Em 22 de agosto é celebrado o Dia do Folclore, data instituída em 1965 e presente no calendário escolar de diferentes redes de ensino do país. O uso do termo que dá nome à data, porém, tem sido cada vez mais questionado, por representar de forma distorcida dimensões sagradas da cultura de diferentes povos originários.

Seres frequentemente ensinados nas escolas como personagens folclóricos — como curupira, boitatá e ‘saci’ — integram cosmovisões, crenças espirituais e relações ancestrais com a natureza de diferentes povos, fazendo parte de sua identidade.

“Os termos ‘lenda’ e ‘folclore’ acabam sendo problemáticos porque colocam os conhecimentos dos povos indígenas no lugar da fantasia e ficção. Só que essas histórias não são criadas para a gente fantasiar o mundo. Para muitos povos indígenas, essas narrativas integram nossa cosmologia: explicam, por exemplo, a origem do mundo, a relação com a natureza e com os seres que a habitam, que fazem parte das nossas espiritualidades e estão em várias dimensões da vida”, explica o comunicador guarani do Museu de Culturas Indígenas (MCI) Leandro Karaí Mirim.

Folclorização

O termo “folclore” (folklore, em inglês) foi usado pela primeira vez em 1846 pelo escritor britânico William John Tons com significado de “cultura popular.

Historiadora, mestra em educação e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Arqueologia, Etnologia e História Indígena da Universidade Federal de Uberlândia (INCIS/UFU), Tássita de Assis Moreira explica que sua origem ocorre em contexto diferente do brasileiro, onde passou a ser utilizado para identificar espiritualidades indígenas, em um processo conhecido por folclorização.

“Histórias e conhecimentos indígenas foram retirados de seus contextos culturais e espirituais e transformados em personagens. Folclorizar nossas culturas é um problema grande, porque elas não são lendas ou ficções; muito pelo contrário, são memórias vivas dos nossos povos”, complementa Mirim.

Além disso, as tradições espirituais passaram a ser reinterpretadas e popularizadas por escritores brancos sem vivências próximas com pessoas indígenas, particularmente Monteiro Lobato. Um elemental protetor das florestas conhecido na cosmologia guarani como Jaci Jaterê, por exemplo, passou a ser apresentado como um menino negro travesso de uma perna só chamado Saci-pererê.

“Esse processo contribuiu bastante para invisibilizar povos indígenas e reduzir a complexidade dos nossos conhecimentos tradicionais”, pondera Mirim.

Reflexo da colonização

Moreira explica que o processo de folclorização de saberes indígenas é fruto da colonização, por ter sido construído a partir do olhar do colonizador branco, que buscava deslegitimar as espiritualidades originárias diante do cristianismo. Nesse processo, conhecimentos e práticas espirituais deixaram de ser reconhecidos como sistemas legítimos de saber e religião.

“Isso é uma forma de deslegitimar, de diminuir essas culturas, para que seja possível apagar esses povos. Porque o intuito da folclorização, assim como o da colonização, é extinguir tudo aquilo que não corresponde ao padrão branco. E, com certeza, a folclorização contribui para o apagamento e para a distorção das espiritualidades”, opina.

“O principal impacto é reforçar bastante os estereótipos e fazer parecer que esses conhecimentos pertencem só ao passado ou a um imaginário mítico e popular. Isso dificulta que a sociedade reconheça que esses saberes e essas histórias vivas são formas de vida, conhecimento, filosofia, espiritualidade e também ciência”, destaca Mirim.

Encantados

⁠Outro ponto lembrado por historiadores e educadores indígenas é que a forma como seres como Curupira, Boitatá e “Saci-pererê” são entendidos varia de acordo com cada cultura indígena. O Brasil possui aproximadamente 391 povos originários.

“É importante não generalizarmos esses seres espirituais, porque não existe uma visão única sobre eles. Cada povo constrói um sentido bem específico para esses seres”, pontua Mirim.

“A generalização contribui para apagar as nossas diversidades enquanto povos indígenas, como se existisse só uma cultura indígena”, adiciona.

A seguir, os educadores apresentam cinco orientações para professores da educação básica na hora de trabalhar o Dia do Folclore com a turma respeitando os saberes de diferentes povos originários.

1) Desassocie o termo “folclore” de saberes indígenas

Se o objetivo é abordar as diferentes espiritualidades presentes nas culturas indígenas, evite usar os termos “lendas” e “folclore”. “Se folclore significa lenda e, dentro da nossa sociedade, a gente considera a lenda como fantasia, como algo que não existe na realidade, então as histórias indígenas definitivamente não são folclore”, diz Moreira.

2) Atualize as terminologias

Para tratar das narrativas de seres espirituais indígenas, Moreira indica os termos “saberes indígenas” ou “histórias indígenas”. Já para se referir aos seres que aparecem nas narrativas espirituais, uma opção é usar “encantados”.

3) Identifique de qual povo vem cada narrativa

Na hora de falar dos encantados, o mais importante é reconhecer que eles pertencem a povos específicos. “Sempre que possível, ouvir as próprias pessoas indígenas sobre essas histórias”, reforça Mirim. Sobre alguns dos encantados que podem ser mencionados:

  • Curupira: para os tupinambás, do território de Santarém (PA), a Curupira é uma protetora da floresta. Caçadores que buscam sua subsistência pedem permissão para buscar alimento. A árvore Samauma é sua casa, e os caçadores costumam deixar uma oferenda para ela em agradecimento.
  • Jaci Jaterê: “Para os guaranis, é um ser espiritual, pequenininho, bem pequeno, quase minúsculo. Eles são muitos, meio saltitantes, protetores da natureza”, descreve Mirim.
  • Boto: para os tupinambás, é um ser espiritual ligado às águas, capaz de transitar entre o mundo humano e o mundo dos rios. “Já os macuxis possuem uma versão feminina do boto”, lembra Moreira.
  • Cobra Grande: também presente na cosmologia tupinambá, costuma se apresentar como uma serpente gigantesca que vive nas profundezas dos rios, sendo vinculada à proteção das águas.

4) Entenda o contexto cultural de cada história

“Em vez de perguntar se são verdadeiras ou falsas, vale entender qual é o sentido que elas têm para aquele povo e o que ensinam sobre a relação entre os seres humanos, o território e a natureza”, contrapõe Mirim.

5) Substituta Monteiro Lobato por autores indígenas

Para Moreira, é importante substituir obras de escritores como Monteiro Lobato por livros produzidos por autores indígenas. Entre as indicações da pesquisadora estão “Isso tudo é encantado: histórias, memórias e conhecimentos dos povos amazônicos”, de Florêncio Almeida Vaz Filho e Luciana Gonçalves de Carvalho; “Contos da Floresta”, de Iaguarê Yamã; e as obras de Olívio Jekupé.

“São livros que as pessoas indígenas escreveram a partir das histórias que ouviram dos seus antepassados”, aponta.

“Quando o professor não se posiciona dessa forma, está colaborando para o apagamento das culturas originárias e das suas espiritualidades também”, finaliza.

Veja mais:

‘Dia do índio’: 11 atividades para trabalhar a data na escola

Crédito da imagem: Carlos Duarte – Getty Images

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