Leonardo Valle

Era 1992 quando a professora universitária Edith Modesto descobriu que seu filho caçula, Marcello, era homossexual. Desesperada, ela buscou conversar com outras mães e não encontrou ajuda. Após um longo processo de aceitação, Edith fundou, em 1997, o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), hoje voltado para acolher familiares de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e interssexuais (LGBTI) que buscam entender seus filhos. As reuniões, que começaram com quatro pessoas em sua casa, hoje acontecem em sete estados e em grupos virtuais nos quais só entram pais.

“A homossexualidade era uma coisa que não tinha nada a ver comigo e eu nem pensava sobre. Sabia que não era doença, mas achava que meu filho era sem-vergonha ou andava em más companhias. Foi uma confusão”, relembra. “O assunto era tabu e a internet ainda era bem rudimentar. Pensei, já que meu filho é ‘isso’, fui procurar saber quem são essas pessoas. Entrei em um bate-papo de rapazes gays e permaneci meses só observando. Foram as primeiras pessoas que me acolheram e suas mães, anos depois, foram os primeiros membros do GPH”, conta.

Edith Modesto com seu filho Marcello. A descoberta da homossexualidade do filho a incentivou a criar o GPH (crédito: divulgação)

 

Para tentar entender o assunto, Modesto se muniu de um gravador e foi a campo, entrevistar homens gays. Os relatos, anos mais tarde, transformaram-se no livro “Vidas em arco-íris”. “Eu entrevistei 96 homens gays, de 14 a 66 anos. Digo que não fiz esse livro para ajudar os outros, mas a mim. Eu ainda não compreendia”, confessa.

“Me sentia julgada por todos”

A educadora Mércia Falcini mora no interior de São Paulo e foi uma mãe que recebeu apoio de Edith Modesto, em 2009. Na ocasião, seu ex-marido limpava o histórico do único computador da família quando descobriu conversas do seu filho Gabriel, então aos 15 anos, com outros jovens.

Mércia Falsini com seu filho, Gabriel: laços fortalecidos após as dificuldades iniciais de aceitação (crédito: arquivo pessoal)

 

“O pai do Gabriel imprimiu os textos e o confrontou. Nosso filho assumiu e eu levei um susto. Ouvia que gays vinham de famílias desestruturadas, e a minha não era. Não sabia o que pensar”, relembra. “Fui cruel e preconceituosa com meu filho. Obriguei ele a namorar uma menina e o levei no endocrinologista porque, para mim, as meninas não se interessavam por ele por ser gordinho. Então, optamos por mudar o Gabriel de cidade e ele foi morar com a minha irmã na capital”, lamenta.

Foi por meio da internet que Falcini conheceu o GPH. “Liguei para a Edith, que me atendeu e acolheu na hora. Eu me sentia julgada tanto por pessoas que achavam que a situação era minha culpa, como por pessoas que não entendiam por que eu não conseguia aceitar facilmente. O grupo é importante porque lá podemos falar o que sentimos para iguais, sem receio”, explica.

Para Falcini, o aceite veio em três processos: culpa, negação e luto. “A primeira coisa que vem é: onde eu errei? A segunda é negar aquele filho, que não era o que eu queria. Por fim, o luto. Eu chorava muito. Às vezes, saía para caminhar só para as pessoas não me verem chorando”, descreve.

A educadora contou para Gabriel que estava procurando ajuda e que não queria perdê-lo. O filho se emocionou e, aos poucos, eles foram se reaproximando. Nos anos seguintes, Falcini se tornou uma mãe de referência no GPH. “Acompanhei o processo de outros pais e cheguei a acolher um jovem que foi expulso de casa por ser gay. Ao final, fiz dessa história algo positivo, para poder ajudar outras pessoas”, descreve.

Mudanças sutis

Do ano de fundação do GPH até os dias de hoje, Modesto vê algumas mudanças. “Hoje, pessoas já aceitam que o filho da vizinha seja gay, antes, nem isso. O tempo de aceitação dos pais está menor também. Além disso, as mães de hoje evitam chorar na frente dos filhos”, revela.

Para ela, a não aceitação vem da dificuldade de setores da sociedade em entender a homossexualidade como mais uma faceta da diversidade humana. “Quando a mulher engravida, ela até pode pensar que o filho nasça com alguma deficiência, mas não imagina a possibilidade que ele não seja heterossexual. Os pais constroem sonhos para esse filho e, quando a notícia vem, a queda é muito grande”, afirma.

Segundo Modesto, os grupos de apoio oferecem um espaço para os pais externalizarem que estão tristes, com vergonha e outros sentimentos sem que o filho saiba. “As mães, geralmente, ligam desesperadas. Se não há um encontro na sua cidade, indicamos uma mãe de referência que more mais próximo ou nosso grupo virtual, que é ultrassigiloso. O que falamos ali, fica ali”, garante.

Por fim, ela vê nas dificuldades do processo de aceitação uma oportunidade de pais e filhos se amarem pelo que são. “Quando um pai não sabe da verdade, está amando alguém que não é seu filho e está perdendo uma parte importante da vida dele. É comum, por exemplo, os filhos sofrerem sozinhos quando terminam uma relação ou quando sofrem bullying no colégio”, relata. “Digo que os pais possuem o direito de terem seus filhos por inteiro, e vice-versa. E que o amor sempre vence”, finaliza.

Para mais informações sobre o GPH, basta entrar em contato pelo telefone 11 3031-2106, maes-de-homo@uol.com.br ou via site.

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