Muitas são as dúvidas dos professores para o uso de filmes em sala de aula, mesmo os docentes que têm muita clareza da importância do cinema como parte da formação cultural dos alunos.

É comum que o professor tenha receio de ser mal visto pela direção (ou mesmo por colegas, alunos e familiares) por estar exibindo um filme durante a aula, como se não a tivesse preparado. Infelizmente, esse preconceito se consolidou justamente pelo mau uso que já se fez dos filmes em sala de aula. Muitas escolas ainda usam essa opção quando falta um professor ou mesmo professores mal preparados já enrolaram suas aulas passando filmes, banalizando a prática.

Por outro lado, muitos professores se sentem pressionados a usarem recursos tecnológicos, como é o caso do audiovisual, para prestarem contas de que estão “modernizando” o ensino. O uso de filmes não garante, por si só, um processo educativo mais dinâmico.

É bom lembrar que o audiovisual é muito presente na vida de todos nós, especialmente dos alunos. Os adolescentes, por exemplo, têm disponibilidade de assistir a muitos vídeos na internet, ou mesmo novelas, filmes e séries na TV. Muitos vão ao cinema sem nem mesmo saber o nome do filme. Costumam escolher pelo gênero (terror, comédia romântica, ação) ou embalados pela publicidade (grandes produções norte-americanas). Em todos esses casos, normalmente, o intuito é apenas o da diversão.

A escola é o espaço de produção do conhecimento e o uso do audiovisual deve ser um contraponto ao consumo efêmero e despretensioso dos filmes. Para que toda a comunidade escolar compreenda a seriedade da proposta, a intenção pedagógica deve ser explicitada no planejamento e apresentação da atividade. O ideal é que sejam escolhidos poucos e significativos filmes durante o ano e que seu uso seja bem justificado. Quando a atividade envolve uma equipe interdisciplinar, a chance de acolhimento, tanto por parte da direção como dos alunos, é maior, porque vários professores estarão entusiasmando os alunos, referindo-se à obra a partir de pontos de vista diferentes.

Outro problema comum é o tempo do filme que quase sempre não condiz com o da aula. Uma boa opção tem sido o uso de curtas metragens (ver http://www.portacurtas.com.br). Mas, para isso, é interessante que o professor cultive o hábito de assistir a muitos curtas para criar um leque de opções que sejam pertinentes às aulas. Há alguns longas metragens realizados em episódios, que podem ser exibidos em partes, sem necessariamente perder a ideia do conjunto.  “5 vezes favela, agora por nós mesmos”, “Crianças invisíveis”, “Boleiros, era uma vez o futebol”,  “Bem-vindo a São Paulo”, são alguns exemplos de produções divididas em episódios.

Mas é possível também usar integralmente um longa metragem – documentário ou ficção – desde que de forma bem planejada. Nesse caso, para que o tempo dê certo, é importante que o professor se certifique da duração do filme e calcule um tempo a mais, para que haja uma introdução e, se possível, reste um tempo ao final para o debate. Se não for possível garantir o debate na mesma aula, ao final da exibição podem ser elencados alguns tópicos para que os alunos reflitam até a aula seguinte. Uma boa opção são as “aulas dobradinhas” ou os acordos entre  professores de diferentes disciplinas.  

É sempre bom organizar a infraestrutura com antecedência, testando os equipamentos para que não se perca muito tempo com ajustes.  Não é raro que um filme seja planejado e anunciado, mas, por incompatibilidade de mídia ou falha do equipamento não testado antes, a atividade resulte em frustração para todos.

Outro dilema do professor é se ele programa um filme mais complexo, em desacordo com o repertório comum dos alunos; ou se ele exibe um filme que, com certeza, terá aprovação, promovendo uma experiência mais confortável. 

É importante que o professor não perca a perspectiva de que a escola desempenha um papel diferencial na formação do aluno, que foge à lógica do mercado e que nem sempre uma atividade escolar é agradável para todos. Mas, mesmo com clara intencionalidade educativa, a experiência de ver filme na escola pode e deve ser prazerosa. Há muitas opções de filmes que equilibram temas complexos com linguagens mais acessíveis, que não causam tanto estranhamento às nossas crianças e adolescentes. Essa escolha deve vir de uma boa pesquisa não apenas nos acervos de filmes, mas também no repertório dos alunos. Quando o professor vai mostrando as várias camadas de leitura que um filme pode oferecer, os alunos, aos poucos vão compreendendo a riqueza de um filme que, a primeira vista, não parecia interessante.

É comum que os alunos estejam acostumados à estética e ao ritmo frenético da cinematografia norte-americana, em virtude da hegemonia secular dessa indústria, no Brasil e no mundo (filmes americanos dominam a programação nos cinemas e na TV). São filmes muito comerciais, isto é, que raramente se arriscam a experimentações artísticas e que costumam apresentar “mais do mesmo”. A maioria dos chamados “blockbusters” evita apresentar personagens muito complexos, cenas mais lentas que favoreçam a reflexão, ou finais muito abertos que permitam muitas possibilidades de interpretação. Os filmes excessivamente comerciais costumam exigir pouco do espectador. O professor deve tentar fugir da armadilha desses filmes com mensagens fáceis e fórmulas muito prontas, porque, além de favorecerem poucos desdobramentos para o conhecimento, já estão muito disponíveis no cotidiano dos alunos.

No outro extremo, às vezes o professor se entusiasma com um filme bastante denso, que trata o tema que ele quer abordar exatamente como ele gostaria. Porém, nem sempre os alunos apresentam recursos cognitivos para apreciarem o filme e nem sempre a comunicação acontece, resultando também em frustração para ambos os lados. Se o professor insiste na proposta, pode haver um bloqueio pedagógico, isto é, o aluno toma aversão a um tipo de filme.

Esse equilíbrio nem sempre é fácil de ser encontrado, mas, é bom lembrar que cabe à escola auxiliar o educando no desenvolvimento da competência de ler o audiovisual, buscando obras que contenham muitas qualidades artísticas, mas que também façam uma ponte com a bagagem do aluno, para que ele construa um novo repertório.  É preciso paciência para cultivar esse processo e encontrar as estratégias mais acertadas.

Vale a comparação com o mau uso que já se fez na escola de obras literárias, tidas como fundamentais pelos educadores, mas comumente odiadas pelos educandos. Até hoje há pessoas que nunca descobriram o prazer da leitura, porque em sua infância lhe foram impingidas leituras que não faziam sentido para elas.

Por outro lado, quantos professores entusiasmados não proporcionaram uma mediação prazerosa com a literatura, fazendo relação com outros saberes, apresentando-a aos poucos, transmitindo um encantamento de forma a contaminar – muitas vezes para o resto da vida – aquele estudante para a leitura? Por que não apresentar Machado de Assis aos alunos a partir de contos, antes de propor a leitura de um romance?

Podemos fazer o mesmo com o cinema. Em primeiro lugar, a mediação deve ser realizada com uma apresentação do filme, que pode, ou não, ser feita com uma pesquisa prévia do tema. Por exemplo, há filmes de ficção que apresentam como pano de fundo algum acontecimento histórico, como a queda do muro de Berlim, ou um período entre guerras, ou a ditadura militar no Brasil. Para que o filme seja melhor apreciado, pesquisa e discussão prévias sobre o contexto histórico são bem vindas, pois já inserem o aluno na ambientação do filme, deixando-o mais confortável no momento da assistência. 

A apresentação dos personagens e da espinha dorsal da trama também pode ser útil, dependendo da faixa etária dos alunos, o que pode facilitar a compreensão do filme, diminuindo o estranhamento inicial. O mesmo vale para a apresentação do diretor e daquela obra em sua filmografia. O professor pode instigar os alunos explicando antes alguns aspectos da linguagem (reparem no enquadramento da câmera naquela cena… ou, percebam como a trilha sonora no momento do suspense nos adianta que algo de estranho vai acontecer…). Instigar não é o mesmo que contar tudo o que vai acontecer… 

Por último, algumas experiências têm mostrado que a recepção é sempre uma surpresa. Muitas vezes o filme que o professor tinha certeza que agradaria aos alunos não alcança seu intento. Ao contrário, muitas vezes crianças e jovens se encantam com filmes antigos (com fotografia P&B e mudos) ou filmes bastante sofisticados da história do cinema. A arte percorre caminhos diversos e sempre vale a pena arriscar, contando com o entusiasmo e a sensibilidade do professor.

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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