Há alguns anos, tramitava no Congresso um projeto de lei, proposto pelo Senador Cristovam Buarque, para incluir o cinema brasileiro no currículo obrigatório, em todas as escolas. Em setembro de 2012, o tema da lei foi abordado, num artigo publicado aqui no portal NET Educação. Em 27 de junho último, esse projeto transformou-se na lei 13.006, publicada no Diário Oficial da União. O parágrafo oitavo, do artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), ficou assim redigido: 

  A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais.

Toda lei gera controvérsias e diferentes interpretações. O termo “exibição obrigatória”, por exemplo, já gerou reações, com alegações de que tudo o que é obrigatório se torna chato. É verdade, a ideia da lei não pretende, ao incluir o cinema no currículo, torna-lo uma obrigação chata e desinteressante, na mesma perspectiva de certas obras literárias, cuja leitura obrigatória se transformou em fardo para os alunos. Porém, é preciso compreender, tanto para o cinema como para a literatura, que e o desinteresse teria mais a ver com a forma da aplicação da lei, do que com a lei em si. O fato é que a Lei de Diretrizes e Bases vem sendo alterada por decretos que deixam, às vezes, confusos gestores e educadores.   

Ocorre que mesmo as mudanças mais importantes e necessárias na LDB demandam um processo de organização e preparação. A lei 10.639/03, por exemplo, que incluiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira, traduzindo a importância destes conteúdos para a construção de uma história mais abrangente e menos centrada na narrativa eurocêntrica, ainda sofre de dificuldades para a implantação plena. Por ser um rompimento com uma perspectiva tradicional de ensino, não é fácil que a lei seja cumprida, pois envolve formação de professores, produção e disponibilização de materiais, alteração do currículo e, principalmente, mudança de mentalidade da comunidade escolar. Onze anos se passaram desde sua promulgação, as escolas estão se adequando, mas muito se avançou. 

O mesmo pode-se esperar da nova lei sobre o cinema brasileiro. Dados do Censo 2013, do IBGE, mostram que 23% das escolas do país não possuem nem televisão. E a ausência de aparelhos de DVDs é ainda maior. Será preciso que a sociedade, liderada por educadores, exija a aquisição e o acesso permanente aos equipamentos. Eles precisam estar disponíveis para serem usados com responsabilidade pela comunidade escolar, permanentemente, o que nem sempre ocorre, já que há gestores que, com medo de danos, impedem o uso da infraestrutura da própria escola. 

Outro desafio importante é combater o preconceito que se tem em relação ao cinema brasileiro. É comum a ideia de que só produzimos filmes com cenas de sexo e repletos de palavrões. Herança da fase das pornochanchadas, da década de 1970, quando filmes com temática política sofriam censura, e restou aos cineastas a produção de filmes com apelo erótico para garantir bilheteria. Essa fase foi superada faz tempo, mas a imagem permaneceu.

A diversidade do cinema brasileiro atual tem que ser conhecida. Há filmes para todos os gostos. Quanto aos palavrões, é bom que se diga que eles também existem nos filmes estrangeiros, só que não são traduzidos nas legendas. Os palavrões fazem parte da linguagem popular e, para que um filme tenha verossimilhança, naturalmente eles estão presentes nos diálogos, quando necessário. 

É bom lembrar as atitudes mais importantes para incluir um filme no contexto do trabalho pedagógico: 

• É preciso planejamento: o professor precisa assistir ao filme ANTES e organizar a  forma como vai trabalhar a obra com seus alunos; 

• É preciso equilíbrio: o professor precisa buscar um filme que esteja próximo à cultura audiovisual dos alunos e, ao mesmo tempo, responda também aos objetivos pedagógicos. Não se trata somente de escolher propostas para “agradar” aos alunos ou, ao contrário, escolher filmes com “estética ousada”, de difícil compreensão.  O cinema entra na escola para se articular aos processos de produção de conhecimento;

• É preciso cuidado com a adequação ao público: a recepção é subjetiva e imprevisível, uma cena impacta de forma diferente cada pessoa. Por isso, o melhor é ter como baliza a classificação indicativa, proposta pelo Ministério da Justiça. Se houver algum problema, o professor tem como mostrar que está de acordo com as autoridades e especialistas da área. Para conhecer a classificação indicativa de cada filme e as suas restrições a uma faixa etária, basta consultar o link.

• É preciso articulação com o projeto pedagógico: a nova lei solicita que a atividade de exibição do filme deve ter intencionalidade educativa, portanto, não é passar filmes para “preencher o tempo”. Porém, isso não significa que o filme tenha que ilustrar um conteúdo. O contato com a obra artística já integra a função da escola, na medida em que possibilita ao aluno o contato com a cultura produzida e acumulada. 

Para a sala de aula, os curtas metragens são opções excelentes, pois permitem o aproveitamento da experiência audiovisual, com apresentação seguida de debate. Para as crianças menores, os curtas e médias metragens também são indicados. Há inúmeros sites que os reúnem, como o Curta na Escola.

Se houver mais tempo disponível para a exibição (aulas duplas, projetos interdisciplinares, cineclubes no contraturno das aulas), o número de títulos se amplia muito. Os longas metragens mobilizam maior envolvimento emocional, especialmente se houver uma boa mediação dos educadores.

Para as crianças bem pequenas, caso se queira usar longas metragens, é bom lembrar das animações brasileiras como Turma da Mônica em Uma Aventura no Tempo,  (Maurício de Souza, 2007), O Grilo Feliz (Walbercy Ribas, 2001), O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes (Ribas, 2009). Outro filme brasileiro que tem agradado às crianças pequenas é Tainá 3 – A Origem (Rosane Svartman, 2013), além dos outros da mesma série.

Veja também:
Plano de aula Cinema e Educação: Tainá 3 – A Origem
Novo filme sobre índia Tainá traz elementos educativos às crianças

Para crianças um pouco maiores, entre 7 e 12 anos, existem filmes que tratam de dilemas e angústias das crianças, com abordagem muito sensível, como “Eu e Meu Guarda-chuva” (Toni Vanzolini, 2010) Corda bamba, História de uma Menina Equilibrista (Eduardo Goldenstein, 2013),  Menino Maluquinho, o Filme (Helvécio Raton, 1995), sua continuação O Menino Maluquinho 2 – A Aventura (Fernando Meirelles, 1998) e Castelo Ra-tim-bum, o Filme (Cao Hamburger, 1999).

Há filmes brasileiros inspirados em obras literárias que constam no currículo escolar, alguns voltados para o público infanto-juvenil. Sempre é bom lembrar que um filme é uma releitura da obra, não equivale, portanto, a uma nova versão do livro. A obra audiovisual não substitui a obra literária. Para quem já gosta muito de ler, normalmente é mais gostoso ler o livro primeiro e depois conferir a interpretação do cineasta para a obra. O filme pode, também, despertar o interesse dos alunos para a obra. Alguns autores da literatura que tiveram ótimas releituras audiovisuais.

Filmes baseados em obras
Há filmes brasileiros inspirados em obras literárias que constam no currículo escolar, alguns voltados para o público infanto-juvenil. Sempre é bom lembrar que um filme é uma releitura da obra, não equivale, portanto, a uma nova versão do livro. A obra audiovisual não substitui a obra literária. Para quem já gosta muito de ler, normalmente é mais gostoso ler o livro primeiro e depois conferir a interpretação do cineasta para a obra. O filme pode, também, despertar o interesse dos alunos para a obra. Alguns autores da literatura que tiveram ótimas releituras audiovisuais. 

• De João Guimarães Rosa: Mutum (Sandra Kogut, 2007), baseado na história de Miguilim, da novela Campo Geral. 

• De Jorge Amado: Capitães da Areia (Cecília Amado, 2011); Quincas Berro D’água (Sérgio Machado, 2010), baseado em A Morte e a morte de Quincas Berro D’água; Dona Flor e seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976).

• De Lima Barreto: Policarpo Quaresma, Herói do Brasil (Paulo Thiago, 1998), baseado em O Triste Fim de Policarpo Quaresma. 

• De Machado de Assis: Memórias Póstumas (André Klotzel, 2001), baseado em Memórias Póstumas de Brás Cubas. E Quincas Borba (Roberto Santos, 1987), adaptação da obra de mesmo nome, com Laura Cardoso no elenco.

• De Graciliano Ramos: a adaptação de uma de suas obras primas Vidas Secas, tornou-se também uma obra prima do cinema, realizada por Nelson Pereira dos Santos, em 1963. O cineasta também adaptou Memórias do Cárcere, inspirada na obra homônima do mesmo escritor, com igual qualidade artística. Muito feliz também a adaptação de São Bernardo (Leon Hirzsmann, 1972), que foi filmada em Viçosa, cidade onde Graciliano viveu por muitos anos. 

• De Érico Veríssimo: O Tempo e o Vento (Jayme Monjardim, 2013), adaptação da trilogia do escritor gaúcho O Continente, O Retrato e O Arquipélago.

• De Clarice Lispector: excelente adaptação de A Hora da Estrela (Suzana Amaral, 1986). O curta metragem Clandestina Felicidade (Beto Normal e Marcelo Gomes, 1988) é uma recriação de vários personagens da escritora, especialmente baseado no conto “Felicidade Clandestina”, ao mesmo que apresenta dados biográficos da escritora. O link para assistir ao curta está disponível na internet.

Veja também:
Plano de aula Cinema e Educação: Clandestina Felicidade

• Do recém falecido Ariano Suassuna, nova obra prima audiovisual foram a minissérie e o filme Auto da Compadecida (Guel Arraes, 2000). Sem dúvida, essa obra promove um ótimo diálogo com os estudantes. 

• De Mário de Andrade: Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969) e Lição de Amor (Eduardo Escorel, 1975), baseado no livro Amar, Verbo Intransitivo.

• Do escritor português Eça de Queiroz, vale destacar duas felizes adaptações de suas obras que também podem agradar aos jovens estudantes: Amor & Cia (Helvécio Ratton, 1999), baseado na obra Alves & Cia. E O Primo Basílio (Daniel Filho, 2007), sendo que no filme a história é trazida para o ano de 1958, em São Paulo. 

Outros artigos no portal NET Educação trazem filmes brasileiros perfeitamente adequados à exibição na escola O portal NET Educação oferece em “Experiências Educativas” muitos planos de aula com indicação de curtas e longas metragens, para todas as faixas etárias, com orientação para a utilização no processo educativo.

Vamos fazer da lei uma oportunidade para professores e alunos descobrirem o cinema brasileiro!

 
 

 

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Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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