A genética é trabalhada nos anos finais do ensino fundamental – quando os estudantes têm o primeiro contato com noções de hereditariedade, células, DNA e características transmitidas entre gerações – e no ensino médio, quando são aprofundados conteúdos como genes, cromossomos, mutações, leis de Mendel, genótipo e fenótipo, além de temas contemporâneos, como biotecnologia e engenharia genética.
Em ambos os casos, a franquia X-Men, do universo Marvel, pode ser usada para ensinar conteúdos curriculares nas aulas de biologia. Ela retrata os “mutantes”, pessoas que nascem com habilidades especiais decorrentes de uma alteração genética fictícia conhecida como “gene X”.
Esse elemento pode ser relacionado a conceitos reais da genética, como explica a doutora em ensino em biociências e saúde e professora das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro (RJ) Juliana Macedo Lacerda Nascimento.
“O universo dos X-Men pode facilitar o ensino de temas como modelo tridimensional do DNA proposto por Watson e Crick (1953); mutações do material genético e possíveis consequências; heterocromia (mutação na cor dos olhos); danos ao material genético; adaptação das espécies; variabilidade genética; preconceitos e debates sobre o papel da ciência no campo da biotecnologia”, lista Nascimento.
Atividade com filme
Nascimento elaborou um “Guia do educador para o filme ‘X-Men – Primeira Classe’” (classificação indicativa: 14 anos) para ensinar o conteúdo no ensino médio. A proposta recomenda utilizar diferentes cenas do filme:
Cena 1: Em um campo de concentração nazista, o menino Erik (futuro Magneto) é pressionado pelo vilão, Shaw. Ele ameaça assassinar a mãe de Erik se ele não demonstrar seus poderes. Shaw diz: “Os genes são a chave para uma nova era, Erik”.
“A partir da cena, é possível levantar ou identificar os conhecimentos dos estudantes através de perguntas como: por que os genes, de acordo com a cena, são a chave para uma nova era? Existe alguma relação entre os genes e as características inusitadas dos mutantes? Qual a relação entre os genes e a Teoria da Evolução das espécies?”, sugere Nascimento.
Cena 2: (heterocromia) Charles (futuro Professor Xavier), pesquisador na área da genética, aponta que uma moça tem uma mutação que deixa os olhos com cores diferentes: verde e azul. Essa mutação é cientificamente chamada de heterocromia. “Podem ser discutidos com os estudantes: na natureza, existem indivíduos mutantes? Que exemplos podem ser citados? Como podemos comprovar a existência de mutações? O que pode ocasionar mutações? As mutações podem ser benéficas?”, aponta a professora.
Cena 3: (adaptação e neodarwinismo) Um grupo de jovens mutantes exibe seus poderes em uma sala. Eles escolhem seus “apelidos” de acordo com as habilidades demonstradas. Um dos jovens é nomeado “Darwin”, devido à sua capacidade de adaptação a ambientes e situações de forma instantânea e, quando mostra que é capaz de respirar dentro da água, é aplaudido pelos novos amigos e diz: “Eu me adapto para sobreviver”. “Perguntas para os alunos: por qual motivo esse personagem recebeu o apelido de Darwin? Qual é a relação entre mutação e adaptação?”
Atividade com quadrinhos
Mestre em genética, biodiversidade e conservação e professora de biologia da rede estadual da Bahia, Karine Brandão Nunes Brasil criou uma atividade de contraturno chamada “Mutantes” para trabalhar genética no Centro Juvenil de Ciência e Cultura de Vitória da Conquista (BA).
Ela iniciou a atividade com uma “nuvem de palavras”, na qual foi feito um levantamento prévio do conhecimento dos estudantes sobre o tema mutações genéticas. Na sequência, foi solicitada uma pesquisa sobre mutações reais em humanos e a criação de personagens com uma mutação fantásticas. A partir dessas produções, foram estudados temas como anemia falciforme, cabelos ruivos e heterocromia.
Confira dois trabalhos dos estudantes:
“Dois pontos me chamaram atenção nos X-Men. O primeiro é o seu criador, Stan Lee, retirar dados da ciência e transformá-los em superpoderes de ficção. Ele retrata um mundo parecido com o nosso, onde muitos nascem com mutações genéticas. Mais do que falar sobre superpoderes, estamos falando sobre diversidade”, explica Brasil.
“O segundo ponto é que os personagens são uma metáfora das minorias sociais, mostrando como o medo da diferença gera preconceito, exclusão e violência. Assim, a série também representa a luta por direitos e a necessidade de aprender a lidar com a diversidade”, justifica a professora.
Para criar os personagens com poderes super fantásticos a partir de uma mutação genética, Brasil supervisionou o uso de inteligência a artificial pelos alunos.
“Também realizamos atividades práticas, como origami do DNA e práticas de laboratório”, relata.
Além de desenharem os quadrinhos dos personagens que criaram, os alunos também fizeram cosplay – prática de se fantasiar e interpretar um personagem.
“Ao fazer essa correlação do superpoder com uma condição genética, podemos, ainda, abordar o preconceito. A literatura do século passado traz termos relacionados à genética estereotipados e preconceituosos, como aberração, anomalia e doença. Podemos abordá-los e discutir expressões que deixamos de usar ao nos referirmos a condições genéticas por outras cientificamente melhores, como no caso da síndrome de Down”, conclui Brasil.
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Crédito da imagem: yogysic – Getty Images