A cultura audiovisual e o esporte estão extremamente ligados. Basta olharmos os bares na cidade em noites de jogos de futebol. Se um bar não tiver TV, fica vazio. Quando as copas e os jogos olímpicos se aproximam, a publicidade toma conta dos anúncio e programas de TV, com imagens cada vez mais sofisticadas para que os jogos possam sejam vistos em todos os detalhes. E, se houver uma jogada polêmica em algum clássico, todos querem ver o videoteipe para tirar a dúvida.  

A imagem excelente com todos os detalhes, que hoje temos na TV, antigamente só se via no cinema. Até meados dos anos 1980, ir ao cinema era um programa que começava com
CANAL 100, exibições incríveis de cenas com as jogadas filmadas com maestria.

Hoje, nos canais a cabo, há programas e canais voltados para os mais variados esportes, com ótima audiência. E o futebol é vedete, não só no Brasil.

Mas o esporte exibido no cinema pode ter uma função além do entretenimento e do gosto pelo esporte em si. O esporte está presente na cultura cinematográfica – em documentários e filmes de ficção – trazendo outras dimensões, como as questões sociológicas, culturais, geográficas e políticas. Elas podem ser objeto do trabalho das diferentes disciplinas do currículo escolar.
 

Em nosso imaginário, o esporte está ligado à coragem, heroísmo, grandiosidade, superação de situações extremas. Como nos lembra Victor Melo (*), o registro dos feitos esportivos permitem a preservação
  e a lembrança. O termo “recorde” vem de relembrar (to record) e incentiva a constante superação de limites.

As imagens que o cinema traz possibilitam discutir conceitos de beleza e contextualizá-los historicamente. Um bom exemplo disso é o documentário de Leni
Riefenstahl Olympia (1938), sobre os jogos olímpicos de Berlim, em 1936. Trata-se de um filme de propaganda hitlerista, destacando a superioridade ariana. O filme – aliás, como vários outros de sua autoria – está entre os clássicos da história do cinema pela sua excelência no uso dos recursos audiovisuais. Além da qualidade estética, o filme abre possibilidades interessantes para a compreensão da visão de uma sociedade, neste caso o esporte é usado com fins políticos para afirmar ideias de supremacia racial.

O aspecto político também está presente no filme
Invictus (2009), de Clint Eastwood, que aborda um episódio histórico da África do Sul.  O país saía do regime de segregação racial, o Apartheid, mas ainda vivia a herança do preconceito racial. Nelson Mandela, ativista da luta contra o apartheid, fora recém-empossado presidente. O país estava prestes a receber a Copa Mundial de Rúgbi, esporte identificado com a elite branca.  Mandela compreende que precisa apoiar o evento e a seleção sul-africana, de rúgbi, apesar da reação de estranhamento de seus aliados, negros que tinham no futebol o seu esporte. Ele usará a copa mundial como instrumento unificador da nação.

O futebol utilizado com fins políticos também é mostrado no filme brasileiro
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hamburger. Na narrativa, o garoto Mauro, apaixonado por futebol, acompanha a copa de 1970.  Há uma cena muito interessante em que seu amigo, o jovem militante de esquerda (interpretado por Caio Blat) está torcendo pelo time de um país socialista (por opção ideológica), mas, quando o Brasil faz um gol não resiste e sai vibrando… Cena muito engraçada que mostra a força do sentimento de nação cristalizada no esporte.

O futebol brasileiro também é tema do filme documentário
Garrincha, a Alegria do Povo (1962) sobre a vida de Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, dirigido por um dos mais importantes cineastas do Cinema Novo, Joaquim Pedro de Andrade. E Pelé teve a sua história contada no documentário Pelé Eterno (2004), dirigido por Anibal Massaini Neto, com roteiro de José Roberto Torero e colaboração do jornalista Armando Nogueira.

Outra abordagem crítica e divertida sobre o futebol, como cultura popular, são os dois filmes de Ugo Giorgetti
Boleiros – Era uma vez o futebol (1998) e Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos (2006). O primeiro pode ser perfeitamente utilizado na escola, porque é apresentado no formato de 5 histórias independentes (com média de 20 minutos), cada uma homenageando um time de São Paulo. As histórias abordam a desigualdade social, o preconceito racial, a fama seguida de esquecimento, tão comuns na vida das celebridades do futebol. O filme é divertido sem perder a criticidade. O diretor Giorgetti realizou também um documentário sobre a vida do pugilista Eder Jofre: Quebrando a Cara (1999).

O futebol também está presente no filme Linha de Passe (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas. O drama é protagonizado por Sandra Corveloni (prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes) que interpreta Cleusa, uma diarista, torcedora fanática do Corinthians, que está grávida do quinto filho. Um de seus filhos aguarda a oportunidade de ser jogador profissional. A família, a desigualdades social presente nos dois mundos (o de sua casa na periferia e o do apartamento onde trabalha) são temas interessantes para os alunos do Ensino Médio.

O fanatismo das torcidas, tema da comédia dirigida por Bruno Barreto, pode dar uma boa discussão entre os jovens: O Casamento de Romeu e Julieta (2005) parodia a briga entre famílias do clássico de Shakespeare, brincando com a quase impossibilidade de união entre famílias torcedoras de times diferentes. A partir da brincadeira, é possível problematizar os exageros e a violência das torcidas.

Popular na cultura estadunidense, o boxe foi bastante retratado em filmes feitos nos EUA. Menina de Ouro (2004), de Clint Eastwood, embora seja uma obra densa e triste, pode ser trabalhada com alunos do Ensino Médio, trazendo a realidade de uma mulher determinada a ser boxeadora e que sofre um acidente (interpretada magistralmente por Hilary Swank). Esses filmes, assim como a série Rocky um Lutador, que consagrou Sylvester Stallone (o primeiro, de 1976, dirigido por John G. Avildsen, é bom) tratam do esforço individual e da superação de limites por meio do esporte. Uma ótima oportunidade pra se discutir a competitividade do mundo contemporâneo, a disciplina, a busca de uma emoção controlada e o perfil do herói e de seus feitos. O fato de os filmes serem envolventes e bem feitos não quer dizer que devemos valorizar sempre a competição, mas, sobretudo, trazer outra perspectiva: a do esporte como prática saudável cotidiana.  

O esporte pode ser usado ainda como estratégia, como foi o caso da comédia À Procura de Eric (2009), realizada por Ken Loach. O diretor britânico – conhecido por dirigir dramas – reafirma seu engajamento político quanto aponta a força coletiva para a resolução de problemas. Um carteiro que se sente deprimido encontra no jogador francês Eric Cantona a inspiração para continuar vivendo. Seus amigos torcedores do Manchester o ajudam a vencer um inimigo que ameaça seus filhos. O professor deve ter precaução em relação a esse filme (sempre assistindo à obra antes de exibi-la aos alunos), porque há uso recreativo de drogas. O professor deve ponderar se tais cenas são adequadas ao conjunto de seus alunos.

Um filme cuja exibição pode ter bom acolhimento junto aos jovens é Carruagens de Fogo (dirigido por Hugh Hudson, 1981), que trata de um drama pessoal entre jovens, nas Olimpíadas de 1924. A trilha sonora de Vangelis é muito bonita, sendo que a música da vitória até hoje é veiculada como signo de sucesso em competições.

A articulação do esporte com a cultura dos povos, a qualidade de vida, a crítica à cultura de celebridades e o contexto político pode ser potencializado através do cinema, de forma prazerosa e criativa.

(*) Cinema e Esporte: Diálogos, in: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/cinema-e-esportes-dialogos-de-victor-andrade-de-melo/

 

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Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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