Numa casinha branca, lá no Sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa na estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando: – Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto. Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas – Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. 

Assim tem início um dos clássicos da literatura infantil – Reinações de Narizinho, escrito por Monteiro Lobato, em 1931. Naquele contexto, uma senhora de mais de sessenta anos era considerada velha e sua rotina se resumia à de costura na solidão da varanda. Nossa sorte é que essa velha também adorava contar histórias e por isso fomos brindados com aventuras deliciosas. Por muitos anos, Dona Benta representava muito bem nossas vovós.

Na sociedade de hoje, mais complexa do que a dos anos 1930, há vovós como a Dona Benta assim como velhos que não têm netos, que não pararam de trabalhar, que participam da vida da cidade, fazem sexo, dançam. Alguns reclamam muito da sua condição, outros aproveitam o tempo livre, se divertem, realizam atividades filantrópicas. Uns não saem da igreja, outros fizeram tatuagem, vão às passeatas, enfim, há velhos para todos os gostos…  

Nas sociedades indígenas os velhos são pessoas especiais, com muitos privilégios porque, numa cultura oral, a memória e a sabedoria são importantes valores sociais, para a preservação dos saberes do grupo, para sua própria preservação. Nessa perspectiva, envelhecer é amadurecer, tornar-se cada vez mais sábio.

A linguagem politicamente correta encontrou vários termos para a velhice: maturidade, terceira idade, melhor idade. O estatuto dos idosos representou um avanço da sociedade em relação ao direito das pessoas mais velhas.  Apesar de tantas mudanças, a velhice ainda tem uma carga negativa, ser jovem ainda é altamente valorizado, vende-se a juventude em produtos que prometem nos manter jovens para sempre. A velhice é associada à proximidade com a morte, ideia sempre desconfortável, ainda que envelhecimento e morte sejam inevitáveis. 

Os avanços da medicina ampliaram a expectativa e a qualidade de vida. A população idosa cresce, ainda que não saibamos o que fazer com esses “velhos pós-modernos”. Eles estão nas redes sociais amam livros, namoram apesar do corpo envelhecido, fazem ginásticas apesar das artrites e artroses, exigem seus direitos de cidadãos e, não raro, sustentam economicamente e convivem com familiares de várias gerações. 

O cinema tem abordado a velhice com filmes primorosos que nos auxiliam a “sentir a velhice na pele”, função que o cinema exerce com maestria. Vários deles nos trazem a reflexão e a complexidade dessa velhice múltipla.  

Alguns filmes abordam a velhice a partir de um personagem, em outros os velhos são tomados como um grupo social. E não faltam grandes atores, no Brasil e no mundo, para interpretá-los “roubarem a cena”. Vamos aos títulos: 

Umberto D (1952), de Vittorio De Sica, traz o tema do abandono dos velhos. A partir da história do protagonista, aborda a condição de um segmento social, seguindo os princípios do neorrealismo italiano.  

Confissões de Schimidt (2002), de Alexander Payne, (EUA),  brilhantemente interpretado por Jack Nicholson, com participação impagável de Kathy Bates,  aborda muito bem a problemática da aposentadoria e da viuvez. 

Alguns filmes trazem o protagonismo coral isto é, muitos personagens, de diversos matizes, dando sustentação ao grande protagonista que, no caso, é a velhice. Três  bons exemplos: 

O Excêntrico Hotel Marigold (2011), de John Madden (Inglaterra). Sucesso recente, apesar de apresentar elementos dramáticos e sérios, o tom predominante é o da comédia e do romance. Um time de atores de primeiro time o tornará inesquecível: Judi Dench, Maggie Smith, Tom Wilkinson, Bill Nighy, entre outros. 

E Se Vivêssemos Todos Juntos? (2011), de Stéphane Robelin. Neste os velhos amigos, diante da incompreensão dos filhos e da sociedade, decidem montar uma espécie de “república”, ajudando-se mutuamente. Intercalada aos momentos engraçados emerge a crítica ácida à geração de adultos que não sabe o que fazer com seus pais velhos (pois propõe soluções práticas, porém sem sentido). Esses adultos não aparecem já que são mesmo omissos. 

O Quarteto (2012), dirigido por Dustin Hoffman, comédia dramática com leveza e emoção. Um grupo de músicos aposentados, grandes atores britânicos contracenam em uma casa de repouso. As limitações da velhice são o foco do filme, que homenageia os artistas e mostra que a terceira idade pode ser um recomeço. O exemplo vem do próprio diretor que, com carreira consagrada como ator, inicia uma nova função no cinema aos 73 anos. 

Amor (2012), de Michael Haneke toca fundo a questão da velhice. Este filme não poupou os espectadores de uma dor que muitos tentam mascarar: a da degradação do corpo, pela doença. Denso, como é próprio do diretor, o filme também critica a geração dos filhos que não conseguem enxergar a velhice dos pais. O foco é a relação do casal. A dedicação do marido, interpretado pelo grande ator Jean-Louis Trintignant à esposa que adoeceu, vivida pela antiga musa do cinema francês Emmanuelle Riva, tocou muitas pessoas no mundo todo. 

No cinema brasileiro, temos alguns ótimos filmes, interessantes para serem assistidos por educadores e alunos: 

O Outro Lado da Rua (2004), de Marcos Bernstein, vemos um show de interpretação de Fernanda Montenegro, Raul Cortez e Laura Cardoso. A partir do cotidiano do Rio de Janeiro, o filme discute o papel dos velhos na cidade, inclusive as oportunidades do amor e do sexo. 

Copacabana (2001), Carla Camurati dirige Marco Nanini que interpreta Alberto, prestes a completar 90 anos. Enquanto seus amigos lhe preparam uma surpresa, ele relembra os principais momentos de sua vida, sempre ligados ao bairro de Copacabana. Comédia filosófica que discute a velhice nos dias atuais, trazendo interpretações marcantes não apenas de Marco Nanini, mas também de Laura Cardoso, Miriam Pires, Tonico Pereira, entre muitos outros.

Chega de Saudade (2008), de Laís Bodanzky, mostra a terceira idade em um salão de baile. De protagonismo coral, com excelente elenco, traz uma reflexão sobre a sociabilidade e a vontade deste grupo de viver e de se divertir. Estão ali a idosa com mal de Alzheimer (Tônia Carrero), a mulher de meia idade que aceita um caso romântico incerto (Cássia Kiss), a mulher que se sente rejeitada (Betty Faria), o velho mau humorado mas apaixonado (Leonardo Vilar). Todos num salão de baile (único cenário do filme) em que, pela dança, se revelam alegria, ciúme, frustração, flerte e amizade. 

O cinema argentino já conquistou os brasileiros, especialmente pelos exímios roteiros. É muito difícil conseguir definir o gênero ou sub-gênero de alguns filmes argentinos que misturam drama, comédia, crítica política, tudo misturado: 

O Filho da Noiva (2001), o grande diretor Juan José Campanella equilibrou muito bem todos esses elementos e nos apresenta um drama familiar com momentos muito engraçados. O protagonista tem que lidar com o mal de Alzheimer da mãe, interpretada por Norma Alejandro (a mesma atriz do filme “Uma História Oficial”, drama sobre a ditadura militar argentina). É possível fazer uma relação com a falta de memória da mãe e a importância de não se esquecer da história latino-americana. 

Conversando com mamãe (2004) e Elsa e Fred (2005), dirigidos respectivamente por Santiago Carlos Oves e Marcos Carnevale. mostram outra perspectiva da velhice, completamente diferente da ideia de dependência, decadência ou passividade. Ambas trazem a atriz octogenária China Zorrilla  como protagonista.

Vale a pena também conhecer obras do cinema oriental que refletem sobre a velhice: Citamos três filmes muito sensíveis: A Balada de Narayama, obra-prima de Shohei Imamura (que ganhou a Palma de Ouro em 1983), Rapsódia em Agosto (1991), do grande diretor Akira Kurosawa, trata do relacionamento de uma avó, sobrevivente da bomba de Nagazaki, e seus netos. Hanami, Cerejeiras em Flor (2008) de Doris Dorrie, é uma produção Franco-alemã, mas trata da cultura oriental e os valores da velhice. 

Muitos outros filmes tratam do tema. O importante é que o cinema nos permita a prática da alteridade e nos apresente outros pontos de vista sobre uma questão inevitável, sobre a qual talvez gostaríamos de não pensar.  

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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