“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
(Tabacaria, Álvaro de Campos)

Fernando Pessoa nasceu há 125 anos, em 13 de junho de 1888, em Lisboa. O mais famoso poeta português deixou sua marca na literatura universal pela complexidade de sua obra, bem como pela criação de seus heterônimos – autores fictícios que possuem personalidade. “O mundo é plural, cada um de nós é plural, exatamente como esse poeta que se multiplicou em heterônimos”, analisa o crítico literário, autor de cinco livros sobre Pessoa, Carlos Felipe Moisés.
Para ele, não é por acaso que o poeta vem ganhando espaço cada vez maior na música popular, no teatro e na mídia em geral, nos últimos 70 anos. “A presença, a importância e a atualidade de Fernando Pessoa são, hoje, ainda mais intensas e marcantes do que em 1935, ano de sua morte”, completa ele, que está terminando de preparar a terceira edição do livro “O Poema e as Máscaras”, uma análise do poema “Tabacaria”.
Conheça mais sobre o poeta abaixo, em entrevista que Carlos Moisés concedeu ao NET Educação por e-mail.
NET Educação – O que acredita ser o mais inovador em Fernando Pessoa?

Carlos Felipe Moisés –
 Em todas as facetas da obra, a linguagem extremamente concisa em que a imaginação poderosa vem sempre acompanhada de inteligência raciocinante. O resultado é uma visão de mundo marcada por inabalável ceticismo e cortante ironia, que vão reduzindo a nada, uma a uma, todas as falsas ou meias verdades nas quais acreditamos.
NET Educação – Qual é o grau de importância de sua obra na atualidade?

Moisés –
 A poesia pessoana é, cada vez mais, um dos poucos focos de resistência de que dispomos, contra a desumanização que se vem abatendo sobre a sociedade contemporânea. Cada poema seu é um alerta contra a acomodação, a alimentar em cada um de nós o desejo de liberdade como conquista pessoal e não como dádiva concedida pelos donos do poder. Esse espírito de insubmissão, com o passar do tempo, foi deixando de ser “excentricidade” de poeta para se tornar revelação das perplexidades que dizem respeito a todos nós. Não é por acaso que nos últimos 70 e poucos anos, Pessoa vem ganhando espaço cada vez maior na música popular, no teatro, na mídia em geral, para além do limitado círculo dos críticos e especialistas. A presença, a importância e a atualidade de Fernando Pessoa são, hoje, ainda mais intensas e marcantes do que em 1935, ano de sua morte.
NET Educação – O poeta é conhecido como o mais famoso exemplo na produção de heterônimos. O que são eles e o que significam?

Moisés – Heterônimos, mais do que nomes falsos [pseudônimos], são personagens como as do romance ou do teatro. Isto é, são seres imaginários, caracterizados cada qual por sua individualidade intransferível, por sua personalidade própria, e sobretudo por seu estilo inconfundível. Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares [heterônimos de Pessoa] e todos os demais são “indivíduos” substancialmente diferentes do seu criador, embora participem todos, cada qual a seu modo, de uma só visão de mundo.
Ao criar os heterônimos, Pessoa retratou a condição crucial do homem moderno: cada um de nós é plural e diversificado, contraditório, nenhum de nós é capaz de ser igual a si mesmo o tempo todo, todos nós variamos de temperamento, de atitude, de disposição (ou de indisposição), no enfrentamento com o mundo fragmentado que nos cerca. Conclusão: melhor do que falar em heterônimos é falar em consciência heteronímica, de si mesmo e da realidade em volta. O mundo é plural, cada um de nós é plural, exatamente como esse poeta que se multiplicou em heterônimos.
NET Educação – O que destacaria como poemas essenciais para se conhecer Fernando Pessoa? Por quê?
Moisés – Os poemas essenciais de Fernando Pessoa são muitos, impossível ficar com um só. Primeiro, porque a excepcional qualidade de sua poesia está presente em quase tudo o que escreveu; segundo, porque em razão da pluralidade heteronímica, é preciso que cada leitor escolha o poema ou a faceta que mais o atraia, ou com a qual mais se identifique. E, a rigor, qualquer escolha levará ao “essencial” do poeta. Não faria muito sentido dizer, sobretudo ao jovem leitor, “olhe, aqui está o poema que você deve ler, para atinar com o essencial do Pessoa”. Cada leitor deve fazer a sua escolha.
Mas não me furto a responder. A “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, é uma excelente porta de entrada, uma espécie de síntese daquela desconcertante visão de mundo que mencionei anteriormente. Ou então o poema XXIV da série “O Guardador de Rebanhos”, assinado por Alberto Caeiro, aquele que começa com “o que nós vemos das cousas são as cousas”, e mais adiante registra esta frase paradoxal, lapidar: “uma aprendizagem de desaprender”. Tendo aprendido, a tarefa que então devemos enfrentar é… Desaprender, para nos livrarmos das falsas verdades.
E poderia ser também a “Autopsicografia”, assinada por Fernando Pessoa, um diagnóstico definitivo do que é, em sua essência, a condição do poeta (“o poeta é um fingidor”), e um alerta para o fato de que a poesia está sempre na dependência dos leitores, que no geral não estão interessados nas “dores” do poeta, mas só nas dores que eles, leitores, não têm. E a lista dos poemas essenciais de Fernando Pessoa, no meu modo de ver, poderia prosseguir por páginas e páginas.
NET Educação – É possível fazer relação da obra com a vida pessoal do autor?
Moisés – Sim, a relação vida-obra sempre existe e no caso de Fernando Pessoa, pode ser esclarecedora. Primeiro, a perda do pai, aos sete anos de idade; em seguida, o convívio com o padrasto e com os meios-irmãos – uma família na qual ele se sentiria um pouco à margem, “estrangeiro aqui como em toda a parte”, como dirá Álvaro de Campos; depois, a longa temporada que ele passou na África do Sul, dos sete aos dezessete anos de idade, tendo o inglês e a literatura inglesa como o foco central das suas atenções, e conhecendo de perto o grande Império Britânico, modelo dos grandes impérios modernos, em contraste com o antigo império que os portugueses haviam conquistado e perdido – ali mesmo, na África do Sul, perto de Capetown, que os antepassados do poeta haviam fundado no século XVI, a Cidade do Cabo. Por fim, o regresso à Lisboa, já decidido a se empenhar integralmente na criação literária, daí não ter fincado raízes, não ter criado família, ter morrido solteiro, ter tido poucos amigos. Mas é preciso tomar cuidado com a tentação de tomar a vida como “causa” direta e exclusiva do que temos na obra.
NET Educação – Para quais ensinos e aprendizados, professores e educadores podem se utilizar de sua obra?
Moisés – O que posso sugerir é começar pelos textos (dos muito longos vale até apresentar apenas algumas passagens), oferecendo aos alunos, de todos os níveis, a oportunidade de testar, experimentar, ir apalpando aos poucos a diversidade, a heterogeneidade e as contradições que falei. Depois, só depois, preocupar-se com a biografia, o panorama de época, questões complexas e abrangentes como os heterônimos, o ceticismo, a visão de mundo, as opiniões da crítica especializada e etc. Nada disso deve anteceder e “preparar” o primeiro contato – que deve ser sempre, repito, com o texto.
Assim, quando chegar ao nível das generalizações, o aluno poderá lidar com elas de forma segura, consistente e legítima. Um exemplo prático seria, no momento certo, não logo de início, pedir a cada aluno que crie um heterônimo, um só, começando pelos poemas ou pela prosa que este escreveria, com estilo próprio, diferente do estilo do aluno. Depois (é sempre estimulante) criar uma biografia para o heterônimo.
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