Leonardo Valle

O setor petroleiro tem cobiçado cada vez mais a região amazônica. Até 2020, o governo federal pretende colocar centenas de blocos de petróleo em leilão permanente, sendo 80 deles no território da floresta. A exploração dessa fonte de energia, porém, pode causar danos permanentes àquele bioma.

“São blocos que se encontram na Amazônia Verde (terrestre). Isso significa que eles estão sob o coração da mata, em áreas a serem demarcadas ou de demarcação indígena e próximos a Manaus”, explica o especialista em energia do Greenpeace Brasil, Thiago Almeida.

“O vazamento de um duto ali contaminaria a água da região e, lentamente, toda a cadeia alimentar. Além disso, teria impactos ambientais e econômicos, pois afetaria as comunidades que dependem da pesca para sobreviver e as populações indígenas e ribeirinhas, já vulneráveis e ameaçadas”, alerta.

E a perspectiva não é fantasiosa. Em 2013, o derramamento de 11.480 na selva amazônica equatoriana, via uma embarcação, atingiu os rios do Brasil e do Peru.

“As pessoas ficaram proibidas de consumir água ou se banhar nos rios. E nesse caso era apenas uma embarcação. Se o vazamento vem de um poço, o impacto é muito maior”, adverte Almeida. “O petróleo contamina rios e igapós (vegetação submersa), permanecendo no solo e sendo de difícil recuperação”, complementa.

Segundo Almeida, a população pode contribuir para que a área não seja explorada contatando o Ministério Público Federal (MPF) e acompanhando suas resoluções. “Em 2015, uma mobilização evitou que os mesmos blocos do coração da Amazônia fossem postos a venda”, relembra.

Corais em risco

Além da Amazônia Verde, a chamada Amazônia Azul (área oceânica da região) também está ameaçada. A Petroleira Total aguarda a autorização para explorar a bacia da foz do Amazonas, negada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em abril de 2018.

Os motivos foram falhas no plano de emergência em caso de vazamento e a recém-descoberta pelo Greenpeace de recifes de corais na região do Amapá. “Altas concentrações de petróleo podem matar essas formas de vida, que constituem um bioma único no mundo, de potencial científico ainda não explorado”, relata Almeida.

Além disso, os peixes são a principal fonte de proteína animal para as populações das cidades costeiras do estado do Amapá e do Pará, que dependem da pesca para subsistência e comércio. “Um derramamento de óleo seria trágico”.

A exploração petrolífera também atrapalharia a vida marinha da região, devido ao tráfego das embarcações. Por fim, há ainda a possibilidade de contaminação da região de manguezais. “O mar invade o mangue por quilômetros, e quando a maré volta, aquele produto continuaria ali”, descreve. “Mangues são fundamentais para a vida marinha, pois são áreas de reprodução e berçários de diversas espécies, contribuindo para um oceano saudável.

Energia no fim

As primeiras buscas pela substância na Amazônia começaram no final dos anos 1960, e as explorações iniciais, na década seguinte. Segundo o Greenpeace, 1 bilhão de dólares já foram investidos pela Petrobras em 71 perfurações especificamente em águas rasas na região, sem que nenhuma fonte comercialmente viável fosse encontrada.

Para Thiago, perfurar a região para essa busca é investir em um modelo de energia que caminha para o fim. “Não podemos queimar todo o petróleo do planeta porque isso prejudicaria o clima e a existência humana. Já é amplamente sabido que precisamos investir em fontes de energia renováveis, como a solar e a eólica”, pontua.

Crédito das imagens: Greenpeace

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