula a imaginação e enriquece o repertório das crianças. Por que sempre finais felizes, ou finais absolutamente explicadinhos? Quem disse que as crianças não gostam de ficar pensando outras possibilidades de finais para cada história? Por que não incluir filmes brasileiros neste repertório? 
 
O cinema é expressão fundamental da cultura de um povo. Por isso é importante as crianças conhecerem filmes brasileiros. Animações nacionais estão fazendo muito sucesso no exterior, porém poucos sabem disso. As notícias não chegam e a maioria das salas de cinema exibem os filmes nacionais apenas por uma semana. Recentemente foi exibida nos cinemas uma belíssima produção gaúcha, dirigida por Frederico Pinto e José Maia – As Aventuras do Avião Vermelho – baseada no clássico infantil de Érico Veríssimo. A animação cativa crianças de várias idades, inclusive as de três ou quatro anos, valorizando a literatura brasileira e o gênero de aventuras. Infelizmente, o filme já saiu de cartaz nas principais cidades. Agora, é preciso aguardar que entre na programação da TV, ou seja, lançado em DVD.
 
 
Outra animação nacional que alcança várias idades, inclusive adultos, é o premiadíssimo O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, que apresenta uma história universal, com traços simples (fáceis até de serem reproduzidos pelas crianças). É um desenho em que, rapidamente, o espectador mergulha na história, embalado pelas imagens e sons instigantes.
 
 
   
Além dos filmes de animação, também é possível trabalhar os filmes com atores, mesmo com as crianças pequenas. Elas naturalmente ficam concentradas por menos tempo, assim o curta é o formato ideal para os menores. Filmes de Charles Chaplin, por exemplo, agradam às crianças de todas as idades. Elas descobrem o cinema mudo, o preto e branco, a música instrumental e, ainda, a comunicação sem palavras. Há muitos curtas nacionais e estrangeiros disponíveis no Canal Curtas, Canal Brasil e Arte 1, e também no site Porta Curtas.
 
Os longas-metragens não precisam ser assistidos na íntegra. As crianças podem assistir a um trecho, o que não significa que a experiência não foi válida para elas. Adultos também “zapeiam” com o controle remoto e estabelecem outra relação com os trechos de filmes e programas a que assistem. Assistir a um trecho de filme diferente do que está acostumada contribui para que se familiarizem com propostas estéticas diversas. Pode ser um passo para vir a assistir filmes na íntegra, futuramente. 
 
Os longas nas salas de cinema propõem outra imersão. Crianças, desde os dois ou três anos podem ir ao cinema como primeira experiência. É possível ensiná-las que o cinema é um ambiente público, portanto, o comportamento não é o mesmo do ambiente doméstico. Não se fala alto, se perdermos parte do filme, ele não “volta” e as emoções parecem mais fortes, em função do escuro e da tela grande. E não é nenhum pecado sair antes do filme acabar. É só sair sem fazer barulho para não atrapalhar os outros. Tudo isso é possível aprender desde cedo. Na volta do cinema, sempre é bom conversar sobre o que gostou e o que não gostou. 
 
Há cineclubes para crianças (como é o caso do Cineclubinho do Cinesesc, em São Paulo), em que, antes da sessão, são feitas atividades para as crianças, com a temática do filme.
 
Aos educadores está lançado o desafio de contribuir para que a experiência seja rica e enriquecedora.  Propor filmes e atividades que sejam mais desafiadores e criativos, para além do que as crianças já gostam e assistem repetidamente.  Nem se trata de proibir os filmes a que se acostumaram, mas partilhar boas produções, curtas e longas, enriquece adultos e crianças. Para isso, é preciso que os educadores conheçam filmes. Há muitas opções, vários deles são temas de planos de aula do portal NET Educação. Além do aprendizado da diversidade cultural e estética, a concentração de acompanhar uma narrativa audiovisual é uma conquista importante, que se faz aos poucos, e que trará muitos ganhos para o desenvolvimento infantil.
 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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