Há 15 anos, sempre no mês de maio, acontecem, numa pequena cidade de Portugal, os Encontros de Cinema de Viana do Castelo, produzidos pela Ao Norte – Associação de Produção e Animação Audiovisual, associação sem fins lucrativos. A cada ano o evento é enriquecido com atividades ligadas à sétima arte: sessões infantis, exibição de curtas e longas-metragens, reuniões de cineclubistas, workshops, mostras de produções europeias, festival de vídeos escolares, entre outros. Várias são as premiações, como a sessão Primeiro Olhar (prêmio para melhor documentário entre estudantes de cinema de língua portuguesa), e a integração entre vários países, incluindo o Brasil. 
 
Em 2012, os organizadores ousaram incluir uma conferência acadêmica internacional nos Encontros de Cinema. Em sua 4ª edição, a Conferência Internacional de Cinema de Viana do Castelo possui quatro eixos temáticos: “Cinema e Escola”, “Cinema e Ciência”, “Documentário Contemporâneo” e “Cinema: novas narrativas e novas tecnologias”.
 
Fiquei muito honrada com o convite para participar, desde 2013, do Comitê Cientifico da Conferência de Cinema para contribuir com o eixo “Cinema na Escola”. Além de participar da seleção de artigos, venho contribuindo com artigos acadêmicos: Cinema e Escola: Ler, Sentir, Fazer (2013); e A Classificação Indicativa de Filmes e a Liberdade de Expressão (2014). Em 2015, apresentei um relato sobre os 20 anos de Cinema Paradiso – uma experiência participada de cultura cinematográfica. Pela primeira vez, relatei em um evento acadêmico a experiência pessoal de um grupo interdisciplinar, que discute filmes, quinzenalmente. Trata-se de um grupo informal, mas muito sólido, criado por minha família há 20 anos. Os portugueses demonstraram espanto com uma atividade longeva e tão inusitada, manifestando o desejo de criarem um grupo similar por lá. 
 
Fui mediadora, também, de uma mesa do eixo “Cinema na Escola” e ministrei um workshop sobre cinema e educação. Concedi uma entrevista ao professor e antropólogo José da Silva Ribeiro, que será publicada em breve no site da Ao Norte, sobre a minha trajetória pessoal, a história do Grupo Cinema Paradiso e a minha atuação como formadora audiovisual de professores. 
 
Compartilho algumas das experiências derivadas das minhas observações nesta semana que passei em Portugal, especialmente em Viana do Castelo.
 
Abordagens diferentes para uma mesma realidade
 
Apesar das diferentes abordagens, há muitos pontos em comum entre os pesquisadores que se dedicam à aproximação cinema e educação, em Portugal e no Brasil. Por exemplo, o que chamamos aqui de desenvolvimento da leitura crítica do audiovisual, em Portugal (e em vários países europeus) é comum o termo “Literacia Fílmica”. Raquel Pacheco, pesquisadora brasileira que se dedica a essa inter-relação, define: “Literacia fílmica é o nível de compreensão de um filme, é a habilidade de ser consciente e curioso na escolha dos filmes (…)”. Raquel está na fase final de seu doutorado, que acompanhou diferentes projetos de educação audiovisual em Portugal e no Brasil. 
 
A afinidade constatada entre pesquisadores dos dois países é o descompasso existente entre a cultura escolar – excessivamente apoiada na escrita – e a cultura audiovisual, tão presente no cotidiano das crianças e jovens. A maioria dos estudiosos da interface cinema e educação faz a crítica à escola por usar os filmes apenas como "ilustração" dos livros didáticos e do currículo, desconsiderando o cinema como arte. A opção da literacia audiovisual – ou leitura crítica dos meios – a ser desenvolvida pelas escolas poderia permitir que o audiovisual (especialmente o cinema) entrasse no currículo como linguagem e como cultura. Mas essa proposta envolve mudanças profundas na  educação já que que implica necessariamente em formação de professores e vontade política para transformações efetivas na escola. 
 
Apesar da cultura do livro ser muito mais valorizada na Europa, nota-se uma preocupação também por lá com um decréscimo do interesse pela leitura. A escola tem que fazer sentido para seus alunos e, para isso, precisa dialogar mais com as novas tecnologias e com a cultura audiovisual. Há muita semelhança nos relatos sobre as fragilidades de alguns programas de inclusão das tecnologias digitais nas escolas e o pouco aproveitamento, por exemplo, por falta de formação de professores.  
 
Há alguns anos, o governo português investiu bastante na aquisição de um computador por aluno, desde o ensino básico. Esse computador foi apelidado de “Magalhães” e causou uma verdadeira revolução no ensino público lusitano. Porém, nos debates ocorridos em Viana do Castelo, soube que houve resistência de professores, especialmente no que tange à produção audiovisual, por desconhecimento das possibilidades de edição dos softwares disponíveis nesses computadores. Tal queixa coincide com experiências negativas brasileiras, cuja raiz, no meu modo de ver, está nas políticas públicas educacionais (dos dois países) que ignora a importância da formação de professores. 
 
Tensões na relação cinema e educação
 
Nos debates que presenciei, foi possível perceber que as tensões em relação ao uso do cinema na escola são muito parecidas com as nossas, porém, a cultura escolar europeia parece ainda mais arraigada à cultura letrada do que vemos aqui. Nas diversas formações e debates, é comum a problematização do quanto o cinema “não cabe na grade curricular”. Fiquei com a impressão que a exigência de que o cinema tenha um diálogo explícito com o currículo tradicional é mais forte em Portugal do que no Brasil. Não pude avaliar as propostas curriculares portuguesas, mas aqui a importância de temas transversais no currículo, como sustentabilidade, sexualidade, diversidade étnico-racial, entre outros, são questões já disseminadas entre nossos educadores. Ainda que tenhamos dificuldade em aplicar essas propostas, elas já fazem parte dos debates sobre interdisciplinaridade, educação integral, integração da comunidade escolar, pedagogia de projetos e educomunicação.
 
Senti claramente a preocupação de pesquisadores portugueses com os rumos recentes das políticas governamentais na educação. Várias foram as colocações de que as leis educacionais estão sofrendo um retrocesso, aumentando a carga horária das aulas de língua portuguesa e matemática, desmerecendo disciplinas da área de humanidades e, principalmente, de arte. Há também um movimento neoliberal de privatização crescente, com desvalorização do sistema escolar público. 
 
É bom lembrar que o sistema escolar europeu, como um todo, é muito mais sólido do que o brasileiro. A possibilidade de uma escola pública de qualidade para toda a população é uma realidade que sempre existiu no velho mundo, enquanto no Brasil buscamos essa inclusão há apenas três décadas. Por conta dessa diferença estrutural, por mais que Portugal, assim como os demais países europeus, esteja  enfrentando uma grave crise econômica desde 2008, é preciso analisar essas mudanças como tendências à privatização de um consistente sistema escolar público. As diretivas das políticas educacionais brasileiras, desde 1996, são bastante arejadas, se comparadas às relatadas pelos pesquisadores portugueses, porém, temos um país com problemas educacionais de base. Muito do que temos em nossas leis ainda está longe de se tornar realidade nas escolas.
 
Outra diferença cultural significativa é que, apesar das salas de cinema portuguesas, serem dominadas pelas grandes produções hollywoodianas, há também a influência da cinematografia europeia. Há em Portugal a herança do cineclubismo o que possibilita a resistência e a apreciação de filmes com estéticas diversificadas. Os pesquisadores com quem conversei também se queixam do cinema português ser pouco valorizado por seu público, como acontece no Brasil, porém, o acesso aos filmes europeus é maior.
 
Por fim, é com alegria que noticio, em primeira mão, que iniciaremos um intercâmbio cultural entre educadores de Viana do Castelo, Portugal, e educadores brasileiros (Rio de Janeiro e São Paulo), que será coordenado pela Ao Norte, em Portugal, e pelo Cineduc, no Brasil. A ideia é desenvolvermos atividades de leitura crítica e produção audiovisual que serão compartilhadas entre crianças e jovens das várias cidades envolvidas. 
 
Para saber mais sobre o evento, acesse aqui.

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Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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