Há uma história, envolvendo a Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, narrada na introdução à edição comemorativa de 50 anos do livro, que vale lembrar. No final da década de 1950, quando estava em Cambridge, o economista despachou a versão manuscrita de quatrocentas folhas do trabalho ao editor. Antes, advertido por um colega, fez uma cópia em microfilme na universidade.
O manuscrito original nunca chegou ao editor. Ao reclamar aos correios na Inglaterra obteve a resposta de que o pacote fora “despachado sob o número 67 para o Rio de Janeiro no voo Panair do Brasil 273, às 14 horas do dia 8 de março”. Porém, ocorrerá um problema no Brasil. A precaução do microfilme fez com que, pelo menos, ele pudesse recuperar o que escrevera, datilografando o texto.
Ao voltar ao Brasil, quatro meses depois de ter concluído o trabalho e com a versão do livro datilografada e a salvo, Celso Furtado descobriu que o pacote original estava na Alfândega do Rio de Janeiro à espera de uma inspeção. “Mais do que os anos de observação e estudo, aprendi com esse episódio o que é o subdesenvolvimento, essa manifestação de idiotice alastrada no organismo social”, ele notou.
No supermercado, há poucos dias, recordei essa história. Com pressa, peguei o único produto de que precisava e me dirigi a uma das caixas. Geralmente são moças jovens, como a que me atendeu. O supermercado conta com um sistema, comum atualmente, em que a leitura do código de barras dispensa a digitação dos preços. A automatização do processo atinge também o troco. Minha compra custou 17,5 reais e eu dei à moça uma nota de vinte. Ela me perguntou se eu tinha 50 centavos, ao que retruquei se ela não preferiria 2,5 reais (por acaso tinha essa quantia em moedas). “Não, só quero 50 centavos”, ela respondeu.
No entanto, se enganou, pois não tinha troco. Mas possuía uma nota de cinco reais. Era tudo que queria. E disse: “pegue meus 2,5 e me dê essa de cinco”. Ela não entendeu, e fez questão de trocar com outra caixa a sua nota de cinco reais. A outra caixa não tinha trocados, mas percebeu minha aflição. Ao fim, não sem antes maldizer a matemática da funcionária, conseguimos nos acertar: ela foi convencida a receber os meus 2,5 reais e retornar a nota de cinco. Um intercâmbio social banal, prolongou-se inutilmente. Pior, não estou certo que a jovem caixa tenha entendido que 2,5 mais 2,5 são cinco. Isso é o subdesenvolvimento.
Custo Brasil
Muito se fala no “custo Brasil”, e então geralmente nos referimos às questões da infraestrutura – estradas ruins, portos obsoletos – ou então trabalhistas e financeiras – custos do trabalho, juros bancários, etc. Creio que faríamos bem se agregássemos à discussão dos fatores que nos tornam um país menos competitivo, ou simplesmente subdesenvolvido, a dimensão educativa. Em verdade, ela não só complementa, mas muitas vezes ajuda a explicar as demais.
O problema é amplo, indo muito além da matemática ruim das caixas de supermercado. Em verdade, a moça é tão “vítima” quanto eu e você. Os problemas educacionais brasileiros são um jogo em que todos perdem. Sabemos, só para ficar nas competências fundamentais de escrita, leitura e matemática, que o atraso bate à nossa porta. Segundo os dados do INAF – Brasil 2009, neste ano ainda teríamos 27% da população maior de 15 anos sem alcançar um nível “básico” ou “pleno” nas habilidades mencionadas. Também negativo é que somente outros 27% atingem o nível mais elevado na medida dessas competências.
É possível imaginar um país desenvolvido, na vanguarda técnica e econômica numa tal situação? Parece improvável e, continuando assim, seremos eternos “emergentes”. Ainda mais no mundo atual em que o sistema econômico tende a agregar forte conteúdo intelectual às suas técnicas e processos. Daí, um autor como Castells falar, na sua famosa trilogia sobre a “sociedade em rede”, num capitalismo informacional.
As máquinas e tecnologias atuais condensam um valor cognitivo que precisa ter contrapartida no trabalhador que as opere. Os trabalhadores – ou pelo menos grande parte deles – não são mais somente aquele “apêndice de carne numa máquina de aço” de que falara Marx. Em grande parte dos empregos no capitalismo informacional, na economia de serviços avançada, o trabalhador precisa ser bem formado, competente, capaz de pensar e agir contextualmente.
Precisa, no mínimo, da capacidade de ler (e entender) os manuais das tecnologias que utiliza. Nos níveis mais elevados, e mais valiosos, do trabalho no mundo atual, o indivíduo deve ser capaz de reprocessar a informação e a tecnologia, tendo a capacidade de inovar e criar.
É por isso que a geralmente bem vinda introdução de tecnologias na sociedade e na escola não cumprirá todas as suas potencialidades sem operadores competentes e criativos, em outras palavras, educados. No âmbito do trabalho, já vimos: o tempo que o leitor do código de barras ganha, ao eliminar a digitação de preços, pode ser perdido se quem opera a máquina desconhece a matemática elementar.
Também muito importante: as tecnologias na escola não devem ser uma desculpa para que as habilidades e os conhecimentos fundamentais não sejam bem ensinados e aprendidos. Para dar alguns exemplos: a calculadora é útil, mas nem sempre temos uma à mão; embora os mecanismos de busca na internet nos permitam, com facilidade, localizar informações, a contextualização das mesmas é sempre uma tarefa humana.
Em termos bastante simples: as tecnologias devem ampliar nossa capacidade de conhecer e compreender o mundo, não limitá-las. Além do aspecto mais prosaico, mas também importante, de nos permitir fazer melhor as coisas que faríamos sem elas. Isso é o desenvolvimento.
Nos últimos anos tenho me dedicado a pensar sobre essas questões, e é sobre temas na articulação entre as tecnologias, as mídias, a educação e a sociedade que gostaria de falar aqui, nesse espaço do NET Educação.
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