As doenças mentais ocupam hoje parte significativa das licenças médicas dos professores da educação básica pública em todo o país, como aponta o secretário de Saúde da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Alessandro Sousa Carvalho.
“O adoecimento docente está relacionado à baixa valorização profissional, à precarização das condições de trabalho, à cobrança excessiva por metas, ao desgaste emocional e a relações hierárquicas autoritárias, que podem resultar em assédio moral. Essas causas variam conforme a realidade de cada estado e município, exigindo diagnósticos locais para orientar as soluções”, resume.
Esse problema estrutural traz desafios para o retorno do professor afastado ao trabalho.
“É complicado pensar apenas em estratégias individuais para um problema que é coletivo. Não é o professor que precisa se adaptar, mas identificar o que está acontecendo nas escolas e os fatores que estão levando ao adoecimento”, defende a médica psiquiatra Ana Luisa Barquete.
“Uma pessoa voltar ao trabalho imaginando que vai encontrar situações relacionadas, em alguma medida, às causas do seu sofrimento e afastamento não é a mesma coisa que retornar entendendo que algo mudou”, pondera a terapeuta ocupacional e PhD em ciências no campo da Saúde Pública e Saúde do Trabalhador Amanda Silva, que pesquisou o afastamento de professores por questões médicas.
“Não adianta afastar o professor de um ambiente que o adoeceu e, após o tratamento, devolvê-lo ao mesmo local. É preciso combater as causas desse adoecimento”, reforça Carvalho.
Dentro dos limites apresentados, algumas medidas do campo individual e da gestão podem ajudar o professor afastado por adoecimento mental para que esse processo seja menos traumático.
Retorno é definido junto à perícia
Barquete explica que, para saber se o professor está pronto para retornar, é preciso considerar o motivo do afastamento, a gravidade e a evolução dos sintomas. O retorno deve ser definido em conjunto com a avaliação de saúde mental e, nos casos de afastamento superior a 15 dias, com a perícia do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que avalia a capacidade do profissional para voltar às atividades. “É complexo porque nem sempre todos estão de acordo com essa decisão, e é algo que pode variar caso a caso”, afirma a psiquiatra.
Retorno deve ser gradual
O profissional afastado pode retornar gradativamente para atividades que não sejam, a priori, de sala de aula.
“Entendi, durante o meu estudo, que existia uma diferença entre o que informa a literatura especializada e o que é possível. Entre as entrevistadas, encontrei poucas experiências escolares em que a gestão teve condições de flexibilizar tempo ou carga de trabalho para professoras que retornavam à sala de aula”, compartilha Silva.
Quando possível, discutir o retorno com gestão e coordenação pedagógica
“O ideal seria a coordenação e a gestão conversarem com a professora para planejar esse retorno junto com ela, considerando tanto as necessidades da escola quanto suas capacidades e condições naquele momento”, orienta Silva.
“O papel da direção e da coordenação pedagógica na reinclusão do professor após afastamento por saúde mental vai desde o acolhimento emocional até uma reestruturação operacional do escopo de funções do docente, respeitando as limitações atestadas. Mas, para além do esforço da gestão escolar, é necessário que as redes de ensino estruturem políticas públicas que visem ao combate do adoecimento, para não repassar mais uma responsabilidade para a escola”, adiciona Carvalho.
Professor tem direito de manter privacidade sobre assunto
O docente não precisa compartilhar o assunto com pessoas além do necessário ou do seu desejo. “Ainda percebo em muitos ambientes de trabalho uma certa descrença em relação ao sofrimento psíquico como algo incapacitante. E, a partir disso, surge o julgamento direcionado à pessoa que está doente, muitas vezes, adoecida justamente pelo trabalho”, reforça Silva.
Manutenção do tratamento
Como os transtornos mentais podem ter recorrência ao longo da vida, e o trabalho do professor pode ser um fator de estresse, a interrupção do tratamento pode aumentar o risco de recorrência.
“Por isso é importante acompanhar o paciente de perto e reavaliar as estratégias, seja o tratamento medicamentoso ou outras formas de cuidado. Também é importante identificar sinais precoces de piora para intervir a tempo”, conta a psiquiatra.
Visitar a escola antes do retorno
“Dependendo do caso, também pode ser interessante a professora fazer algumas visitas à escola antes do retorno. Isso pode ajudar a sentir o ambiente novamente, rever colegas e diminuir a ansiedade em relação à volta”, afirma Silva.
Quando possível, realizar pausas
“O ideal é ter autonomia e liberdade suficientes para organizar o trabalho de modo que as pausas possam acontecer quando o corpo sinalizar a necessidade delas”, diz Silva.
“Descanso é sempre fundamental”, acrescenta a psiquiatra.
Tentar formas de manejo do estresse
“O manejo do estresse pode incluir práticas como mindfulness e meditação, que têm respaldo em estudos científicos, além de atividade física e sono adequado”, informa Barquete.
Retornar a atividades não laborais
O adoecimento mental também interfere em outras dimensões da vida de quem foi afastado, podendo levar ao isolamento e ao afastamento de hobbies, esporte, lazer, família e amigos. “Uma pergunta importante é: seria possível retomar, ressignificar ou transformar essas outras rotinas da vida?”, sugere Silva.
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