A depressão em alunos é uma realidade no ambiente escolar ainda desconhecida e pouco abordada. “Não é tristeza, drama ou preguiça, mas um transtorno que afeta a saúde mental, caracterizando-se por sentimentos persistentes de tristeza, desesperança, perda de interesse ou prazer, alterações no sono e no apetite, fadiga e dificuldade de concentração”, lista a doutora em Educação e pós-doutora em Psicologia Milena Aragão.

Segundo ela, alguns professores enxergam a depressão em alunos como um caso isolado, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 10% e 20% dos adolescentes no mundo sofram com o transtorno. “Ou seja, são de quatro a oito estudantes em cada sala de 40 alunos”, exemplifica Aragão.

“Outra falsa crença é a de que todo aluno que sofre com depressão está diagnosticado e em tratamento, quando a realidade é a subnotificação de casos.”

Pós-doutor em Psicologia e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia da Saúde da Universidade Federal de Sergipe (UFS), André Faro afirma que o primeiro passo para quem atua no cotidiano escolar é desmistificar a depressão como algo que se manifesta somente como tristeza e passividade.

“Ela está na mudança brusca de comportamento: o aluno excelente que para de entregar tarefas ou que passa a responder com agressividade. A dor do jovem pode virar revolta ou isolamento, mas, por dentro, ele vivencia apatia e culpa. Percebe que está falhando, quer corresponder às expectativas, mas o cérebro não responde.”

Conhecimentos básicos

Aragão e Faro atuam no Projeto MAR (Manejar, Aprender e Reavaliar), iniciativa da UFS que capacita professores do ensino médio da rede estadual de Sergipe para o manejo de quatro demandas críticas de saúde mental entre adolescentes: depressão, autolesão, comportamento suicida e ansiedade.

A formação é realizada por meio de oficinas híbridas, e eles ainda oferecem gratuitamente, em seu site, materiais didáticos com linguagem adaptada para gestores, equipes de apoio e adolescentes.

Para os dois especialistas, alguns conhecimentos básicos sobre depressão em jovens ainda precisam ser difundidos entre docentes, como:

  • A depressão pode aparecer como irritabilidade, reatividade ou isolamento.
  • Afeta as funções executivas, como memória, foco e atenção.
  • Há perda da capacidade de sentir prazer. “O desinteresse pelas aulas e até pelas amizades é involuntário”, lembra Aragão.
  • O ambiente escolar afeta o quadro. “Cobranças severas e exposição pública funcionam como estresse. Flexibilização pedagógica e acolhimento são fatores de proteção”, explica Faro.
  • O professor é ponte, não terapeuta. Pode identificar sinais, encaminhar para profissionais de saúde e se colocar à disposição para uma escuta sem críticas e julgamentos. “Isso tira a sobrecarga das costas do professor, evitando que prejudique a sua própria saúde mental”, destaca Aragão.

Como manejar a depressão em alunos?

Em suas oficinas de formação, os especialistas oferecem algumas orientações:

  • Não minimizar o sofrimento do aluno com frases como: “É coisa da idade/fase”; “É falta de ocupação”; “Você não tem motivos para estar assim”; “É falta de vontade”; “Frescura”; “Não é problema da escola”; ou “Falar sobre o assunto pode piorar a situação”.
  • “Substitua essas abordagens por uma postura que valide o esforço atual do aluno, mesmo que seja apenas o de conseguir ir à escola”, orienta Faro. “O acolhimento prático se dá na ponta: é a flexibilização de um prazo, o tom de voz brando, fazer com que o aluno sinta que sua existência importa mais que o cumprimento burocrático de uma tarefa”, complementa. “É uma estratégia de acessibilidade e manejo indispensável, já que acomodar as demandas temporariamente é o que permite ao aluno manter o vínculo com a escola enquanto se recupera.”
  • Optar por falas como: “Notei que você está mais quieto. Está acontecendo algo? Estou aqui se precisar”.
  • Não tentar resolver a situação sozinho, sem encaminhamento profissional.
  • Saber que há uma relação entre depressão e comportamentos autolesivos e suicidas. “São expressões severas de uma dor psíquica que o jovem não consegue traduzir em palavras.”
  • Entender a importância da escola como espaço de promoção de saúde mental, não apenas de ensino. “Promover a saúde mental na escola não é desviar da função de ensinar; é garantir as condições humanas mínimas para que o aprendizado aconteça”, lembra Aragão.
  • Realizar oficinas psicoeducativas com adolescentes ou utilizar os livros e jogos elaborados pelo Projeto MAR.

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Crédito da imagem: Maskot – Getty Images

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