Obstáculos e caminhos para a modernização da forma como se ensina no Brasil. Esse é o tema da entrevista abaixo com Jarbas Novelino Barato, professor da Universidade São Judas Tadeu e especialista em educação a distância. O pedagogo questiona os arcaísmos que ainda existem nas salas de aula do país e apresenta sugestões que podem tornar o aprendizado muito mais agradável, baseadas em internet e softwares de uso comum.

Quais os desafios e tendências da educação, hoje?

A maior parte dos laboratórios que você tem nas escolas são uma sala tipo auditório, com bancadas e lugares individuais. Ou seja, eles são iguaizinhos às salas de aula tradicionais. Tentar fazer um trabalho de equipe é uma coisa difícil, porque toda a tecnologia das escolas não mudou a arquitetura escolar, a organização do espaço. Você pode até ter os computadores, mas continua com ideias de cada um ter sua nota, passar na frente dos outros e ter o diploma. A educação continua com o antigo modelo. Também se fala ainda sobre uma resistência do professor…

O professor pode ser resistente, mas tem ainda a diretoria, a secretaria…

O professor tem toda a minha simpatia. Na verdade, todos querem que ele mude o seu trabalho por conta dele, com investimento dele. Como ele pode fazer isso? Na casa dele, com o recurso dele, com o tempo particular dele? A minha tese agora é que o principal protetor contra a tecnologia na educação é a administração educacional.

E existem maneiras de se apropriar da tecnologia de forma simples, sem exigir essa mudança radical na rotina de trabalho do professor?

Existem! A primeira são softwares genéricos que estão em qualquer computador e têm utilidade em uma área determinada. O Word, por exemplo. Você pode escrever uns textos e, usando os marcadores de correção, inserir alguns erros comuns. Depois é só pedir para o aluno corrigir, aceitando ou rejeitando as mudanças. Tudo o que tiver verde e vermelho precisa desaparecer. É uma ideia legal. Uma coisa mais legal ainda é usar o Word com uma velha técnica que se chama redação ou escrita cooperativa. Você prepara o começo do texto e deixa no final uma abertura para a história ir para lá ou para cá. Em uma bancada com cinco computadores, você dá essa idéia inicial para cada um continuar a história em seu computador, durante mais ou menos uns oito minutos. Aí você fala para todo mundo trocar de computador e continuar a história. Alguns reclamam um pouco por trabalhar no texto do outro, mas aí pegam o jeito e começam a escrever. É muito engraçado. Eles começam muito devagar e na metade da experiência está todo mundo digitando que nem um louco porque querem construir, fazer a história, e você precisa só de imaginação para fazer isso.

Há alguma referência em que os professores possam se inspirar?

Existe um site americano simples, mas que pode ajudar professores de alguma maneira no seu trabalho, chama-se teachnologic Eles vão recolhendo recursos e colocando à disposição dos professores. Por exemplo, eles têm um material para você construir tabelas de bingo, e o professor imagina como utilizar isso. Para mostrar como isso pode funcionar, uma coisa que eu faço com meus alunos é preencher cada um dos quadradinhos com os nomes dos Estados: Amazonas, Pará, Maranhão, Ceará e assim por diante. Então, ao invés de cantar o estado, você canta as capitais, e os alunos são obrigados a tentar achar o Estado correspondente. Se você é professor de matemática e está trabalhando operações simples, você pode preencher os espaços com contas como dois mais dois e cantar os resultados que preenchem aquela conta. Embora seja em inglês, o site recolhe e faz uma coleção de material de apoio.

O senhor acredita que o uso do computador fora da sala de aula cria um novo espaço de aprendizado?

O uso da internet fora da escola é um impasse cultural, pois as pessoas usam esse meio de informação de acordo com seus interesses. Muita gente que usa a internet para educação faz um uso muito convencional, o famoso copia e cola. Para fazer uso de recursos da internet é preciso que se tenha estrutura. A navegação solta, sem direcionamento, ou faz descobrir coisas que não têm nada a ver com o trabalho original ou deixa as pessoas perdidas. As pessoas, para fazerem buscas mais inteligentes na internet, precisam de uma estrutura que as ajude a procurar. Haveria jeito de fazer isso com projetos.

A webgincana, por exemplo, como funciona?

A webgincana nasceu de uma tradução que eu fiz do que em português seria Caça ao Tesouro, um jogo comum nos EUA composto de um desafio de procurar coisas a partir de dicas e questões. E isso foi transferido para a educação. Você cria um número determinado de perguntas que exigem repostas curtas e os recursos para responder isso estão na internet.

Algo como “o deserto do Atacama fica no Chile?”

Você pode dourar mais a coisa: “região da América do Sul cuja natureza se assemelha muito à paisagem lunar”, e achar o Valle de la Luna, no Chile. Se você perguntar assim “cidade onde nasceu fulano de tal”, coloca no Google e  já mostra onde nasceu, pronto. Uma pergunta legal que eu estava pensando outro dia para os meus alunos era assim: “grande poeta brasileiro que tem o símbolo da pátria no sobrenome”. O Google não responde isso. Você vai ter que ler um trechinho que tem  Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, grandes poetas brasileiros. Depois pode complementar e fazer o grupo escolher um poema do poeta, ensaiar e apresentar um jogral. Outro exemplo de questão: “romance gaúcho que tem no título uma cidade com nome de uma estrela”. Aí vão descobrir que tem um livro que se chama Incidente em Antares, que é de um autor chamado Érico Veríssimo. E você pode emendar uma missão na biblioteca para encontrar mais três livros desse autor. Vai usar a biblioteca, que falam que ninguém usa direito.

Conte-nos um pouco sobre o webquest

O webquest trabalha a questão de como você organiza uma estrutura e cria um desafio para que as pessoas estudem alguma coisa. O criador do webquest, Bernie Dodge, ia dar uma aula sobre um determinado software e tinha quatro fontes de informação sobre o programa: um texto, um vídeo e duas pessoas que tinham utilizado o software. Ele pensou o seguinte: posso formar equipes de quatro pessoas e cada uma vai se especializar em uma coisa. Um pega o texto, outro pega o vídeo, outro entrevista Nova Iorque e outro entrevista San Diego. Durante uma hora cada um estudava o assunto e depois a equipe tinha que elaborar um memorial técnico. Ou seja, é como se você tivesse um objeto e quatro visões diferentes sobre ele, e essas quatro visões se reuniam para produzir um produto final. A partir daí ele começou a trabalhar a ideia de desenvolver estrutura para isso. Significa trabalhar dentro de um grupo que tem diversos conhecimentos e interesses para articular um projeto que é comum. Essa é a ideia geral da webquest.

Aqui no Brasil muitas pessoas falam que webquest é ultrapassado

A questão da falta de canalizar com a mídia é muito grande. No ano retrasado, o pessoal do programa de educação matemática da PUC me convidou para falar sobre blog na educação. Eu fazia algumas brincadeiras com blog e via que o pessoal não ria. Aí eu falei: “Peraí! Quantos de vocês já viram um blog na vida?”. Entre umas 30 pessoas, três ou quatro já tinham visto. E era pessoal da pós-graduação, mestrado e doutorado da PUC de São Paulo, uns dois anos atrás. Em coisas que são mais técnicas, como webgincana e webquest, há menos conhecimento ainda. É uma mania nacional consumir novidade uma atrás da outra… O webquest tem mais de dez anos, para muitas pessoas está muito ultrapassado. Só que nestes dez anos a comunidade de gente que pensa nisso vem trabalhando, mudando, melhorando, fazendo e pensando no que pode ser feito de diferente.

 

Fotos: Maíra Soares

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