A pedagogia da escuta é uma abordagem que reconhece as crianças como sujeitos ativos no processo de aprendizagem. Desenvolvida no contexto de democratização das relações pós-Segunda Guerra Mundial, em Reggio Emilia, na Itália, a proposta valoriza a observação e a interpretação das diferentes formas de expressão das crianças, assim como a sua opinião e participação.

“Tudo começa com a atenção à criança, a capacidade de observá-la e o interesse e a disposição para conhecê-la. Mas isso não é suficiente. O professor precisa ter referências sobre infância, culturas infantis, pensamento das crianças e de seu desenvolvimento para interpretar aquilo que observa. Por isso, não se trata apenas de ouvir as crianças, palavra vinculada à dimensão física, mas interpretação e reflexão do professor sobre o que é observado”, resume a doutora em educação e professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Maria Carmen Silveira Barbosa.

Instituto Claro: Em qual contexto nasceu a pedagogia da escuta?

Maria Carmen Silveira Barbosa: Na passagem do século XIX para o XX, intensificaram-se as críticas à escola tradicional, em especial à ausência de voz das crianças no processo de aprendizagem e na pedagogia centrada na figura do professor, que detinha o conhecimento, ensinava e controlava o processo educativo. Havia o desejo de construir uma nova escola, que não fosse apenas informativa. Os países que fizeram atrocidades na guerra eram escolarizados, portanto, era necessário não apenas a escolarização, mas a formação humana. Assim, a escuta estava alinhada ao pensamento de democratização das relações no pós-guerra. Outro fator foi a entrada das mulheres no mercado de trabalho durante a guerra e a necessidade de criar creches para seus filhos.

Como a pedagogia da escuta se desenvolveu na abordagem de Reggio Emillia?

Barbosa: A discussão sobre a participação e a escuta das crianças ganha força na Itália do pós-Segunda Guerra Mundial. A busca por uma nova pedagogia acontece em Reggio Emilia, no norte da Itália, com a criação de creches pelo educador Loris Malaguzzi (1920–1994), onde atuava a pedagoga Carla Rinaldi. A proposta era estabelecer uma pedagogia para além do cuidado e controle, tratando as crianças com respeito e dignidade. Surge a ideia de que as crianças possuem cem linguagens, expressão metafórica para as inúmeras possibilidades de comunicação, expressão, criação e construção do conhecimento.

Décadas mais tarde, essa concepção de pedagogia da escuta chega à Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1989, que menciona o direito de as crianças expressarem suas opiniões e serem ouvidas nos assuntos que lhes dizem respeito.

Quando falamos em “escutar” uma criança, do que se trata exatamente?

Barbosa: É o adulto colocar sua atenção nelas, e não apenas nos conteúdos a serem ensinados. É buscar conhecer essas crianças, quem são e como se expressam nas diferentes linguagens que utilizam. É um processo que se desenvolve ao longo do tempo e no qual o registro do que o professor observa é importante. Em Reggio Emilia, foi desenvolvida a documentação pedagógica para acompanhamento dos processos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. Os registros são feitos tanto pelos professores, que fazem suas anotações, quanto pelas próprias crianças.

Há diferença entre observar o comportamento de uma criança e realizar uma escuta pedagógica?

Barbosa: Tudo começa com a atenção à criança, a capacidade de observá-la e o interesse e a disposição para conhecê-la. Mas isso não é suficiente. O professor precisa ter referências sobre infância, culturas infantis, pensamento das crianças e de seu desenvolvimento para interpretar aquilo que observa. Por isso, não se trata apenas de ouvir as crianças, palavra vinculada à dimensão física, mas interpretação e reflexão do professor sobre o que é observado.

Uma criança que sai correndo pelo pátio e derruba colegas pode fazê-lo por diferentes motivos: apenas observar a cena não permite compreendê-la.

Como a escuta pode se transformar em propostas pedagógicas?

Barbosa: O professor pode transformar seu planejamento, aproximando-o das necessidades e interesses das crianças, em vez de trabalhar com propostas desconectadas delas. Ao observar, por exemplo, o que elas gostam de fazer no pátio, quais atividades despertam seu interesse e quais crianças parecem mais perdidas nos espaços, o professor pode pensar em novas possibilidades de exploração e aprendizagem.

O conhecimento e o currículo deixam de ser algo produzido exclusivamente pelo adulto, mas a partir da relação entre o professor, as crianças e os conhecimentos que orientam a prática pedagógica.

Em qual idade a pedagogia da escuta deve ser aplicada?

Barbosa: As pesquisas se concentram nas crianças pequenas e nos anos iniciais do ensino fundamental, quando há um professor polivalente mais horas por semana com a turma. É diferente de um professor do ensino fundamental II ou do ensino médio. Não temos muitas experiências com esses estudantes mais velhos. Mas a ideia de escutar e fazer conexões com os conhecimentos escolares é algo que qualquer professor pode fazer, a partir das coisas de que os estudantes gostam. É preciso descobrir onde eles se emocionam, quais aspectos da vida os mobilizam, e estabelecer alguma ponte com os conhecimentos escolares. Assim, o conhecimento escolar passa a ter sentido.

Existem limites ou dificuldades para implementar uma pedagogia da escuta nas escolas brasileiras?

Barbosa: O primeiro é o preconceito em relação aos mais jovens, a ideia de que adultos sabem mais, quando o processo educativo é sempre intergeracional, cada uma levando aquilo que tem. É preciso respeito nessa relação. O segundo desafio é a formação dos professores para a escuta. Um terceiro é como enriquecer esse processo nas turmas com mais crianças e mais velhas. Podem-se criar, por exemplo, momentos de reunião em que os professores possam conversar sobre as crianças.

Qual conselho você daria para o professor que deseja escutar seus estudantes?

Barbosa: Fazer pequenos experimentos com sua turma. No recreio, por exemplo, pode observar que as crianças estão conversando sobre determinados assuntos. Além disso, a educação é feita para eles e com eles. É importante que possam participar, refletir e escolher estratégias de ensino.

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Crédito da imagem: FG Trade Latin – Getty Images

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