Por Prima Página
Quando o assunto é a relação entre educação e esporte, poucos podem falar com tanta autoridade quanto Ana Moser. Campeã mundial juvenil de vôlei em 1987, medalha de bronze na Olimpíada de Atlanta, em 1996, tricampeã do Grand Prix e campeã mundial de clubes em 1994, a atacante começou no esporte com apenas 7 anos, graças à cultura de vôlei presente em sua cidade natal, Blumenau (SC).
Mais tarde, na escola, praticou outras modalidades, especialmente o atletismo, em que competiu nacionalmente até os 14 anos. No entanto, pesou a favor do vôlei o fato de ser um esporte coletivo; Ana deixou de lado o atletismo e passou a se dedicar exclusivamente às quadras. Com 16 anos (1985), se mudou para São Paulo a convite da Transbrasil para fazer parte do time patrocinado pela empresa. Dois anos depois, disputou os primeiros torneios com a seleção adulta. Escreveria uma história vitoriosa ao lado de jogadoras como Márcia Fú, Fernanda Venturini, Ana Flávia, Ana Paula, Leila e Hilma.
Em 1998, um ano antes de encerrar a carreira, ela deu início a um projeto de formação de atletas que tinha como fundamento o ensino de vôlei em escolas públicas e privadas do país. A iniciativa inspirou a criação do Instituto Esporte & Educação (IEE), que existe há 11 anos e atende diretamente 8 mil jovens em quatro estados, levando a eles uma metodologia de esporte educacional.
Nesta entrevista, Ana Moser avalia o papel do esporte na educação e afirma: “quando em contato com atividades esportivas, os alunos resolvem melhor os conflitos, cuidam melhor do espaço e dos colegas, e fortalecem as lideranças positivas”.
NET Educação: O que o esporte trouxe de positivo para a sua vida? Contribuiu para sua educação e formação como pessoa?
O esporte me ajudou a aprender a lidar com tudo na vida, já que por muitas vezes me colocou diante de problemas a serem resolvidos e escolhas para serem feitas. As atividades esportivas exigem dos atletas pensamento rápido, firme e objetivo; são realizadas operações mentais em décimos de segundos, em coordenação com o corpo que as executam. Ou seja, o esporte desenvolve o pensamento e a ação, além da relação com as pessoas e o trabalho em grupo. No voleibol, por exemplo, ninguém faz nada sozinho. Como profissional do esporte convivi com diferentes setores, desde a ciência – medicina e fisioterapia -, passando pela relação com as empresas, marketing e comunicação, até relações políticas, nacionais e internacionais, por meio de federações esportivas e fóruns de discussão de políticas de esporte. Tudo o que sou hoje desenvolvi dentro e por meio do esporte.
NET Educação: Como avalia o papel do esporte na educação? É importante trabalhá-lo nas escolas?
O esporte ajuda a pensar melhor, faz uso de corpo e mente de maneira integrada e permite o trabalho em grupo. Além de ser divertido, aguça a criatividade e é imprevisível. Claro que aqui não estou falando do mesmo esporte disputado por profissionais; as escolas vão necessitar de adaptação, mas o ideal é que já tenham a intenção de incluí-lo entre as atividades dos alunos.
No Instituto Esporte & Educação, por exemplo, temos resultados que mostram que os alunos, quando em contato com o esporte, resolvem melhor os conflitos, cuidam melhor do espaço e dos colegas e fortalecem lideranças positivas. As regras dos jogos e de convivência, quando construídas coletivamente, são um exercício vivido de democracia participativa e ajudam a organizar a escola como um todo.
NET Educação: Acredita que a disciplina de Educação Física explora corretamente as possibilidades do esporte em meio ao currículo escolar? Qual tipo de abordagem julga ideal nas escolas, tendo em vista teoria e prática?
Para que os benefícios do esporte e das atividades motoras sejam atingidos é preciso que haja coerência entre as teorias (apontadas pelos PCNs) e as práticas da educação física nas escolas. Na maior parte dos casos, os professores não são preparados para desenvolver a Educação Física para todos os alunos. Isso porque aplicam, muitas vezes, os mesmos métodos de aula direcionados aos atletas, que são especializados em determinadas modalidades.
O esporte precisa ser acessível a todos – para o “bom de bola”, o baixinho, o gordinho, o menino e a menina juntos – e, para isso, deve ser adaptado. O IEE trabalha com a metodologia dos jogos esportivos, com foco no desenvolvimento das habilidades motoras e táticas (estratégias), desde os jogos mais simples até os mais complexos, que vão se aproximando das modalidades específicas (como vôlei, handebol, futebol, ginástica etc.).
O professor só consegue aplicar uma metodologia se tiver alinhado intenção pedagógica, planejamento e prática. Por vezes vemos que falta este preparo e também o apoio por parte das escolas e das redes de ensino nesse sentido.
NET Educação: Por que é importante trabalhar o esporte na escola? Quais habilidades e competências são desenvolvidas a partir das práticas esportivas?
Além das habilidades e competências motoras, tornam-se presentes na experiência dos jovens que mantêm contato com o esporte a comunicação, a liderança e o protagonismo. Em pesquisas realizadas com alunos que participam do programa do IEE, aparecem resultados satisfatórios como: melhoria na comunicação entre pais e filhos, na participação dos alunos na escola (alguns eleitos líderes da turma); surgimento do interesse em cursar uma faculdade e obtenção de sucesso em entrevistas de emprego (70% dos jovens que frequentam o Instituto Esporte e Educação estão empregados ou estudando).
No projeto de monitoria esportiva desenvolvido nos Núcleos do IEE, os jovens participam como assistentes dos professores nas atividades com alunos mais novos, organizam e realizam eventos (esportivos, culturais e outros), se reúnem em times e fazem seu próprio campeonato, entre outras ações.
NET Educação: Como nasceu a ideia do Instituto Esporte & Educação? Qual o objetivo da instituição?
O Instituto nasceu há 11 anos a partir da ideia de levar o esporte para todos, por meio do desenvolvimento de uma metodologia de esporte educacional, da formação de professores e educadores para o setor e do atendimento direto de crianças e jovens em Núcleos Esportivos. O IEE hoje tem cerca de 8 mil alunos em 4 Estados, em espaços de parceiros (escolas, prefeituras, clubes comunitários etc.). Além disso, desenvolve projetos de formação de professores em 15 Estados, onde dissemina conteúdos e práticas de esporte educacional.