Em meados dos anos 1990, pudemos acompanhar uma fase do cinema brasileiro chamada de “retomada”. O nome vem em contraponto à fase anterior, caracterizada pela completa estagnação das produções nacionais imposta pelo fechamento da Embrafilme pelo presidente Collor. Sem apoio governamental, o modelo de produzir cinema, totalmente bancado pelo governo, não tinha como sobreviver.
Com as políticas de incentivo fiscal (leis Rouanet e do Audiovisual) que, em troca do abatimento nos impostos devidos, as empresas puderam passar a bancar a produção de projetos audiovisuais, aprovados pelo Ministério da Cultura, a produção foi retomada.
Gradualmente, a produção de filmes nacionais foi aumentando e, muito vagarosamente, conquistando o público. Ainda persiste uma ideia de que o cinema brasileiro apresenta má qualidade técnica, pornochanchadas e palavrões. Na verdade, pouco se conhece da diversidade do cinema produzido nos últimos 15 anos no Brasil, até porque as leis de incentivo fiscal só financiam a produção, não contemplam as etapas de distribuição e exibição. Muitos filmes brasileiros ficam somente uma semana em cartaz, após a estreia. O pouco prestígio somado à dificuldade de exibição resulta num ótimo cinema praticamente invisível.
Boa parte das excelentes obras desconhecidas são os documentários, que tiveram importante crescimento nesse período, por diversas razões:
a) documentários têm produção mais barata do que filmes de ficção (por exemplo, não precisam pagar cachê para o elenco);
b) documentários podem ser realizados com poucos recursos técnicos, com câmeras simples é possível fazer bons videodocumentários;
c) a criação do festival “É Tudo Verdade” , em 1995, pelo jornalista Amir Labaki, em São Paulo (hoje também no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte) impulsionou a produção. De 40 documentários nacionais inscritos na 1ª edição, chegamos a 450 títulos em 2010.
Os professores, em geral, gostam muito de usar documentários em sala de aula, até porque é possível a seleção de apenas alguns trechos, o que compromete a compreensão do filme como um todo. O único problema é que ainda é comum a ideia de que o documentário é verdadeiro e a ficção não é.
É sempre bom lembrar que o documentário também é um jeito de ver a realidade, um recorte sempre parcial, e representa a visão e as ideias de seu autor. Esta percepção do documentário como uma “verdade” vem dos documentários mais tradicionais (como os exibidos pelo canal Animal Planet) em que a voz do narrador, em “off”, distante, séria e sem emoção, parece apresentar “A Verdade”. Atualmente, há uma tendência mundial de produção de documentários em que são claras as escolhas e recortes do diretor, a narrativa é feita pelos próprios entrevistados, com muito mais emoção.
O diretor Eduardo Coutinho também contribuiu para a transformação do gênero documentário. Tendo iniciado sua carreira no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE), se viu sem espaço para fazer cinema, durante a ditadura militar. Foi então trabalhar na televisão, no programa Globo Repórter. Foi ali, realizando reportagens que marcaram época, que descobriu sua vocação como documentarista.
Em 1962, Eduardo Coutinho iniciara um filme de ficção que narrava a história do assassinato de um líder camponês, no Nordeste. A viúva do líder e os demais camponeses fariam papel de si mesmos no filme. As filmagens foram interrompidas pelo golpe militar e alguns participantes foram presos. A viúva teve que se esconder e trocar de identidade. Em 1981, ele retoma o filme, recupera parte do material filmado e volta ao local para realizar um documentário sobre a própria saga do filme, do líder assassinado e da viúva. Cabra Marcado para Morrer (1984) foi premiado no mundo todo, a obra influenciou muitos outros cineastas, destacando o documentário brasileiro no âmbito internacional. De sua lavra, destaca-se ainda Jogo de Cena (2009), talvez um dos mais revolucionários documentários da história do cinema, que mescla depoimentos verdadeiros com ficcionais, mostrando o quanto o limiar entre a ficção e a realidade é tênue. Eduardo Coutinho é o mestre dos documentaristas brasileiros. Uma seleção de bons documentários está disponível no final deste artigo.
Vários especialistas do mundo todo assumem que o gênero documental recebe menor público do que a ficção. No entanto, vale lembrar como o próprio público mistura a ficção com a realidade. O que pensar sobre a atual febre dos “reality shows”? Por que será que, quando há uma ficção inspirada em fatos reais, essa condição é largamente anunciada para conquistar maior audiência? É fácil notar que nossa telenovela busca, ao máximo, ser verossímil, isto é, parecer com a realidade mesmo sendo uma ficção. Se o autor da novela escrever um caso improvável, corre o risco do telespectador mudar de canal. Nos anos 1970, por exemplo, tivemos novelas apoiadas no realismo fantástico (especialmente as de Dias Gomes), mas hoje essa opção é rara, pois o público tem pouca familiaridade com o fantástico. Os estudos de audiência mostram que o público busca a “verdade”.
Interessante pensarmos que, na era da internet, quando a informação nos parece abundante, os documentários cumprem um papel de aprofundamento de um tema, daí sua importância no processo educativo.
Alguns documentaristas brasileiros e suas obras:
- Eduardo Coutinho: Além das obras já citadas, realizou Santo Forte (1999), Babilônia 2000 (2000), Edifício Master (2002), Peões (2004), O Fim e o Princípio (2005), Moscou (2009) e o recente As Canções (2010).
- Sílvio Tendler: importante e tarimbado documentarista sobre nossa história recente como Os Anos JK (1980), Jango (1984), Glauber, o Filme (2003), Encontro com Milton Santos (2006) e Utopia e Barbárie (2008). O conhecimento de sua obra é fundamental para educadores.
- João Moreira Salles: Notícias de uma Guerra Particular (1999, em parceria com Kátia Lund) é um documentário contundente sobre o apartheid social em que vive o Rio de Janeiro. O cineasta realizou ainda Nelson Freire (2003), Entreatos (2004), e Santiago (2006).
- João Jardim: Janela da Alma (2002, com Walter Carvalho) sobre deficiências da visão; Pro Dia Nascer Feliz (2006), um panorama da educação brasileira; nos moldes do já citado Jogo de Cena, realizou Amor? (2011) – filme sobre a violência em relacionamentos amorosos, apoiado em atores que interpretam fortes depoimentos. Em 2009, co-dirigiu com Karen Harley e Lucy Walker o premiado Lixo Extraordinário, que apresenta o trabalho do artista Vik Muniz com os catadores de material reciclável do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro.
- José Padilha: o diretor da ficção Tropa de Elite iniciou sua carreira escrevendo roteiros e produzindo documentários, como Os Carvoeiros (1999) e Estamira (2005). Seu primeiro trabalho como diretor foi Ônibus 174 (2002), que reconstrói o violento episódio sequestro de um ônibus, no Rio de Janeiro. Em 2009, dirige Garapa, sobre a fome no mundo.
Outras documentários relevantes:
- Nós que aqui estamos por vós esperamos (1999), de Marcelo Masagão – A partir de fragmentos de vídeos e da visão do historiador Eric Hobsbawn, na obra A Era dos Extremos, mostra um resumo do século XX narrando histórias particulares e universais, ao mesmo tempo. De forma muito inovadora, problematiza a relação entre ficção e verdade histórica.
- Estamira (2005) – antes de Lixo Extraordinário, esse documentário muito premiado de Marcos Prado apresentou de forma muito sensível a vida de mulher com distúrbios mentais que, à época, vivia e trabalhava no aterro sanitário do Jardim Gramacho.
- Doutores da Alegria – O Filme (2005), de Mara Mourão, relata a experiência da ONG de mesmo nome, com diversões e palhaçadas para crianças hospitalizadas.
- Palavra (En) Cantada (2008) – de Helena Solberg, reflete sobre a relação da música popular com a poesia e a literatura. Traz depoimentos e músicas de Chico Buarque, Tom Zé, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Adriana Calcanhoto, entre outros.
- Língua, Vidas em Português (2004) – de Victor Lopes, trata dos usos e jeitos da língua portuguesa em diversos países, como Brasil, Portugal, Moçambique, Cabo Verde, Angola, entre outros. Traz depoimentos de João Ubaldo Ribeiro, José Saramago, Mia Couto e Martinho da Vila.
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Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.