Um filme recente Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs, França, 2008) nos revelou uma situação bastante desconfortável vivida por professores e alunos: o ambiente escolar é permeado por sentimentos de opressão, violência e exclusão. A forte tensão vivida hoje por toda a comunidade escolar é abafada diante da burocracia e das demandas, cada vez maiores por desempenho de professores e de alunos. Há pouco espaço para os sentimentos e para as relações, como se as interações, o afeto e o clima das relações não fossem, também, elementos fundamentais para garantir que o trabalho pedagógico se desenvolva.

Muitas vezes um filme de ficção é utilizado na escola para ocupar o tempo ocioso do aluno, quando da falta de um professor, tendo-se como objetivo não mais do que entretenimento. Ao invés de utilizar este momento como espaço privilegiado para se trabalhar com sentimentos e questões que tocam as relações, ele é desperdiçado. Sem intenção educativa, assistir a um filme de ficção é percebido por alunos e por seus pais como “enganação”.

O cinema de ficção demorou muito a entrar na escola. Os filmes reconhecidos pela cultura escolar eram, em geral, os documentários, os filmes históricos ou os “baseados em fatos reais”. A razão do preconceito com o filme de ficção vem da ideia de que a escola deve passar o conhecimento científico, a verdade, a informação. Construída a partir das bases positivistas, que sobrevalorizavam a ciência, parece não haver espaço para nada além dos conteúdos disciplinares.

Hoje a ficção já pode ser vista como potencial para a “educação dos sentimentos”, o que inclui reflexões sobre preconceitos, violência, solidariedade, entre outras questões atitudinais necessárias à construção de um aluno cidadão. Os filmes de ficção podem ser uma excelente meio para o autoconhecimento (de alunos e de educadores) e para o exercício da alteridade, do ser capaz de se colocar no lugar do outro.

Ainda é forte no meio docente a ideia de que um filme deve passar uma mensagem edificante e que o aluno deve produzir uma redação sobre a mensagem do filme. O que é complicado para a escola, ainda permeada pela educação positivista, é compreender que o audiovisual, por articular várias linguagens e trazer diferentes visões e discursos, possibilita uma grande gama de interpretações. E todas “corretas”, isto é, legítimas, já que cada um assiste ao filme e faz leituras de acordo com o seu universo cultural, construindo sentidos de acordo com sua subjetividade.

Edgar Morin escreveu em 1956 um livro intitulado “O Cinema ou o Homem Imaginário” , em que ele atribui a mágica do cinema, ou o encantamento que ele nos provoca, a partir do conceito de imaginário no seu duplo sentido: imagem e imaginação. Para o pensador francês, quando nos encantamos com um filme nós moldamos sua imagem de acordo com nossas aspirações. O sentido que damos à obra resulta de sonhos nem sempre revelados para nós. Muitas vezes é o nosso inconsciente que dialoga com determinado personagem ou situação apresentada pela trama. Por isso, a nossa relação com o filme é altamente subjetiva.

Para Morin, dois processos acontecem quando nos envolvemos com um filme: de projeção e de  identificação.  Nossa alma (nosso universo interior) se projeta no filme e, a partir desse fenômeno, nos identificamos com os personagens. Nesse processo, vestimos a pele dos personagens, rimos e choramos com eles, sentimos dores e alívios, vivemos os seus problemas e alegrias.
Ao acordamos de um sonho, sabemos identificar que não era real. Assim também acontece com o cinema. Enquanto estamos vendo um filme, há uma suspensão da realidade. Embarcamos na história como se fosse um sonho, mas fazemos esse “pacto” com o filme de forma consciente. Sabemos, ao comprar um ingresso ou ligar um DVD, que vamos rir, chorar, torcer, nos emocionar com uma ilusão. Quando o filme acaba, voltamos ao nosso cotidiano e, se a experiência cultural foi significativa, parece que não somos mais a mesma pessoa. Durante o filme, projetamos nossos sentimentos, o que pode resultar em uma transformação, uma experiência emocionalmente relevante. Assim como um sonho pode revelar medos e desejos inconscientes, um filme pode cumprir esse papel. Uma situação de conflito apresentada em um filme pode nos esclarecer, conscientemente ou não, sobre a nossa própria confusão de sentimentos.

E o que a escola tem a ver com isso?

Quando nos permitimos o envolvimento emocional e depois participamos de uma discussão coletiva sobre um filme, inevitavelmente nos posicionamos: gosto ou não da mocinha, gosto ou não do vilão, tal personagem me enoja, tal cena me fez chorar, aquele estilo de música me emociona… Um debate saudável e participativo naturalmente nos leva ao confronto de ideias e posicionamentos. Por que uma pessoa diz que não se emocionou com a mesma cena que me fez chorar? Por que estou tão sensível com esse assunto? Por que eu daria um rumo tão diferente para aquele personagem?  Essa prática do diálogo com a presença de um mediador (professor) pode levar aos processos de autoconhecimento e alteridade, isto é, compreender a mim e ao outro.

A discussão sobre um filme de ficção não gera, necessariamente, conteúdos relativos às disciplinas, mas pode trazer à tona sentimentos e situações comportamentais importantes para a formação pessoal de todos, inclusive do professor, e para que questões importantes com foco nos sentimentos e relacionamentos possam ser abordadas. Externar sensações, defender pontos de vista, ouvir e ser ouvido são processos importantes para cada um rever posições, interagir e criar vínculos com seus pares.

O debate sobre uma ficção possibilita aos participantes se referirem ao personagem e a uma determinada situação da trama sem terem que se expor. “Falo do outro e não de mim”. Não é incomum vermos alunos que são mais introspectivos e falam pouco se  manifestam. Pode ser uma ótima oportunidade para que os professores conheçam mais sobre esses alunos e sobre todo o grupo, por meio de atividades em que o que está posto não são conteúdos nem se está medindo o seu desempenho.

O professor pode alegar que não é psicólogo e que a sala de aula não pode se transformar em sessão de terapia em grupo. Essa preocupação é pertinente, é preciso cuidado na condução do debate, de maneira que as posições sejam respeitadas, trazendo sempre o filme para o foco.

O filme é uma obra objetiva, há informações, cenas, personagens. Porém cada  pessoa constrói o “seu filme” de acordo com sua subjetividade, em confronto com aquela realidade objetiva que o filme apresenta. Ele é o ponto de partida e o cerne da discussão. É importante criar um espaço para os posicionamentos pessoais, mas sempre voltando ao filme. O mediador deve  conduzir o processo de maneira a não deixar que a troca se transforme em exercício terapêutico. Se, ainda assim, conteúdos mais difíceis de serem abordados emergirem no contexto coletivo, o professor pode retomá-los com o aluno e mesmo sugerir o encaminhamento a um profissional. A preparação anterior do professor em relação ao filme é fundamental para que possa adquirir  segurança em relação ao tema. Ele também pode incluir outro professor ou um especialista convidado, se julgar necessário.

É importante lembrar que a escola é, muitas vezes, o único espaço para o aluno se manifestar, ser ouvido e acolhido, portanto tem um papel importante nesse aspecto. É preciso sensibilidade nessa condução, porque muitas vezes um debate na escola é a única chance de um aluno se manifestar. A escolha do filme deve ser feita com cautela.

O mais importante disso tudo é que a escola permita que emoções aflorem no seu ambiente, para que a violência, latente ou expressa, seja reconhecida e devidamente trabalhada. O cinema tem muito a colaborar com essa realidade.

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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