Nos anos 1970, apesar da censura severa, houve um crescimento de filmes denominados pornochanchadas, que eram comédias populares, bastante comerciais, com pitadas eróticas. O cinema no Brasil sempre teve muita dificuldade de financiamento. É uma produção que tem um pé na arte e outro na indústria. Para conquistar o público e sucesso mercadológico, os poucos produtores investiam em roteiros simples, com apelo comercial e popular. Filme erótico sempre teve público, mas como driblar a censura? A maioria dos filmes chamados de pornochanchadas traziam histórias tão fracas, que os cortes da censura afetavam pouco, já que o público desses filmes não estava preocupado com a trama.
 
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A partir da intensificação da repressão, os censores estavam mais atentos às “ameaças” do comunismo, e aos valores do capitalismo e da religião, como a propriedade privada e a família.  Alguns censores entendiam que erotismo no cinema era também ação dos comunistas. A ligação é absurda, mas foi registrada por escrito. Um dos censores publicou que “os agentes do comunismo internacional servem-se da dissolução da família para impor o seu regime político; para tanto buscam projetar a juventude no erotismo, para desfibrá-la e fazê-la perder a dignidade”.
 
As pornochanchadas não eram filmes pornográficos, eles não apresentavam sexo explícito. Muitos eram comédias de costumes, com leve tom picante, porém os títulos e a publicidade eram sim, apelativos e vulgares, muito mais que o próprio filme. Horrorizados, sem nem assistir aos filmes, senhoras da sociedade e religiosos exigiam maior rigor da censura. Porém, essas produções eram a única alternativa que restou ao cinema nacional sob censura. Ótimos atores brasileiros participavam do elenco dessas pornochanchadas, garantiam-se financeiramente, e depois seguiam para a televisão, onde brilharam e se tornaram reconhecidos pelo grande público.
 
Os filmes estrangeiros também passavam pela censura, eles tinham também cenas cortadas ou eram proibidos na íntegra. As empresas estrangeiras, interessadas em exibir no Brasil, tinham de pagar para submeter um filme à censura do país, porém, diante de pareceres absurdos dos censores, aos poucos, as distribuidoras de filmes minimamente interessantes desistiram do Brasil, não querendo perder tempo nem dinheiro. O que para os filmes estrangeiros era apenas a perda de um possível mercado, para os brasileiros podia significar a falência das empresas produtoras e de toda a equipe, pois nem os custos de produção seriam pagos. Assim, o caminho foi produzir comédias e pornochanchadas. 
 
Mas o governo se viu envolto em grandes contradições. Nacionalista, procurou garantir o espaço da produção nacional num cenário dominado pelo cinema estrangeiro, sobretudo as produções norte-americanas. Para isso, contou com quotas para as produções brasileiras nas salas de exibição e criou em 1969 a Embrafilme, com a função de fomentar e distribuir o cinema nacional.  Porém, o que poderia apresentar? Com exceção das comédias de Mazzaropi, as poucas produções que sobreviviam à censura eram filmes de baixa qualidade. As pornochanchadas não traziam uma boa imagem para o país, o que gerou críticas a esse incentivo ao mau cinema com dinheiro público. Não é difícil imaginar quanto os brasileiros foram privados de um cinema de qualidade por conta da censura. Até hoje, a marca desse cinema de baixa qualidade e com apelos eróticos perdura. Muitos não sabem que o cinema brasileiro mudou muito desde então.
 
 

 

Fase da distensão: a abertura lenta, gradual e segura
O governo de exceção começou a sofrer críticas e pressões.  Os crimes praticados pelo Estado contra os cidadãos foram denunciados por instituições de direitos humanos internacionais, por grupos de resistência e por parte da Igreja Católica, o que obrigou o regime autoritário a promover a chamada distensão, a partir de 1974, quando os militares dão início à abertura política.  

O AI-5 ainda vigorou até 1978, mas a censura começa a mudar antes disso. Ao assumir o governo, o General Ernesto Geisel escolheu Ney Braga para ministro da Educação e Cultura, que procurou de imediato um diálogo com os artistas, especialmente de teatro e cinema. Havia algo em comum entre governo e cineastas: ambos queriam conquistar o público para o cinema brasileiro e enfrentar o produto estrangeiro. É claro que essa coincidência de interesses não eliminava uma série de divergências, ainda estávamos sob a ditadura e parte do aparato repressivo, que tinha ganhado autonomia nos chamados “anos de chumbo”, ainda agia como antes. Nesse contexto as mortes, pela repressão, de Vladimir Herzog, em 1975, e Manoel Fiel Filho, em 1976, levaram milhares de pessoas às ruas, o que não ocorria desde 1968. 

O ministro Ney Braga promoveu uma série de mudanças, entre elas a consulta aos cineastas para a indicação de seu representante na Embrafilme, feito inédito. O cineasta Roberto Farias assumiu essa função e foi formada uma comissão de estudo para melhorias, composta por nomes sintonizados com os interesses dos cineastas. O ministro defendia que a imagem do cinema nacional só poderia ser recuperada com seus filmes de qualidade, como os cineastas ligados ao Cinema Novo, que pretendiam mostrar a realidade brasileira por meio do cinema. Muitos não entenderam como o grupo que fora enxovalhado pelos militares, agora se juntava a eles em trono do cinema nacional. No entanto, o cinema sempre precisou de apoio estatal. Para o pesquisador Wolney Malafaia, o processo resultou num período de “sucesso para a produção cinematográfica nacional, o aumento do número de longas-metragens produzidos, uma variedade temática e uma ocupação de mercado nunca vistas anteriormente”.

Em 1979, o então ministro da Justiça, Senador Petrônio Portella, reanima o Conselho Superior de Censura (CSC), criado em 1968, mas que nunca saíra do papel, e indica para integrá-lo membros da classe artística e do governo, sob chefia de José Vieira Madeira, conhecedor de cinema e com mente mais arejada. Filmes censurados anteriormente eram encaminhados ao CSC e liberados. Filmes aclamados no exterior também foram liberados e fizeram a festa dos cinéfilos como “Z”, “O Último Tango em Paris”, “O Encouraçado Potemkin”, “Mimi,o Metalúrgico” e “Sacco e Vanzetti”.

Nos anos 1980, com o falecimento do ministro da Justiça Petrônio Portella e com o afastamento de Madeira, o Brasil sofre um retrocesso na área. Substituídos por Ibraim Abi Ackel, como ministro, e Dona Solange Hernandes, delegada da polícia federal, para chefiar o CSC, essa última ficou conhecida por ser ainda mais dura e radical do que os censores dos anos de chumbo. Durante sua gestão, quando resolvia censurar um filme, fazia sumir do processo os pareceres favoráveis dos censores, o que ocorreu com o filme “Pra Frente Brasil”, de 1982, dirigido por Roberto Farias, realizado com verba da Embrafilme e que denunciava as forças paramilitares e as torturas. Depois, o filme acabou por ser liberado. Dona Solange pediu demissão, porém o diretor da Embrafilme à época, Celso Amorim, também foi demitido. 

Com o governo civil do Presidente José Sarney (1985), o ministro da Justiça indicado foi Fernando Lyra, que anunciou, em alto e bom som, o fim da censura. Logo em seguida, viveu uma crise com a liberação do filme de Jean-Luc Godard “Je vous salue, Marie”, que atualizava o mito da Virgem Maria, para indignação do Vaticano e de toda a Igreja Católica. Em vários países o filme incomodou, mas até na Itália foi liberado. Aqui, no Brasil, o filme foi censurado a pedido da Conferederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a mesma que ajudara na resistência política contra a ditadura. No entanto, como já estávamos na era do videocassete, o filme circulou livremente por cineclubes e exibições alternativas. 

A censura prévia foi extinta oficialmente com a promulgação da nova constituição, em 1988. Mas não é difícil perceber que ela permanece em nossas mentes. Dois anos depois, será criado o sistema de classificação indicativa, que vigora até hoje e será abordado em outro artigo.

     

 BIBLIOGRAFIA

 

COSTA, M. Cristina C. 2013. Opinião Pública, comunicação, liberdade de expressão e censura. In: COSTA, C (org.) Comunicação, Mídias e Liberdade de Expressão, São Paulo: Intercom.

GOMES, Mayra Rodrigues. 2013. A Comunicação sob o olhar da classificação indicativa. In: COSTA, C (org.) Comunicação, Mídias e Liberdade de Expressão, São Paulo: Intercom.

LIMBERTO, Andréa e REIS Júnior, Antônio. 2013. Censura à imagem em movimento: interdição, resistência e negociação de sentido. In: COSTA, C (org.) Comunicação, Mídias e Liberdade de Expressão, São Paulo: Intercom. 

MALAFAIA, Wolney V. 2007. O Cinema e o Estado na terra do sol: a construção de uma política cultural de cinema em tempos de autoritarismo. In: CAPELATO (et al. org.) História e Cinema. São Paulo: Alameda. 

SIMÕES, Inimá. 1999. Roteiro da Intolerância: a censura cinematográfica no Brasil. São Paulo: SENAC.

 

 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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