O teatro cientifico apresenta aos estudantes, por meio da representação cênica, saberes relacionados às ciências da natureza, matemática, tecnologia, entre outros.
“Eles podem partir de histórias de cientistas, conceitos, formas de fazer ciência ou resultados de pesquisas”, explica a coordenadora do Grupo de Teatro Científico da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Leila Inês Follmann Freire.
“Quando esses elementos aparecem em uma peça como inspiração ou parte central da narrativa, temos o teatro científico. Se a ciência for retirada e a história continuar fazendo sentido, então, não se trata de teatro científico. É a ciência que deve mover a narrativa”, completa.
Entre os benefícios pedagógicos do teatro científico está a possibilidade de promover uma aprendizagem significativa.
“Ao contar histórias e abordar temas com os quais o público pode se identificar, o teatro cria uma relação cotidiana e pessoal com a ciência, conectando-a às experiências de vida e aos contextos de cada pessoa”, afirma Freira.
“As visualidades, os gestos, o corpo e a construção da cena contribuem para apresentar conceitos científicos para além do texto. Ou seja, engaja os estudantes por meio de uma experiência afetiva e estética”.
Ida ao teatro
Na educação básica, o teatro científico pode se dar de duas maneiras: levando os alunos para que assistam a uma experiência teatral ou eles próprios criando uma peça.
No primeiro caso, a escolha da peça dependerá da intencionalidade do professor em abordar um determinado conteúdo, devendo o docente se atentar à classificação indicativa da produção.
O ator e diretor do Grupo de Teatro Seara da Ciência, do Museu Científico da Universidade Federal do Ceará (UFC), Renato Rodrigues, recomenda ao professor pensar em instrumentos de continuidade antes e depois da peça.
“Antes da peça, estimular os estudantes a demonstrar seus conhecimentos e experiências prévias”, orienta.
“Após a apresentação, levá-los a debater sobre o que foi mostrado, em rodas de conversa nas quais curiosidades podem se descortinar a partir de réplicas e imagens, com proveito para criar conexões com os temas escolares”, adiciona.
“Os estudantes podem escrever ou desenhar sobre o que viram, ouviram e sentiram durante a experiência, além de refletir sobre os conhecimentos científicos e a forma como a ciência foi apresentada. A partir dessas produções, o professor pode trabalhar conceitos científicos e diferentes concepções de ciência presentes na peça”, acrescenta Freira.
Para ela, se a peça for usada para introduzir um determinado assunto, o ideal é não antecipar conteúdos. “Se os alunos já estudaram determinado conteúdo, o professor pode orientá-los a observar como os conceitos científicos são apresentados na peça e relacioná-los ao que já aprenderam”.
Muitos são os grupos de teatro científico no Brasil, geralmente vinculados a universidades e instituições de ensino e de pesquisa. Rodrigues ainda recomenda os grupos Tubo de Ensaio (Facedi/UECE), FANÁTicos da Química (UERN), Alquimia (UNESP/Araraquara), Coletivo Passarinha (Unicamp), Núcleo Ouroboros e o Grupo Olhares (ambos da UFSCar).
Criando uma peça
Se o objetivo for montar uma peça de teatro científico com os alunos, o texto pode ser pronto ou criado. Em ambos os casos, o tema deve ser de interesse da turma, para gerar envolvimento. “Quando pronto, partimos com os alunos do estudo do próprio texto e de seus personagens”, descreve Freire.
“Se o texto for criado, vamos estudar o conteúdo cientifico, pensando em formas de transpor esse conhecimento para a linguagem artística”, afirma Freire.
Rodrigues explica que os passos são semelhantes aos da montagem de qualquer espetáculo teatral: pesquisar, discutir, criar um roteiro, experimentar e ensaiar, realizar a montagem e a produção e, por fim, apresentar. “O processo deve contar com leitura, bibliografia de apoio e o acompanhamento de pelo menos um docente para auxiliar na pesquisa”, indica.
Sobre o roteiro, Freire lembra que é necessário definir o tema, o público, a estética e a linguagem da peça. Ele pode ser criado a partir de improvisações dos alunos, desenvolvendo personagens, história, clima, ponto alto e desfecho.
“Depois de feito, ensaiar e planejar a montagem de acordo com o espaço, o público e as condições da apresentação, adaptando cenário, iluminação, entre outros. A projeção de voz em uma peça apresentada em uma quadra será diferente da apresentada em um espaço fechado”, complementa a diretora.
A peça pode incorporar experimentos? “Sim, dependendo da função deles na narrativa. Caso não agregue algo essencial à história, é desnecessário. Além disso, sua realização exige cuidados específicos com segurança”, pontua Freire.
Equilíbrio entre ciência e arte
Segundo os dois diretores, um desafio da produção de uma peça de teatro científico é a harmonia entre ciência e arte.
“A gente não pode fazer uma peça de teatro científico para ser somente uma aula de ciências, pois a experiência deve ser também estética. Ou seja, eu preciso ter uma visualidade e um envolvimento afetivo das pessoas com uma peça de teatro. Ela tem que chamar a atenção por meio do figurino, da interpretação dos atores para envolver o público. Ao mesmo tempo, é necessário rigor ao abordar ciência”, opina Freire.
“A peça deve nascer da vontade simultânea de comunicar a ciência com arte e expressar a arte com ciência”, sintetiza Rodrigues.
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Crédito da imagem: Colin Hawkins – Getty Images