Pelo que foi discutido na coluna passada, e para não parecer pedante, adoto a tradução “alerta de conteúdo” para trigger warning. E, de fato, nos EUA, alguns preferem a expressão content warning, tendo em vista que trigger possui uma origem psicológica que pode ser enganosa em contexto não clínico.

No fim do texto anterior, falei de Monteiro Lobato e lembro agora que, em 2012, foi feita uma recomendação para que o livro Caçadas de Pedrinho fosse complementado por uma espécie de alerta, para que ele continuasse no Programa Nacional Biblioteca na Escola. Este aviso tomaria a forma de contextualização feita pelos professores que fossem utilizar a obra, bem como a inserção de nota explicativa em futuras edições. 
 
O caso remonta a 2010, quando o Conselho Nacional de Educação (CNE) determinou que o livro não fosse mais distribuído em escolas brasileiras, em função de conteúdo racista. A inclusão de nota na edição não prosperou, sendo que no fim de 2014 houve notícia sobre o não acolhimento da solicitação. Porém, tudo indica que o caso terá continuidade e novos desdobramentos. 
 
Não possuo conhecimento suficiente para julgar o mérito da avaliação sobre o suposto racismo de Lobato, porém creio que o governo tem o direito e o dever de não comprar e distribuir livros que possam prejudicar a formação de crianças, principalmente, provocando sofrimentos desnecessários a um grupo social qualquer. Isto, em absoluto, não representa censura, pois não se trata de retirar os livros de livrarias, bibliotecas ou proibir sua leitura. 
 
De qualquer modo, o que importa notar é que no Brasil também há esse tipo de preocupação, similar ao trigger warning dos Estados Unidos. Nesse sentido, é interessante reunir alguns argumentos dos que defendem essa prática, especificamente no caso do ensino superior. Num artigo, publicado em maio passado na New Republic (aqui), Aaron R. Hanlon desenvolve uma série de pontos bastante ponderados. Em primeiro lugar, ele nota que, ainda que os professores estejam confortáveis com os assuntos que ensinam, estando cientes dos desafios emocionais e intelectuais que estes possuem, é necessário considerar que os estudantes são pessoas com histórias e preocupações reais. É claro que essa potencial diversidade de histórias de vida é uma dificuldade para os alertas de conteúdo, porém, o terreno do bom senso pode ser um conselheiro válido sobre o assunto.
 
Hanlon, que é professor de literatura, defende que o alerta não significa um ato de censura ou um fechamento de sentido para as interpretações, tendo em vista que ele pode ser o ponto inicial de uma discussão que desafie os pontos de vistas dos próprios estudantes. Naturalmente, isso é mais viável com pessoas com mais maturidade, como os universitários.
 
Um aspecto adicional observado por ele é que levar a sério as preocupações dos estudantes não significa mimá-los, mas ter um maior cuidado com o modo como eles respondem a materiais desafiadores, o que é simplesmente um princípio adequado para uma pedagogia responsável. 
 
Outro professor de uma disciplina na qual os alertas parecem fazer mais sentido (história), Angus Johnston, escreveu um ensaio no site Inside Higher Ed (aqui) em que explica como pretende utilizar o alerta de conteúdo em seu curso (dá um exemplo prático de redação), bem como o porquê. Sua justificativa relaciona-se à crença que os alertas têm um alcance que vai além dos estudantes com algum tipo de trauma. Uma vez que uma sala de aula é um espaço interativo, o professor tem a obrigação de incentivar a participação, afastando elementos que a prejudiquem.
 
Conteúdos inesperados e possivelmente constrangedores, por isso, podem merecer alertas e contextualizações específicas. No limite, Johnston defende que um aluno possa deixar de ver algo ou acompanhar determinada discussão, ausentando-se da classe. Ele também oferece oportunidade do aluno discutir desconfortos pessoais e críticas ao conteúdo, na própria aula, ou extraclasse. Em suma, trata-se de uma posição de bastante respeito ao estudante, e preocupação com essa situação especial de interação representada por uma aula.
 
Voltando ao Brasil, num caso ocorrido em abril deste ano, parece ter faltado essa sensibilidade. Conforme noticiado na imprensa (aqui), um professor inglês que ministra uma disciplina chamada English for Science (Inglês para a Ciência), no Instituto de Biologia da USP, utilizou um texto, para dizer o mínimo, polêmico a propósito da relação entre raças e inteligência. A aula foi “ocupada” por estudantes negros que acusaram o professor de racismo. Ele negou tal ímpeto, notando que seu desejo era justamente que o texto fosse comentado e discutido, em inglês, para a prática dos alunos da disciplina. 
 
O ponto que merece atenção aqui é que, provavelmente, um alerta de conteúdo numa situação como essa poderia ter evitado o confronto e o possível mal entendido, assim como evidenciar, desde o início, o respeito do docente a grupos vulneráveis.
 

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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