O início do ano é uma época de balanço, avaliação e sondagem de perspectivas futuras. Recapitulando o que foi o ano de 2015 para o país, especificamente na educação, creio que o fato marcante – até mais do que a substituição de um ministro [Renato Janine] que tinha respaldo de muitos especialistas – foi a ocupação das escolas paulistas por estudantes, em protesto contra a “reorganização” escolar proposta pelo governo estadual.

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Na prática, o plano do governo fecharia escolas, procurando ampliar o número de unidades com apenas um ciclo (fundamental ou médio). A proposta pode ter fundamentadas razões econômicas e relacionar-se à dinâmica demográfica, no entanto, o modo como a ideia foi lançada, praticamente sem diálogo, foi uma comédia de erros. Além disso, conforme apontam os críticos (sendo esta uma das bandeiras do movimento), o fechamento de escolas parece um contrassenso, devido à existência de classes com superlotação.
 
Senti surpresa ao ver como o movimento dos estudantes ganhou uma dinâmica veloz e expressiva. Lembrei-me de outros momentos da história em que a Fantasia deu um tapa na cara da Realidade. O maio de 1968, na França, e as chamadas “Jornadas de Junho” são exemplos. Em casos desse tipo, os desdobramentos são imprevisíveis, pode acontecer muita coisa, assim como nada. A energia catalisada pelo evento pode se dispersar, sem que haja uma direção clara de continuidade, nem uma compreensão precisa sobre que lições tirar do que aconteceu.
 
O que será o amanhã dessa mobilização? O que vem depois? Sabemos que o governo recuou, mas se este for o único legado do movimento, ainda que não negligenciável, talvez os estudantes tenham menos do que desejam e merecem.
 
Porém, o que eles “querem” precisa ser compreendido com mais clareza, pois embora a grande demanda seja uma educação de qualidade, o significado desse termo não é consensual. Muitos projetos podem acreditar concretizar essa meta. Foi em nome da melhoria da qualidade da educação, por exemplo, que o governo defendeu a separação de estudantes por ciclos nas escolas com a reorganização. 
 
Do ponto de vista estudantil, por outro lado, a análise do que representou a mobilização talvez possa ajudar a dar concretude a demandas não tão articuladas, mas latentes. Acompanho, por isso, com interesse as expressões midiáticas das ocupações, como é caso das páginas de Facebook que muitos estudantes criaram para divulgar as ocupações de suas escolas (aqui), bem como outros artefatos culturais, caso dos documentários Diário da Ocupação, Ocupar e Resistir, Ocupação Um e Escolas Ocupadas – A verdadeira reorganização. 
 
Num esboço de análise, a partir do que vi, preliminarmente pontuo algumas questões que chamam a atenção e se colocam como possíveis dimensões de avanços (ou pelo menos discussões) em reformas no sistema escolar:
 
1. Maior protagonismo do estudante em termos da participação nas decisões da instituição escolar. São inúmeras as imagens e conteúdos que mostram os jovens em situações que demonstram o desejo de assumir responsabilidades maiores no cotidiano escolar e na vida cidadã de maneira geral. Isto demanda gestões mais democráticas (em todos os níveis administrativos e de governo) e diálogo. Por sinal, o valor dado ao coletivo e ao debate nas ocupações é evidenciado com força nas inúmeras imagens de “rodas de conversa” e atividades coletivas;
 
2. Participação da comunidade na escola. A preocupação em envolver os pais, professores e outros adultos do entorno escolar, tanto em relação à prática de informar sobre, quanto nas atividades que se realizaram em muitas ocupações, parece indicar esse desejo por uma escola mais aberta;
 
3. Desejo de transparência nas gestões. Bastante expressivos são os relatos sobre as descobertas de materiais educativos guardados sem que se saiba a razão ou as críticas a professores e diretores autoritários;
 
4. Reformulação curricular. Quando se nota o tipo de atividade realizada durante as ocupações, conforme o que se vê nas páginas de Facebook e nos documentários, nota-se uma demanda por arte, cultura e temáticas contemporâneas (como as tecnologias de comunicação, o feminismo, a participação política e o midiativismo) que podem ser aspectos de reformas curriculares. Talvez se trate de uma preocupação ou interesse dos jovens em conectar mais a escola com a vida, e com dimensões que dizem respeito não só ao âmbito racional, mas também à emoção e à sensibilidade. Nesta perspectiva, são bastante interessantes os relatos sobre os aprendizados propiciados pela convivência durante a ocupação, que teria permitido a alguns participantes superarem preconceitos. Naturalmente, esse é um ponto a ser avaliado com mais investigação e rigor, porém – sendo esta provavelmente a grande lição das ocupações – tendo os jovens como parceiros de diálogo e construção, não apenas “públicos” a serem atingidos. 
 
Meus votos são que em 2016 estejamos à altura dos desafios colocados pelos jovens estudantes paulistas.
 
                    Fonte: Ocupação E. E. Fernão Dias Paes                 Fonte: Ocupação Eduardo Barnabé
 
 
                    Fonte: Ocupação da E.E João Kopke                 Fonte: Ocupação Do Astrogildo Arruda 
 
 
                    Fonte: Ocupação no Emygdio de Barros                         Fonte: Ocupa Caetano
 
 
                Fonte: E.E. Caetano de Campos – Consolação                      Fonte: Ocupação CG.
 
 
                    Fonte: Ocupação E.E. Castro Alves                             Fonte: Ocupa E. E. Diadema
 
 
                       Fonte: Não Mexa no Josepha                                 Fonte: Ocupação: Ana Rosa
 
 
                      Fonte: Movimento Ocupa CEDOM                            Fonte: AnhangueraOcupa
 

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Autor Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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