Se rir é remédio para a alma, o cinema não deixa de ser uma verdadeira farmácia de incontáveis frascos. No mundo do cinema industrial, a comédia tornou-se até gênero específico que serve para orientar o consumo. Algo como um direcionamento dos sentimentos que buscamos quando paramos para ver um filme. Mas a comédia tem vertentes, tem possibilidades diversas de análise e de conhecimento e que podem ser exploradas de forma rica.
Veja-se, por exemplo, seu aspecto histórico. Tome-se o início do cinema e a comédia muda de Harold Lloyd e Buster Keaton – atores estadunidenses. Ali se pode notar a presença constante da pantomima, aquele humor físico decorrente das pancadas e situações inusitadas que esfolavam os personagens principais. Serve a crianças e adultos, uma vez que trabalha com os aspectos universais de dor e alívio. Trata-se de um tipo de comédia com a necessidade de ênfase na ação, nas quedas e nas situações imageticamente inusitadas.
Lloyd tem uma cena célebre, tirada do filme “Safety Last!”(1923). Ao tentar auxiliar um larápio, o simpático e ingênuo Lloyd escala um prédio e acaba pendurado em um relógio, aguentando-se pelos ponteiros, literalmente. Com ele, seguramos a respiração quando o relógio começa a ceder. Quando projeto esse trecho em sala de aula, alguns alunos chegam a fazer caretas de apreensão e se declaram angustiados ao final da cena.
O mesmo sentimento observo quando vemos trechos dos filmes “A General” ou “Steamboat Bill Jr. (ambos de 1926), com as façanhas de Buster Keaton. Quando este se equilibra sobre uma locomotiva ou fica parado, atordoado, enquanto toda a fachada de uma casa cai sobre si, meus aluno chegam a soltar “ais” e “uis”, como se sentissem a dor e o temor de Keaton. Aliviados ao final, sorriem e saem da aula mais felizes e leves.
Mas não é só. Tais comédias também caracterizam a sociedade e seus conflitos, seus modos e costumes. Com a escalada de Lloyd podemos observar no horizonte uma cidade do início do século XX, com seus poucos automóveis e muitas pessoas nas ruas. Nas cenas de Keaton vemos o fruto da segunda revolução industrial materializados em ferrovias e no transporte a vapor por rios norte-americanos. Como não se deslumbrar com tal portinha aberta, como se fosse uma máquina do tempo?
Muito diferente da comédia que surgiu após o uso do som, quando os diálogos puderam ganhar força e as piadas passaram a ser faladas, ou por meio de gritos e canto. A careta perde espaço, pois o nosso foco já estava no conjunto corpo-rosto-fala. Assim, os três patetas surgiram com toda a sua força física, mas também abusando das vozes fanhas e dos efeitos sonoros geradores de onomatopeias. É também essa comédia que permite o humor nonsense e os trocadilhos cortantes dos irmãos Marx, além da possibilidade do uso da claque nos programas destinados à TV.
É muito interessante perceber que humoristas como Jim Carrey ou Jerry Lewis nos aproximam da comédia originária do cinema e que os seriados televisivos – tão amados por adolescentes – são modelos que se formaram também ali. As comédias de costumes, utilizando pequenas tramas diárias, são formadas por um roteiro que mistura a careta, a situação, algum conflito e o uso constante dos diálogos nos quais o duplo sentido corre solto – e tudo isso já estava presente nas comédias dos anos 1930/1940.
Com o tempo o cinema passou ainda a fazer comedia com seus próprios produtos. Os besteiróis cuja narrativa é símile de um filme já produzido (ou um conjunto de filmes anteriores) são comuns em Hollywood. Ver “Airplane!” (1980, traduzido no Brasil por “Apertem os cintos… o piloto sumiu!”) e compará-lo com “Airport” (1970) e o cinema catástrofe é destino certo para muitas risadas não só por conta das referências, mas também por conta do modelo de esquetes – nas quais diversos personagens se envolvem em situações surreais.
Como rir é comum a todos nós, pode parecer fácil fazer comédia, mas acredito que o efeito é exatamente o contrário do esperado quando a técnica não é dominada.
Quando trabalho com a produção de pequenos filmes em sala de aula, os alunos insistem em fazer comédia. Se este é o interesse, sugiro, sempre, que tentem fazer um terror, pois a chance de todos rirmos é maior. Como as caracterizações monstruosas e de pânico acabam por se tornar um verdadeiro pastelão, o riso é garantido. Uma fala mal colocada tem o risível resultado de tornar uma situação que deveria ser horrorosa em hilária.
Mas para aqueles que realmente buscam fazer uma comédia, sugiro que iniciem por exercícios com um único tipo de linguagem. Pantomima, nonsense, diálogos cortantes, caracterização de personagens, situações surreais, etc. Separar as linguagens pode auxiliar a compreensão acerca do humor e melhorar a qualidade de nossas gargalhadas.
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