Os homens brasileiros têm vontade de participar ativamente do cuidado dos filhos e da gestante, porém sentem-se inseguros e com pouco conhecimento sobre o assunto.

Esses são alguns dados iniciais de um estudo desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa e Estudo em Enfermagem (Gepenf) do Centro Universitário Arthur Sá Earp Neto (Unifase), sob orientação da doutora em enfermagem e professora da Unifase Natália Elisa Duarte e apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

“A pesquisa analisa as vivências da paternidade no gestar, parir e cuidar de forma a compreender quais representações do que é ser pai estão presentes e como elas implicam nas atitudes e ações”, explica Duarte.

“A oportunidade de aprender a cuidar deve ser inserida na primeira infância. Assim, a cultura do cuidar e de ser cuidado já estará presente no homem que se tornar pai”, defende.

A orientadora compartilha abaixo as dificuldades, pressões sociais e os estereótipos que aparecem nos relatos dos entrevistados e influenciam na vivência da paternidade.

Como a paternidade influencia o desenvolvimento dos filhos e quais as implicações sociais dela?

Natália Elisa Duarte: A paternidade é uma construção social que acompanha uma posição identitária. Ser pai ou um bom pai possui significados diferentes a depender das representações, vivências de cuidado paterno, relações familiares, da cultura e crenças de um grupo social. Com a inserção da mulher no mercado de trabalho e o crescimento do feminismo, vemos um avanço nos estudos de gênero buscando compreender as novas inserções sociais.  Eles apontam que a presença do pai e o cuidado dele aos filhos impacta no desenvolvimento infantil, evasão escolar e violência. Assim, podemos concluir que a presença do pai impactará na saúde da mulher, pois será possível buscar uma igualdade de gênero.

Do que trata a pesquisa?

Duarte: Ela analisa as vivências da paternidade no gestar, parir e cuidar de forma a compreender quais representações do que é ser pai estão presentes e como elas implicam nas atitudes e ações de cuidado, sejam financeiros, afetivos, de manutenção da saúde. Busca reconhecer como é ser pai e sua atuação no contexto familiar. A partir disso, queremos identificar possibilidades de atuação da enfermagem com vistas a promover uma paternidade que traga benefícios para o homem, filhos e mulher.

A partir das primeiras investigações, o que é possível dizer sobre como os homens vivenciam a paternidade no Brasil?

Duarte: Nosso estudo identificou que, entre os homens, há uma enorme vontade de participar ativamente do cuidado dos filhos e da gestante, porém eles se sentem invisibilizados e inseguros, já que não foram formados para cuidar do outro. Sentem que precisam de mais informações e orientações.

Quais dificuldades os homens relatam para o exercício dessa paternidade de modo mais ativo?

Duarte: Percebemos nas falas que a maior dificuldade é o desconhecimento do cuidar por não saberem ou se sentirem inseguros para realizar isso. Na sequência, há atribuições financeiras e compromissos com a profissão e carreira. O mundo do trabalho é incompatível com o mundo do cuidado. E, geralmente, o papel social do homem na família é de custeio, o que impacta no seu afastamento do cuidado.

Quais são as pressões sociais que os homens enfrentam em relação à paternidade?

Duarte: Nosso estudo não trata exatamente dessa situação, mas, ao pesquisar sobre o assunto, percebemos que os homens atualmente enfrentam uma transição, entre o pai tradicional, que sustenta financeiramente o lar, e o do futuro, que deseja estar envolvido afetivamente nos cuidados à criança. Então, muitos são pressionados a participar mais ativamente da educação e dos cuidados do filho e ao mesmo tempo contribuindo com o sustento do lar. Contudo, quando crianças, os homens apenas são cuidados sem praticar o cuidado ao outro, o que gera muita insegurança na fase adulta.

Quais são os estereótipos de gênero que você considera prejudiciais aos pais?

Duarte: O do homem insensível; que educa pela violência, seja física ou psicológica; e do homem que tem que sustentar o lar. Todos afastam fisicamente ou afetivamente os pais dos filhos, impedindo a vivência de uma paternidade ativa.

Quais são as atividades ou responsabilidades que eles assumem para serem pais mais envolvidos?

Duarte: Isso ainda está em fase de análise, mas podemos relatar que a presença em consultas de pré-natal e no parto são momentos em que esse homem começa a se sentir mais pai, em que se envolve afetivamente com a criança e com a mulher.

As responsabilidades entre pais e mães são igualmente distribuídas? A desigualdade de gênero aparece nos relatos?

Duarte: Com certeza as responsabilidades não são igualmente distribuídas. Já é discutido na área de saúde da mulher o quanto a sobrecarga e a dupla e tripla jornadas de trabalho a afetam. Mas consideramos que nesse processo é preciso acolher e escutar os homens para, assim, torná-los mais capazes de cuidar. O que mais encontramos é que ele acredita que a mulher possui a competência do cuidado e que o fará melhor que ele. Acreditamos que é importante questionar os papéis de gênero para assim alcançarmos uma equidade entre todos e uma melhor qualidade de vida.

Os homens recebem apoio para se tornarem pais mais ativos? E como isso impacta no exercício da paternidade?

Duarte: O relato é que não: eles se sentem invisíveis e excluídos. Tudo isso gera insegurança e, apesar do desejo de cuidar, eles sentem que não sabem fazer; que farão errado e que a mãe fará melhor que eles.

Quais tipos de apoio poderiam ser oferecidos e por quem?

Duarte: A oportunidade de aprender a cuidar deve ser inserida na primeira infância. Assim, a cultura do cuidar e de ser cuidado já estará presente no homem que se tornar pai. Então, podemos começar a pensar que brincar de boneca não [deve ser] realizado só pela menina, afinal a boneca representa um bebê que deverá ser cuidado pelos pais. Além disso, o mundo do trabalho deve buscar maneiras de garantir ao homem o exercício da sua paternidade por meio de direitos trabalhistas que possibilitem acompanhar o pré-natal, o cuidado ao bebê e à puérpera e acompanhar o crescimento e desenvolvimento do filho.

Durante as investigações, houve algo que lhe surpreendeu trazido pelos homens ouvidos?

Duarte: Os relatos emocionantes de pais que choraram, apresentaram tristeza por outras perdas anteriores ou por não conseguir participar como gostaria da criação dos filhos ou aqueles que desejam ser pais melhores.

Veja mais:

Homens usam YouTube para defender e inspirar paternidade ativa

Publicação reúne reflexões sobre paternidades e primeira infância

Crédito da imagem: Capuski – Getty Images

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